Por Ricardo Florêncio
Nos últimos meses, tem sido muito debatido o tema da inteligência artificial (IA), da tecnologia, da digitalização, e de toda a influência e impacto que tem no ecossistema da Gestão de Pessoas. Todos concordam que tudo é mais rápido. Mais exigente. E as empresas, muitas delas, ainda estão a tentar perceber por onde começar, enquanto o mundo não espera. A questão central não é a tecnologia. Nunca foi. São as pessoas. Investir em ferramentas sem investir em quem as vai usar é uma ilusão cara. O maior obstáculo que encontramos nas organizações não é tecnológico, é humano. Falta literacia digital, falta pensamento crítico e falta, acima de tudo, vontade real de mudar. Não apenas nos processos, procedimentos, métodos. Mas muitas vezes no mindset. E, isso, nenhuma plataforma resolve.
As equipas estão a ser preparadas, mas de uma forma desigual, reactiva e, muitas vezes, tarde demais. As competências que mais escasseiam não são as técnicas; é a capacidade de trabalhar com sistemas de IA, sem lhes delegar o pensamento. De questionar. De decidir. Isso não se aprende em dois dias.
O grupo dos trabalhadores com mais de 55 anos merece especial atenção. Décadas de experiência, memória organizacional, conhecimento que não está em manual nenhum, e que garantidamente nenhum algoritmo substitui. O erro frequente é confundir resistência com incapacidade. Ou, pior, tratar esta geração como um problema a gerir, em vez de um activo a valorizar. O que falta, na maioria das vezes, não é vontade, mas, sim, uma abordagem adaptada, faseada, até respeitosa. Estes profissionais não precisam de ser afastados da transformação. Precisam de estar no centro dela.
E os líderes? Esta é, talvez, a questão mais difícil. O perfil que funcionou durante anos, do gestor estável, confortável na previsibilidade, já não é suficiente. A realidade de então já não existe. Hoje, exige-se quem saiba liderar na incerteza, inspirar equipas híbridas, decidir num mundo que muda antes de terminarmos de o analisar. A pergunta que poucos fazem em voz alta é: estão, de facto, a conseguir fazer essa travessia?
Assim, a questão que temos levantado é: onde é prioritário investir? Em tecnologia? Em competências? Em liderança? Em mindset? A resposta incómoda é que não há escolha, pois é em tudo e em simultâneo. Quem tentar fazer uma coisa de cada vez vai chegar tarde. O verdadeiro diferencial não será a IA. Será a capacidade humana de a integrar com propósito e inteligência, em todas as gerações, e nunca esquecendo o lado emocional.
Isso, por enquanto, ainda não há máquina que faça.
Editorial publicado na revista Human Resources nº 184, de Abril de 2026













