A influência da cultura desportiva na saúde mental e na prestação laboral dos portugueses

Human Resources
13 de Agosto 2024 | 11:00

Por Rita Piçarra, ex-directora Financeira da Microsoft Portugal e entusiasta de um estilo de vida equilibrado

A relação entre o desporto e o bem-estar é inegável.  A razão é simples: o exercício físico ajuda a reduzir os níveis de cortisol, a hormona do stress, e aumenta a produção de endorfinas, promovendo uma sensação de bem-estar e felicidade. Assim, a prática regular de desporto promove a saúde física, mas também tem um impacto profundo na saúde mental e no equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

Como alguém que sempre valorizou a importância de equilibrar estas esferas, acredito firmemente que ao manter-nos activos, através de um desporto fisicamente exigente, caminhadas ao ar livre, ou simplesmente exercícios de alongamento, podemos, de facto, transformar vidas. Esta integração na nossa rotina diária melhora o nosso estado físico, mas também proporciona uma mentalidade mais positiva e uma maior capacidade de lidar com os desafios laborais.

O desporto ensina-nos disciplina, resiliência e trabalho em equipa. Além disso, o desporto promove um sentido de comunidade e espírito de pertença. Equipas desportivas no local de trabalho podem fortalecer as relações entre colegas, criando um ambiente de trabalho mais coeso e colaborativo. Este companheirismo traduz-se numa melhor comunicação e num espírito de equipa, essenciais para o sucesso organizacional.

No fundo, estas qualidades não se limitam aos campos, ginásios ou pistas, mas que se traduzem directamente no local de trabalho. Os colaboradores que se envolvem regularmente em actividades desportivas demonstram uma maior capacidade de gestão de stress e existe um aumento na produtividade.

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Segundo o mais recente relatório da Ordem dos Psicólogos sobre a Sustentabilidade e Prosperidade das Organizações,  cerca de 58% dos trabalhadores em Portugal reportaram sentir sintomas de burnout. Trabalhar longas horas sem pausas adequadas leva ao burnout, um problema crescente no ambiente de trabalho moderno.

A saúde mental é um aspecto crítico que muitas vezes é negligenciado em discussões sobre produtividade laboral. No entanto, acho que a integração do desporto no dia-a-dia, pode ajudar a atenuar esta tendência. Vejo-o como uma “válvula de escape” saudável para o stress acumulado, que permite que os colaboradores regressem ao trabalho renovados e com uma maior capacidade de concentração e criatividade.

O mesmo estudo indica que os riscos psicossociais e a falta de saúde psicológica no trabalho têm um custo humano e económico significativo. Em média, os trabalhadores faltam até oito dias por ano devido a estas questões, e o presentismo — ou seja, estar presente no local de trabalho mais horas do que o necessário ou do que o que está contratualizado, mas sem produtividade correspondente, pode atingir em média 15,8 dias.

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Estima-se, ainda, que o absentismo e presentismo associados ao stress e a problemas de saúde psicológica custam às empresas portuguesas até 5,3 mil milhões de euros por ano, valor equivalente ao gasto do governo em 2021 para mitigar os impactos da pandemia COVID-19.

No total, esta perda de produtividade pode representar 1,4% do volume de negócios das empresas, pelo que, a meu ver, investir na prevenção e promoção da saúde psicológica e do bem-estar nas empresas é essencial e pode reduzir tais perdas em pelo menos 30%, resultando numa poupança anual de cerca de 1,6 mil milhões de euros, segundo o mesmo estudo.

É verdade que Portugal tem vindo a ganhar terreno na promoção do desporto, contribuindo para um maior equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, tema que abordo no segundo capítulo do livro “A Vida não Pode Esperar”. A meu ver, eventos como a Maratona de Lisboa e do Porto, a Volta a Portugal em bicicleta, o Estoril Open e o evento solidário de surf PRIO Softboard Heroes são exemplos brilhantes de como o desporto pode mobilizar comunidades inteiras.

No entanto, acredito que podemos ir ainda mais longe. As organizações devem incentivar os seus colaboradores a integrar a actividade física nas suas rotinas diárias, através da criação de programas de fitness corporativos, indoor ou outdoor, ou oferecendo benefícios que promovam a adesão a ginásios, por exemplo.

Ao abraçarmos o desporto, estamos a dar um passo significativo para um futuro mais saudável e equilibrado para todos. Penso que é vital que as empresas reconheçam que os seus colaboradores não são apenas recursos, mas seres humanos com necessidades emocionais e físicas. A minha trajectória pessoal levou-me a valorizar cada vez mais este tempo, dedicado ao bem-estar.

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