«Nos últimos 10 anos, assistimos a uma crescente importância da “pessoa” em detrimento do “recurso”».
Por Diogo Alarcão, CEO da Mercer Portugal
«Quando recebi o convite para participar neste especial aniversário, que assinala o 10.º aniversário da Human Resources, sendo o desafio reflectir sobre a última década na Gestão de Pessoas, lembrei-me dos 10 Mandamentos. Sob pena de algum cristão mais ortodoxo levar a mal, decidi fazer uma analogia e revisitar a função dos Recursos Humanos (RH) à luz desses Mandamentos.
Começo pelo primeiro. Creio que é relativamente consensual dizer que, nos últimos 10 anos, assistimos a uma crescente importância da “pessoa” em detrimento do “recurso”. Atrevo-me, pois, a dizer que, hoje, mais do que há 10 anos, os RH têm uma predisposição para “amar as Pessoas sobre todas as coisas”.
Por outro lado, creio que a “diabolização” dos RH como origem de muitos dos males que padecem os trabalhadores das empresas, foi-se dissipando à medida que a função alargou a sua área de actuação, nomeadamente através dos HR Business Partners. Claro que persistem focos de tensão, mas creio que hoje “invoca-se menos o nome dos RH em vão”.
A valorização do worklife balance, fruto de um investimento persistente, traduziu-se num maior respeito pelos tempos de descanso (“guardando os Domingos e Dias Santos de Guarda”) e pelo incentivo à preservação de momentos com as famílias. Pense-se, por exemplo, no que se evoluiu em termos da organização dos tempos de trabalho e, mais recentemente, no direito à desconectividade.
Hoje, mais do que há 10 anos, há um maior respeito e valorização da função dos Recursos Humanos. Seguindo a mesma analogia, os RH assumem-se como “Pai e Mãe que honramos” e a quem podemos recorrer e confiar.
A analogia com o quinto mandamento é feita ‘a contrario’. Aos que preconizavam até há bem pouco tempo a “morte dos RH”, a actual situação provocada pela COVID veio demonstrar que estão vivos e estão a ser absolutamente críticos nas diferentes fases que temos passado, desde o confinamento ao regresso gradual aos escritórios.
Apesar de algumas tentações, creio que os RH conseguiram manter-se fiéis aos seus princípios fundacionais. Têm conseguido reinventar-se e manter viva a paixão de servir o principal activo das organizações: as pessoas.
Na linha do sétimo mandamento, creio que os RH conseguiram preservar o seu espaço e não roubaram protagonismo a outras áreas. Está, pois, cumprido mais um mandamento: “Não roubar”. Estou a pensar, nomeadamente, na área da Comunicação. Pessoalmente, continuo a defender que Recursos Humanos e Comunicação são áreas que devem manter-se separadas, apesar de ser necessário garantir um alinhamento entre as duas.
O oitavo mandamento é aquele em que o perigoso exercício de analogia que me propus fazer é mais desafiante. Apesar disso, não desisto e atrevo-me a dizer que tendo a função RH ganho espaço e protagonismo nas áreas relacionadas com a cultura e valores, tornou-se a guardiã desses princípios basilares. Por outro lado, se pensarmos no muito que se tem feito na área de compliance & professionalism, a analogia torna-se talvez ainda mais evidente.
Apesar da enorme pressão a que está sujeita, a função de Recursos Humanos tem mantido alguma sobriedade resistindo à “volúpia” de ceder a todos os desejos, caprichos e ansiedades. Apesar de ser desejável que as organizações se tornem cada vez mais humanas, é importante preservar alguma “castidade” no que se promete e oferece aos trabalhadores.
Chego ao último mandamento, pergunto-me o que é que a função RH poderá ter “cobiçado” que não lhe pertencia. Deixo à imaginação do leitor a resposta.
Termino como comecei, pedindo antecipadamente desculpa se, porventura, nesta brincadeira inocente, ofendi alguém. Espero que não. Apenas pensei que seria uma forma diferente de homenagear e dar os parabéns à equipa da Human Resources Portugal, que tem conseguido reinventar-se, inspirar-nos a todos e manter-se fiel aos seus princípios redatoriais. Parabéns!»
Este artigo faz parte do tema de capa da edição de Julho (n.º 115) da Human Resources, nas bancas.














