«A forma disfuncional como estamos a trabalhar tem um preço elevado»

Leonor Martins
21 de Outubro 2022 | 18:03
«A forma disfuncional como estamos a trabalhar tem um preço elevado»

Professor catedrático especialista em melhoria da performance, José Soares foi o keynote speaker da XXIV Conferência Human Resources, que se realizou ontem, dia 20 de Outubro, no Museu do Oriente, em Lisboa. Numa intervenção sobre como trabalhamos, e o preço a pagar, constatou que, cada vez mais, se vai pedir às pessoas que sejam corporate athletes, mas há um preço a pagar: «Em biologia, não há mesmo almoços grátis.» A ciência explica.

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Por Ana Leonor Martins

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Como o próprio começou por fazer notar, pode parecer estranho ser um professor de Fisiologia a fazer a abertura de uma conferência sobre pessoas. Mas, ao logo da sua apresentação, José Soares defendeu – e provou, com a ciência – que biologia tem tudo a ver com comportamento humano. E foi disso que nos veio falar, enfatizando o preço a pagar de não prestarmos atenção à reacção do corpo e nos deixarmos levar por “chavões”.

«Fisiologia é essencialmente a ciência dos porquês, como o nosso corpo reage a diferentes estímulos, como temperatura, humidade – e também ao stress e à fadiga», começou por esclarecer. Sempre trabalhou o tema da alta performance, primeiro com atletas e depois com pessoas doentes – passando assim de pessoas altamente performantes para pessoas de muito baixa performance. E, em 2008, começou a trabalhar com o mundo corporativo.

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Passado muito pouco de “entrar” no mundo das empresas, rapidamente percebeu que era «um mundo, muitas vezes, completamente disfuncional». E que todas as aprendizagens com os atletas e com os doentes podiam ser transferidas para os profissionais em ambiente corporativo. «Percebi que a fisiologia, da mesma forma que pode ajudar os atletas e os doentes, também pode ajudar as pessoas nas empresas.» E partilhou que a Johnson& Johnson já tinha criado o conceito de corporate athlete, que mais não é do que encarar os profissionais como atletas corporativos. Foi nisso que começou a trabalhar, porque percebeu que «do ponto de vista fisiológico, era interessantíssimo».

E começa desde logo por alertar a plateia, cheia de profissionais maioritariamente de Recursos Humanos, que «a forma como estamos a trabalhar tem um preço a pagar. Se em outras áreas pode ser verdade, em biologia é que não há mesmo almoços grátis. Se comermos uma francesinha, é “from the lips to the hips”, e no trabalho pagamos na performance, começamos a ser menos performantes, com impacto na cognição e, como sabemos, na saúde mental.»

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José Soares constatou que, «se o ambiente já era disfuncional, com a pandemia e a guerra, piorou, e hoje vivemos como se tivéssemos uma nuvem na nossa cabeça, que ocupa espaço, gasta energia e faz com que depois se durma mal. Juntando o ambiente social, pessoal e profissional, obviamente que acaba por resultar nesta nuvem».

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Lembrando que houve um aumento significativo do consumo de ansiolíticos, anti-depressivos e substâncias psicotrópicas – «mas que ninguém toma», brincou – não é de estranhar que haja impacto na performance. «O mesmo que acontece a um atleta – overtraining – é muito parecido com o que acontece com os profissionais – e a que chamamos de burnout.» E a solução não é “descansar a cabeça”. O impacto é generalizado.

Dá um exemplo pessoal – «fui treinar à hora de almoço e depois dar aulas à tarde. Uma coisa profundamente cognitiva, teve um impacto físico semelhante ou até superior. Pensa-se, erradamente, que é da cabeça. Não é. E isto é uma mensagem importante da fisiologia para os Recursos Humanos: foi um dia extremamente cansativo, mas como não foi stressante, o ambiente foi agradável, por isso a minha recuperação foi boa. Ou seja, temos que distinguir se o ambiente em que trabalhamos é bom e empático ou se é tóxico ou com maus líderes.»

Explica: «É como se fosse uma fórmula, no numerador está o trabalho – vamos ter de o fazer e não vale a pena ter ilusões, porque não vai abrandar – e o denominador é a forma como o acomodamos. Aqui é que está a questão fundamental, para não chegarmos ao burnout. O problema não é da cabeça, é de tudo; tem um impacto genérico no nosso corpo.» Para comprovar, deu o exemplo de que 70 a 75% da principal substância que está ligada à depressão é produzida a nível intestinal.

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Diagnóstico feito, o que fazer?

Sobre o que podemos fazer, o professor defendeu que, primeiro, «temos de, cada vez mais, começar a apoiar as soft skills com hard science. Há cada vez mais investigação e dados que permitem pensar as coisas de forma diferente. A ideia de que tudo é possível e segue os teus sonhos não é bem assim. Criou-se uma aura à volta dos speakers internacionais, mas não faz ninguém desmarcar a consulta de psiquiatria no dia a seguir, nem parar com os anti-depressivos. Não adianta dizer a um deprimido, “anima-te”.»

Volta a concretizar com dados. «Um artigo da Nature mostra a correlação entre a escala subjectiva da felicidade e o volume da matéria cinzenta. Há pessoas que são negativas, não adianta, vão sempre ver o copo meio vazio. Não há um gene único da felicidade, há uma pool de genes, e há pessoas que não têm; como há pessoas que não gostam de partilhar, é genético, não vão mudar. Conseguimos produzir internamente a mesma substância que se cria quando se consome canabinóides, mas há pessoas que não têm receptores suficientes, parece que nunca está nada bem.»

