Por Ana Oliveira, head of Marketing & Retail na área de Mobile da Samsung Portugal
Há alguns anos, recusei uma oportunidade profissional porque achei que não estava preparada. Questionei se seria o momento certo, se teria capacidade para responder ao desafio e acabei por deixar que a incerteza pesasse mais do que a vontade de avançar.
Com o passar do tempo – tempo que nos atribui experiência -, percebi que nem sempre vamos sentir que estamos totalmente preparados para dar o próximo passo e que, muitas vezes, esperar por essa certeza pode impedir-nos de agarrar oportunidades que nos fariam crescer.
Actualmente, reconheço que esta aprendizagem influenciou a forma como olho para a liderança. Não significa ter todas as respostas, nem eliminar a incerteza que faz parte do caminho. Significa criar confiança para que as pessoas avancem mesmo quando não sabem exactamente o que vão encontrar.
Num sector como o tecnológico, esta capacidade torna-se particularmente importante. Trabalhamos num contexto de mudança constante, em que novas tecnologias, comportamentos e formas de trabalhar nos obrigam a adaptar rapidamente a forma como pensamos e agimos. Neste cenário, acredito que uma equipa precisa de espaço para experimentar, questionar e até errar, porque é muitas vezes desse processo que surgem novas soluções e aprendizagens.
Neste contexto, quem lidera equipas tem uma responsabilidade clara: proporcionar um ambiente onde as pessoas sintam que podem assumir desafios, apresentar ideias diferentes e sair da sua zona de conforto. Porque arriscar implica, por vezes, errar, e o erro tem a virtude de ser um catalisador de aprendizagem e, ao aprenderem, as equipas ganham confiança e evoluem.
Enquanto mulher, esta é uma reflexão que ganha para mim uma dimensão adicional. Ao longo do meu percurso, percebi como podemos ser nós próprias a questionar-nos se estamos suficientemente preparadas antes de dar o próximo passo. Reconhecer essa tendência foi importante para deixar de permitir que a dúvida determinasse as minhas decisões. E é um mindset que procuro transportar para as equipas que lidero, independentemente do género. Não devemos esperar que alguém se sinta completamente preparado para lhe dar responsabilidade.
No sector tecnológico, em que trabalho, principalmente um que é marcado por constante inovação e ofertas que valorizem o consumidor, é precisamente essa responsabilidade, acompanhada pela confiança de quem está connosco, que nos permite inovar e descobrir capacidades que ainda não tivemos oportunidade de demonstrar.
Essa confiança torna-se particularmente importante quando pensamos em percursos onde ainda existem menos referências e menos representação. É por isso que acredito que as mulheres podem ter um papel relevante no caminho umas das outras, partilhando experiências, tornando diferentes percursos mais visíveis e ajudando a criar referências para quem vem a seguir, sobretudo em áreas onde a presença feminina continua a ser menor, como acontece ainda em algumas vertentes da tecnologia.
No entanto, a diversidade não deve ser encarada apenas como uma questão de representação. Equipas construídas a partir de experiências e perspectivas diferentes trazem leituras mais ricas para os desafios, ajudam a questionar ideias e a encontrar novas respostas. Para quem lidera, o desafio passa também por garantir que essas diferenças encontram espaço para se manifestar.
Talvez uma das maiores responsabilidades da liderança seja precisamente essa: dar às pessoas confiança para questionar, assumir desafios e continuar a crescer, mesmo quando não existem respostas óbvias. A incerteza dificilmente desaparece por completo. Mas não deve ser ela a decidir até onde estamos dispostos a ir.

















