Na 31.ª Conferência Human Resources, que aconteceu ontem no Museu do Oriente, Matt Beane, autor de “O código das competências”, partilhou conclusões sobre a sua investigação da interacção entre humanos, robôs e inteligência artificial no mundo do trabalho.
Numa participação via vídeo intitulada “The Skill Code – How to Save Human Ability in an Age of Intelligent Machines”, o professor auxiliar no Departamento de Gestão de Tecnologia da Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB), Digital Fellow no Sanford Digital Economy Lab e no MIT Institute for the Digital Economy, começou por contar a história de Kristen, uma cirurgiã em formação, que encaminha um paciente com cancro da próstata para a sala de operações.
Após descrever os procedimentos, liderados por Kristen com o cirurgião responsável a orientar, deu nota de que «Kristen sente-se óptima. O paciente vai ficar bem e ela é, sem dúvida, uma cirurgiã melhor do que era antes da cirurgia.»
«Agora avancemos seis meses», exactamente no mesmo cenário, mas, desta vez, a sala de operações era robótica, proseeguiu Matt Beane. «Kristen e o cirurgião responsável ligam um robô de quatro braços e 450 quilos ao paciente. Ambos tiram as batas cirúrgicas e vão até às consolas de controlo a três ou quatro metros de distância.»
Como o cirurgião responsável podia realizar todo o procedimento sozinho com o robô, o orador realçou que, a Kristen, resta-lhe apenas sentar-se, colocar as mãos no comando e, durante quatro horas e meia, observar. O cirurgião responsável sabe que a prática é fundamental, mas a velocidade e a ausência de erros também, acrescentou.
Essa foi a principal conclusão da sua investigação de doutoramento, no MIT entre 2012 e 2015: «Kristen não tem a mínima hipótese de sequer chegar perto destes procedimentos durante este período de treino».
E recordou que se questionou imediatamente se o problema aconteceria também noutras áreas, já que a automação inteligente permitia a um especialista realizar mais trabalho de forma independente. Não só havia mais eficiência, mais foco e motivação, como também menos gastos para o hospital. «A única pessoa que saía a perder nesta equação, que sofria, era a potencial nova cirurgiã que não podia participar.»
Até 2020, Matt Beane tinha descoberto em mais de 31 funções, desde «armazenamento e logística, passando pelos cuidados a idosos, trabalho intelectual, à engenharia de software e alta finança», que a automatização inteligente, na verdade, permite um aumento de produtividade, mas à custa da participação de aprendizes.
E como são «mais lentos e cometem mais erros», a escolha padrão, muitas vezes não intencional, é simplesmente não os envolver, sublinhou. Claro que isso não representa um desafio para todas as profissões, garantiu. Na cirurgia já o é, mas para outras áreas, como a engenharia de software, será apenas um problema dentro de três ou quatro anos, «quando precisarmos de novos especialistas que possam fazer o trabalho dos que se estão a reformar», explicou.
Resumidamente, «conceber e utilizar a IA de uma forma que separa, no trabalho, os especialistas dos aprendizes», torna este mais opcional e permite que aquele avance mais depressa, o que irá “esvaziar” profissões e organizações ao longo do tempo, explicou.
«A questão que se coloca é: o que podemos fazer em relação a isso?», deixou no ar. A boa notícia, resultado da sua investigação e espelhada na sua mais recente obra “O código das competências”, é o facto de haver sempre quem encontre «uma nova forma de desenvolver competências e obter excelentes resultados».
A essas pessoas, Matt Beane chama “shadow learners” (ou aprendizes-sombra), porque estão a ter de lutar e quebrar as regras para adquirir e desenvolver novas competências. «E encontrar estas pessoas é fundamental, para aprendermos com elas», alertou, porque são elas que lutam para proteger o “código de competências”, ou seja os desafios e complexidade no trabalho, as dificuldades necessárias para desenvolver competências, o tempo para reflectir e aprender. Mas também lutam pela «conexão, pelos laços de confiança e pelo respeito entre seres humanos».
E, no fundo, «são estas as três características de um trabalho saudável que gera excelentes resultados e impulsiona o desenvolvimento de competências»: “desafio, complexidade e ligação”, enumerou. Em jeito de desafio, encorajou os presentes a analisar a sua actual situação profissional e a identificarem onde o desafio, a complexidade e a ligação são particularmente fortes e saudáveis. «Como podem protegê-los? Como podem fortalecê-los? E onde estão a ser desafiados actualmente? Onde estão enfraquecidos devido à forma como a IA está a ser utilizada?»
No final do dia, «todos temos a opção de escolher como utilizar estas tecnologias», garantiu, comprovando com um exemplo que permite ter produtividade e desenvolvimento de competências em simultâneo. «Na desactivação de bombas, a prática de um técnico sénior era ir até à bomba e lidar com ela sozinho. O aprendiz ficava num camião blindado a duzentos ou trezentos metros de distância, tornando a aprendizagem muito difícil. Agora, o aprendiz e o técnico sénior estão nesse camião a 200 ou 300 metros da bomba e o aprendiz controla o robô que vai até à bomba. É muito mais fácil de aprender, mais seguro e mais rápido.»
É essa a mensagem do código de competências: é possível «conseguir melhorias nas competências, na produtividade e no rendimento, de modo a amanhã estar mais capacitado e mais preparado para os desafios do futuro do que hoje.»
«Não podemos abdicar da IA, mas a forma como concebemos e utilizamos estes sistemas para melhorar ambos os resultados em simultâneo é uma escolha nossa», concluiu o investigador.














