A automação inteligente traz um risco oculto, mas há solução, garante Matt Beane

Tânia Reis
20 de Março 2026 | 11:40
A automação inteligente traz um risco oculto, mas há solução, garante Matt Beane

Na 31.ª Conferência Human Resources, que aconteceu ontem no Museu do Oriente, Matt Beane, autor de “O código das competências”, partilhou conclusões sobre a sua investigação da interacção entre humanos, robôs e inteligência artificial no mundo do trabalho.

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Numa participação via vídeo intitulada “The Skill Code – How to Save Human Ability in an Age of Intelligent Machines”, o professor auxiliar no Departamento de Gestão de Tecnologia da Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB), Digital Fellow no Sanford Digital Economy Lab e no MIT Institute for the Digital Economy, começou por contar a história de Kristen, uma cirurgiã em formação, que encaminha um paciente com cancro da próstata para a sala de operações.

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Após descrever os procedimentos, liderados por Kristen com o cirurgião responsável a orientar, deu nota de que «Kristen sente-se óptima. O paciente vai ficar bem e ela é, sem dúvida, uma cirurgiã melhor do que era antes da cirurgia.»

«Agora avancemos seis meses», exactamente no mesmo cenário, mas, desta vez, a sala de operações era robótica, proseeguiu Matt Beane. «Kristen e o cirurgião responsável ligam um robô de quatro braços e 450 quilos ao paciente. Ambos tiram as batas cirúrgicas e vão até às consolas de controlo a três ou quatro metros de distância.»

Como o cirurgião responsável podia realizar todo o procedimento sozinho com o robô, o orador realçou que, a Kristen, resta-lhe apenas sentar-se, colocar as mãos no comando e, durante quatro horas e meia, observar. O cirurgião responsável sabe que a prática é fundamental, mas a velocidade e a ausência de erros também, acrescentou.

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Essa foi a principal conclusão da sua investigação de doutoramento, no MIT entre 2012 e 2015: «Kristen não tem a mínima hipótese de sequer chegar perto destes procedimentos durante este período de treino».

E recordou que se questionou imediatamente se o problema aconteceria também noutras áreas, já que a automação inteligente permitia a um especialista realizar mais trabalho de forma independente. Não só havia mais eficiência, mais foco e motivação, como também menos gastos para o hospital. «A única pessoa que saía a perder nesta equação, que sofria, era a potencial nova cirurgiã que não podia participar.»

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Até 2020, Matt Beane tinha descoberto em mais de 31 funções, desde «armazenamento e logística, passando pelos cuidados a idosos, trabalho intelectual, à engenharia de software e alta finança», que a automatização inteligente, na verdade, permite um aumento de produtividade, mas à custa da participação de aprendizes.

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E como são «mais lentos e cometem mais erros», a escolha padrão, muitas vezes não intencional, é simplesmente não os envolver, sublinhou. Claro que isso não representa um desafio para todas as profissões, garantiu. Na cirurgia já o é, mas para outras áreas, como a engenharia de software, será apenas um problema dentro de três ou quatro anos, «quando precisarmos de novos especialistas que possam fazer o trabalho dos que se estão a reformar», explicou.

Resumidamente, «conceber e utilizar a IA de uma forma que separa, no trabalho, os especialistas dos aprendizes», torna este mais opcional e permite que aquele avance mais depressa, o que irá “esvaziar” profissões e organizações ao longo do tempo, explicou.

«A questão que se coloca é: o que podemos fazer em relação a isso?», deixou no ar. A boa notícia, resultado da sua investigação e espelhada na sua mais recente obra “O código das competências”, é o facto de haver sempre quem encontre «uma nova forma de desenvolver competências e obter excelentes resultados».

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A essas pessoas, Matt Beane chama “shadow learners” (ou aprendizes-sombra), porque estão a ter de lutar e quebrar as regras para adquirir e desenvolver novas competências. «E encontrar estas pessoas é fundamental, para aprendermos com elas», alertou, porque são elas que lutam para proteger o “código de competências”, ou seja os desafios e complexidade no trabalho, as dificuldades necessárias para desenvolver competências, o tempo para reflectir e aprender. Mas também lutam pela «conexão, pelos laços de confiança e pelo respeito entre seres humanos».

E, no fundo, «são estas as três características de um trabalho saudável que gera excelentes resultados e impulsiona o desenvolvimento de competências»: “desafio, complexidade e ligação”, enumerou. Em jeito de desafio, encorajou os presentes a analisar a sua actual situação profissional e a identificarem onde o desafio, a complexidade e a ligação são particularmente fortes e saudáveis. «Como podem protegê-los? Como podem fortalecê-los? E onde estão a ser desafiados actualmente? Onde estão enfraquecidos devido à forma como a IA está a ser utilizada?»

No final do dia, «todos temos a opção de escolher como utilizar estas tecnologias», garantiu, comprovando com um exemplo que permite ter produtividade e desenvolvimento de competências em simultâneo. «Na desactivação de bombas, a prática de um técnico sénior era ir até à bomba e lidar com ela sozinho. O aprendiz ficava num camião blindado a duzentos ou trezentos metros de distância, tornando a aprendizagem muito difícil. Agora, o aprendiz e o técnico sénior estão nesse camião a 200 ou 300 metros da bomba e o aprendiz controla o robô que vai até à bomba. É muito mais fácil de aprender, mais seguro e mais rápido.»

É essa a mensagem do código de competências: é possível «conseguir melhorias nas competências, na produtividade e no rendimento, de modo a amanhã estar mais capacitado e mais preparado para os desafios do futuro do que hoje.»

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«Não podemos abdicar da IA, mas a forma como concebemos e utilizamos estes sistemas para melhorar ambos os resultados em simultâneo é uma escolha nossa», concluiu o investigador.

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