Por Rodrigo Maia Prinzo, head of People na InnoTech
Há uma pequena coreografia digital que começa a tornar-se familiar em muitas empresas quando algumas pessoas da Geração Z precisam de copiar um parágrafo de um documento para outro.
O cursor vai até ao texto.
Selecciona-se a frase com cuidado.
Botão direito do rato.
Clica-se em “Copiar”.
Depois vem a segunda parte do percurso.
O rato atravessa o ecrã até à barra de tarefas.
Clica-se para abrir o outro documento.
Volta-se ao texto.
Botão direito novamente.
Clica-se em “Colar”.
Tudo funciona e a tarefa fica concluída.
Só que, para quem cresceu a trabalhar com computadores, há sempre um pequeno pensamento inevitável: Ctrl+C e Ctrl+V. Três segundos em vez de dez. Ou menos, com Alt+Tab.
Durante anos, esta destreza digital parecia quase automática. Uma mistura de atalhos de teclado, Word e sobrevivência em Excel. Seria o básico.
Por isso, quando se vê jovens profissionais, nascidos já no meio de tecnologia, a fazer este percurso com o rato, a reacção inicial é muitas vezes surpresa.
Não porque não saibam copiar e colar. Sabem. Mas fazem-no de forma diferente.
Muitos dos profissionais que hoje entram nas empresas cresceram a usar smartphones, aplicações intuitivas e interfaces onde quase tudo se resolve com um ou dois toques. Não passaram horas a explorar menus de software ou a descobrir atalhos de teclado.
E talvez valha a pena perguntar: o que estamos realmente a ensinar sobre ferramentas digitais ao longo do percurso educativo?
Ao passar pelo ensino secundário ou superior há contacto diário com tecnologia, mas isso não significa aprender ferramentas que continuam a sustentar o trabalho nas organizações.
Tem-se começado a falar, e bem, de literacia financeira. Mas talvez também devêssemos falar mais de literacia digital aplicada ao contexto de trabalho.
É aqui que aparece o possível paradoxo: uma geração extremamente confortável com tecnologia, mas menos habituada às ferramentas que continuam a ser centrais no funcionamento das empresas.
E há ainda outra diferença que começa a tornar-se evidente.
Muitos destes profissionais podem não usar atalhos de teclado ou fórmulas de Excel, mas relacionam-se com tecnologia de outra forma: conversam com ela. Fazem perguntas, testam ideias e pedem respostas.
Onde uns procuram fórmulas numa folha de cálculo, outros recorrem directamente à inteligência artificial e obtêm respostas em segundos. Surge a pergunta: e agora, quem foi mais rápido?
Não é necessariamente falta de competência. É uma forma diferente de chegar ao resultado. O que para uns é “saber fazer”, para outros é “saber perguntar”.
O mais fácil, claro, é concluir que o problema está na nova geração. Mas há duas leituras fáceis e provavelmente ambas incompletas.
A primeira é olhar para esta geração e concluir que não chega ao mercado de trabalho tão preparada quanto seria de esperar. E, nesse sentido, há também uma responsabilidade de preparação do sistema educativo. Entrar no mundo profissional implica, inevitavelmente, adaptar-se às regras e aos instrumentos que já existem.
Mas há uma segunda leitura, menos confortável, nomeadamente para as Gerações X e Y.
As organizações continuam a funcionar com modelos de trabalho, ferramentas e processos desenhados por gerações anteriores. São essas gerações que ocupam, naturalmente, a maioria dos lugares de decisão. E, por isso, é sempre mais fácil concluir que quem chega é que “não está preparado”. A verdade é que momentos de mudança raramente são responsabilidade de apenas um lado.
Quem entra precisa de aprender rapidamente como funcionam as organizações. Quem já está dentro precisa de aceitar que as formas de trabalhar estão a mudar.
No fundo, isto não é novo. Sempre que uma geração entra no mercado de trabalho acontece o mesmo pequeno choque de expectativas. Uns acham que os outros chegam pouco preparados. Os outros acham que as organizações funcionam de forma demasiado rígida ou desactualizada.
E, no meio desse choque inicial, acaba quase sempre por surgir um equilíbrio. Uns aprendem os atalhos que ainda fazem as empresas funcionar. Outros começam a perceber que há novas formas de trabalhar a chegar. E, pouco a pouco, o modelo ajusta-se.
Porque, no final, nenhuma geração muda o mundo do trabalho sozinha. Ele muda sempre quando as duas aprendem a trabalhar juntas.