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José Soares identificou aquele que acredita ser um dos grandes desafios para os Recursos Humanos: «Temos de ser inclusivos, com o género, com a cor da pele, com orientação religiosa, etc, mas também temos que ser inclusivos com as diferenças de personalidade. Não vamos ser todos iguais, nem vestir todos a camisola, não há teambuilding que valha. Quem acredita muito na mudança das pessoas são as transportadoras», brincou.

Não obstante, o especialista em performance acredita que «a forma como trabalhamos pode ser melhor; podemos e devemos ser mais inteligentes a trabalhar, mas abriu-se uma caixa de pandora com o trabalho híbrido. E é como quem dá chocolate a uma criança pela primeira vez, vai sempre continuar a pedir chocolate. As pessoas não conheciam o teletrabalho e passaram a conhecer. O que é preciso perceber é que o comportamento humano tem muitos altos e baixos, muitas curvas, e nunca como agora as pessoas têm de estar mais juntas, independentemente de terem escolhido um ou outro modelo de trabalho.»

Mais uma vez, a ciência a explicar. «O elo fundamental de toda a relação está dependente de uma hormona – a oxiticina – que é a hormona da confiança, muito produzida na altura do parto, por exemplo. É produzida pela ligação entre as pessoas, como num abraço. Mas percebeu-se que também pode ser produzida à distância. Estudos mostram que as pessoas podem estar ligadas, sem estar ligadas fisicamente, que é uma coisa relativamente nova.

Fazendo notar que «a exigência não vai diminuir», afirma que «cada vez mais, se vai pedir às pessoas que sejam resistentes, que sejam corporate athletes. E temos de perceber que, mesmo estando em trabalho híbrido ou remoto, nem todos estão num T4 com vista de mar.»

«O desafio é cada vez maior», reitera José Soares, sublinhando que é impreterível respeitar algo que é a chave da performance e do equilíbrio – a recuperação. «Não é só lançar chavões como bem-estar e saúde mental, a recuperação é que é a chave; nos atletas, nos doentes e também nos profissionais.»

«E é preciso respeitar o nosso cérebro», continuou. «Muitas vezes, com base no ego, achamos que somos capazes de tudo. Mas se tiver 400 de colesterol, mesmo que me sinta bem, a probabilidade de ter um enfarte é elevada. Não se engana a biologia. A reacção do cérebro demonstra, por exemplo, a importância de fazer intervalos – por muito que se energize ou motive as pessoas, fazer paragens é essencial. A recuperação é decisiva, temos de respeitar a biologia. A hard science tem de ser tida em conta. O sono, por exemplo, é decisivo. Ou o estarmos muito tempo sentados… é a quarta causa de morte hoje em dia. “Sitting is the new smoking”.»

Em relação ao muito que teremos de alterar, o professor desconstrói uma ideia muito presente hoje em dia nas organizações – a importância da motivação. E sugere uma dopamina detox. «Quem inventou isto da motivação, agora tem de resolver, porque não se pode estar constantemente a motivar e a dopamina (cuja acção influencia as nossas emoções) é aditiva. Nem sempre acordamos com motivação para fazer as coisas, mas temos de as fazer à mesma. Não podemos dizer que não vamos trabalhar porque não estamos motivados. É ficção acharmos que nós – ou as nossas equipas – vamos estar sempre motivadas, até porque são flutuações normais, do ponto de vista hormonal, mas temos de fazer o trabalho à mesma, mesmo quando não se tem vontade. Façam um jejum de dopamina; deixem de estar constantemente com miminhos e de pensar que a motivação é decisiva para a performance.»

Em jeito de resumo, reitera algumas ideias:

– «Muitas vezes exageramos as competências que temos, principalmente as pessoas mais diferenciadas, com posições mais de topo. E isso é auto-sabotagem.»

– «Podemos aprender com as claques e os gangues, por exemplo, a importância do orgulho de pertença e da confiança. Não gosto de pertencer a uma organização porque me paga um salário – daí o quiet quitting, que hoje tanto se fala –, pertenço a algo quando há confiança.»

– «A confiança é decisiva e passa essencialmente por fazer o “walk the talk”. E muitas vezes os líderes não o fazem, dizem uma coisa e fazem outra. Não há nada pior para o comportamento humano do que isso.»

– «Nunca se esqueçam que não há almoços de graça. Em biologia pagamos tudo. A forma disfuncional como estamos a trabalhar tem um preço elevado, um impacto enorme na nossa vida, pessoal, social e profissional. Não existe o “deixo os problemas em casa” ou “deixo os problemas no trabalho”.  Podemos é disfarçar, que é o que muita gente faz.»

José Soares termina com um conselho: «Ninguém sabe o que aí vem. Estamos perante um momento de grande incerteza, mas não há grandes dúvidas de que os tempos que se avizinham vão ser difíceis. E talvez seja altura de invocar o princípio da máscara de oxigénio nos aviões – temos de nos ajudar primeiro a nós. É muito importante pensar na equipa, mas primeiro temos de pensar em nós, porque, se assim não fizermos, não vamos conseguir ajudar ninguém. Pensar em mim é factor decisivo da performance.»

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