A formação como resposta à escassez: porque a qualificação contínua é a única saída para a crise de mão-de-obra no sector

Opinião de António Marto, presidente da Associação Fórum Turismo e fundador dos Hospitality Education Awards

Human Resources
9 de Junho 2026 | 11:00

Por António Marto, presidente da Associação Fórum Turismo e fundador dos Hospitality Education Awards

 

Vivemos um paradoxo particularmente desafiante no sector do turismo e da hospitalidade. Nunca se facturou tanto, nunca Portugal foi tão reconhecido internacionalmente enquanto destino turístico de excelência e, ainda assim, nunca foi tão difícil encontrar e reter talento.

Os números confirmam o crescimento sustentado do sector, mas por detrás dos recordes de receitas existe uma fragilidade estrutural que ameaça o futuro da actividade: a escassez de profissionais qualificados. Mais do que uma dificuldade conjuntural, trata-se de um problema profundo, que exige respostas igualmente estruturais.

Durante demasiado tempo, o debate centrou-se quase exclusivamente na questão salarial. Naturalmente, remunerações justas são indispensáveis. Mas seria ingénuo acreditar que o desafio da atracção e retenção de talento se resolve apenas através do aumento de salários. O que está verdadeiramente em causa é a capacidade de o sector criar carreiras aspiracionais, percursos de crescimento claros e ambientes onde as pessoas sintam que podem evoluir pessoal e profissionalmente.

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É precisamente aqui que a formação assume um papel decisivo.

Uma formação de qualidade não serve apenas para transmitir competências técnicas. Serve para dignificar profissões, elevar padrões, criar ambição e reforçar o sentimento de pertença ao sector. Um jovem que entra numa escola de hotelaria, turismo ou restauração e encontra exigência, inovação, ligação ao mercado e perspectivas reais de evolução terá uma maior probabilidade de construir uma carreira duradoura nesta indústria.

Ao mesmo tempo, dentro das empresas, a formação contínua deve deixar de ser vista como um custo ou uma obrigação pontual. Deve ser encarada como um investimento estratégico. Num contexto altamente competitivo, oferecer oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento tornou-se um dos mais relevantes benefícios não monetários. Os profissionais valorizam cada vez mais organizações que investem no seu crescimento, que lhes permitem adquirir novas competências e que os preparam para funções futuras.

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A retenção constrói-se também através desta percepção de valorização.

Importa igualmente reconhecer que o esforço de qualificação não pode recair exclusivamente sobre as instituições de ensino. Existe, por vezes, um desfasamento entre aquilo que é ensinado e aquilo que o mercado efectivamente procura. Contudo, esta distância não se resolve através da crítica fácil às escolas, mas sim através de uma maior colaboração entre todos os agentes do sector.

As empresas precisam de participar mais activamente na construção dos programas formativos, abrir portas a estágios de qualidade, aproximar-se dos estudantes e assumir um papel pedagógico na integração de novos profissionais. Por outro lado, as instituições de ensino devem continuar a adaptar metodologias, incorporar novas competências e acompanhar a velocidade de transformação da indústria.

A qualificação contínua é, por isso, uma responsabilidade colectiva.

Num sector profundamente humano, onde a experiência depende directamente das pessoas, investir em formação é investir na sustentabilidade do próprio turismo. Não existe hospitalidade de excelência sem profissionais preparados, motivados e valorizados.

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Se queremos continuar a afirmar Portugal como uma referência internacional, precisamos de compreender que o futuro do sector não se constrói apenas com infra-estruturas, tecnologia ou promoção externa. Constrói-se, acima de tudo, com talento.

E o talento cultiva-se.

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