Trabalhar em dois ou três empregos part-time costumava ser sinal de luta pela sobrevivência, mas agora, pode ser sinal de prosperidade. Bella, uma influenciadora financeira do TikTok (@finance_with_bella) percebeu essa mudança radical ao navegar pelo feed do LinkedIn, avança o site Money Wise.
«O mercado de trabalho está tão mau que as pessoas nem regressam mais ao trabalho full-time» diz ela num vídeo do TikTok. «Na verdade, elas estão a ganhar mais dinheiro com vários part-time do que num emprego a tempo inteiro, onde recebem dinheiro a menos e trabalho a mais.»
Mais de dois mil utilizadores manifestaram-se, a maioria dos quais concordou com ela. «Uma amiga doutorada está a limpar casas. Ela simplesmente coloca os fones no ouvido e faz as tarefas porque é mais gratificante do que o tóxico mercado de trabalho académico», partilhou um utilizador.
Mas esta tendência é mais do que apenas realização espiritual e pode não ser uma moda passageira.
A Grande Exaustão
Bella realça que muitos candidatos “superaram” o longo processo da procura de emprego, com entrevistas intermináveis e a rejeição interminável. «Depois de um tempo torna-se muito cansativo.»
Nos dias de hoje, os trabalhadores ficam sem trabalho durante mais tempo– dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) mostram que, em Abril, os norte-americanos permaneceram desempregados durante uma média cinco meses e meio. Apesar de a taxa de desemprego permanecer baixa (3,9%), Bella refere que já ouviu falar de muitas pessoas que estão à procura de emprego há seis meses ou um ano.
Mas a procura de emprego não é o maior obstáculo para conseguir um novo emprego, lê-se nos comentários ao vídeo de Bella. Muitos simplesmente cansaram do trabalho como o conhecemos.
«Prefiro ter apenas dois empregos part-time que não exijam muito de mim», comentou um utilizador, outro conta que leva cães a passear, ensina ioga e limpa Airbnbs, permitindo-lhe construir a vida que “adora”.
Num artigo que escreveu para a “The New Yorker”, o escritor especialista em tendências do trabalho e professor de Informática, Cal Newport, cunhou um termo para esse fenómeno: a Grande Exaustão. Newport descreve -a como a fadiga avassaladora que os trabalhadores de colarinho branco sentem, em grande parte graças à comunicação online constante no trabalho.
Segundo uma pesquisa de 2023 da empresa de software de RH, isolved, 65% dos trabalhadores sofreu de burnout. Após a pandemia ter trazido à tona as tendências da “Grande Demissão” e da “Demissão Silenciosa”, a Grande Exaustão é apenas mais uma iteracção dos profissionais a expressarem a sua frustração.
O antídoto para a Grande Exaustão
No início do ano, a especialista em burnout Emily Ballestros escreveu um artigo para a Time sobre como sair da Grande Exaustão. Acontece que é exactamente o que Bella e os seus seguidores estão a fazer: desistir.
Ballesteros cita a pesquisa do autor Dan Buettner, que passou anos a estudar as “zonas azuis” do mundo, os lugares onde as pessoas vivem vidas mais longas e saudáveis. Ele descobriu que cada um desses locais coloca as necessidades humanas em primeiro lugar. As pessoas que vivem nas zonas azuis priorizam a socialização, o exercício e “trabalhar com um propósito e não com o objectivo de maximizar a produtividade”.
«Não construímos uma sociedade que coloca as necessidades humanas em primeiro lugar, mas sim uma sociedade que prioriza as necessidades do negócio e isso está a começar a vir ao de cima», escreveu Ballesteros.
Pode ser por isso que 64 milhões de trabalhadores norte-americanos se dedicaram ao trabalho freelance em 2023, de acordo com uma pesquisa da plataforma Upwork, que não explica se é por opção ou por necessidade, mas mostra que esse trabalho é cada vez mais comum.
Embora ser freelancer seja precário, os utilizadores que comentaram o víeo de Bella estão a escolher adoptá-lo em vez de procurar um trabalho a tempo integral. «O salário não vale o stress. Já não quero saber», comenta um.














