Por António Saraiva, Business Development manager_ISQ Academy
A liderança tem sido tradicionalmente abordada sob duas grandes dimensões: competências (técnicas e tecnológicas) e comportamentos (relacionais, estratégicos, comunicacionais). No entanto, uma terceira dimensão — a fisiológica — começa a emergir como fundamental para sustentar a eficácia, as acções e a resiliência de quem lidera. Há actualmente uma reflexão sobre como o corpo, o cérebro e os ritmos biológicos influenciam directamente a qualidade da liderança.
Alinhando por uma perspectiva científica, a neurociência aplicada à liderança mostra que o cérebro do líder está em constante adaptação (neuroplasticidade), e que decisões, empatia e gestão de conflitos são profundamente influenciadas por mecanismos fisiológicos como os neurotransmissores (dopamina, serotonina, cortisol). Apenas de uma forma breve, e exemplificativa, o córtex pré-frontal é responsável pela tomada de decisão racional, o sistema límbico regula as emoções e a empatia e os designados neurónios espelho facilitam a conexão interpessoal e a liderança empática.
Segundo o autor de The Power of Full Engagement, Tony Schwartz, “a performance de um líder não depende do tempo, mas da energia que consegue mobilizar”. Hoje, a gestão da energia física, emocional, mental e espiritual, é considerada uma competência estratégica. Mas analise-se alguns dados de estudos recentes: o sedentarismo reduz o estado de alerta e a produtividade, por outro lado, o exercício regular melhora a memória, o foco e a tomada de decisão. Bem como o exercício físico, também, aumenta a criatividade em cerca de 60%.
Não se pode escamotear que a fisiologia se manifesta na capacidade de regulação emocional, essencial para se liderar sob pressão. Algumas técnicas são mesmo recomendadas – desde a respiração consciente, a pausas reflexivas e o mindfulness, já que ajudam a manter o equilíbrio neuroquímico e a clareza mental. Não será estranho, pois, que líderes emocionalmente regulados tomem decisões mais ponderadas. A própria inteligência emocional tem uma base fisiológica e pode ser treinada.
Conhece-se bem a importância da linguagem corporal, sendo que que postura física pode comunicar autoridade, segurança e abertura à comunicação, por exemplo. Há estudos que revelam que 55% da comunicação de um líder é não verbal e que a postura influencia, não só a percepção dos outros, mas igualmente o estado emocional e hormonal do próprio líder. Daí que não seja estranho que programas de desenvolvimento da liderança, trabalhem a consciência corporal, a gestão da energia e a regulação emocional, incluindo coaching somático, mindfulness e meditação, gestão da energia e treino físico e mental integrado.
A liderança contemporânea exige mais do que competências técnicas e comportamentais. Exige presença física, clareza mental e equilíbrio emocional, todos sustentados por processos fisiológicos. Ignorar o corpo é ignorar, sem exagero, metade da liderança. E desejamos, cada vez mais, até pelos desafios do momento, desenvolver líderes inteiros. Em síntese, a liderança eficaz exige uma consciência da fisiologia do líder: corpo (postura, respiração), energia (física, emocional, mental, espiritual), ritmo biológico (sono, alimentação, ciclos de produtividade), saúde (impacto do stress, fadiga). Não se desejam apenas cabeças pensantes, mas líderes completos – no fundo, um sistema integrado de mente, comportamento e corpo!
Como refere Marco Neves, criador do programa Líder Fisiológico, “ignorar a fisiologia é como treinar uma equipa sem saber quem está apto para jogar. É fundamental criar a ponte entre aquilo que os líderes sabem fazer e o estado interno que lhes permite fazê-lo de forma consistente, potenciando simultaneamente o bem-estar e a performance. A fisiologia é a infra-estrutura silenciosa da liderança — sem visibilidade interna, a estratégia é apenas teoria”.














