Por Alexandra Barosa, directora Executiva do Curso de Coaching Executivo da Nova SBE e Founding partner da XPert4Co
Num pequeno-almoço promovido recentemente pela Xpert4Co., tivemos o privilégio de reunir à volta da mesma mesa cerca de uma dúzia de profissionais de referência, com percursos distintos, experiências complementares e uma enorme generosidade na partilha das suas perspetivas. Falámos de Inteligência Artificial, transformação organizacional, liderança, qualificação, requalificação e futuro do trabalho. Como acontece frequentemente nestes encontros, saí mais rica pelas reflexões que ficaram do que pelas conclusões que levei.
Uma destas reflexões continua particularmente presente: enquanto organizações e profissionais procuram identificar as competências necessárias para trabalhar com a tecnologia, estarão elas a investir com a mesma intensidade no desenvolvimento da pessoa que irá utilizá-la?
Grande parte da conversa actual sobre o futuro do trabalho concentra-se nas competências.
Que conhecimentos adquirir? Que ferramentas dominar? Como acompanhar a velocidade da mudança? Estas são questões relevantes e necessárias. No entanto, tenho a sensação de que, por vezes, estamos a dar menos atenção àquilo que sustenta verdadeiramente a capacidade de adaptação.
Refiro-me à autoconsciência e ao autoconhecimento; à capacidade de compreender os valores que nos orientam, as motivações que nos mobilizam e os talentos que procuramos colocar ao serviço dos outros. Em última análise, à construção de uma identidade profissional suficientemente sólida para nos dar direcção suficientemente flexível para evoluir à medida que o contexto muda.
Quando esta base existe, a mudança tende a ser vivida de forma diferente. Não necessariamente com menos dúvidas ou desconforto, mas com maior capacidade para encontrar sentido, reinterpretar papéis e explorar novas possibilidades.
Esta reflexão parece-me particularmente relevante em Portugal. Os estudos interculturais de Geert Hofstede colocam Portugal entre os países com níveis mais elevados de aversão à incerteza, traduzindo uma preferência por contextos previsíveis, estruturados e com menor percepção de risco.
Num contexto em que os percursos profissionais deixam de ser lineares e em que a Inteligência Artificial generativa acelera a transformação do trabalho, esta realidade merece atenção. A adaptação exige competências técnicas, mas exige também curiosidade para explorar possibilidades, disponibilidade para questionar pressupostos, capacidade para experimentar e confiança para avançar sem ter todas as respostas.
Talvez por isso a conversa sobre desenvolvimento humano continue a merecer um lugar central. Não apenas porque precisamos de novas competências, mas porque precisamos de pessoas capazes de lhes dar significado.
É também neste espaço que conceitos como o propósito, a realização profissional e o job crafting ganham relevância como consequência de uma compreensão mais profunda de quem somos e da forma como queremos construir o futuro, e não como objectivos isolados.
Por isso, à medida que continuamos a discutir como trabalhar com Inteligência Artificial generativa cada vez mais integrada no nosso dia-a-dia profissional, talvez valha a pena reservar algum espaço para uma pergunta diferente:
Quem estamos a desenvolver para trabalhar com esta inteligência?
Porque o futuro do trabalho poderá depender menos da tecnologia que adoptamos e mais da relação que cada pessoa constrói consigo própria perante a mudança.














