A logística precisa de mudar a forma como fala de si própria

Opinião de Catarina Matias, directora de Recursos Humanos da DPD Portugal

Human Resources
15 de Junho 2026 | 11:00

Por Catarina Matias, directora de Recursos Humanos da DPD Portugal

 

Durante muitos anos, a logística habituou-se a ser o “motor invisível” da economia. Funciona bem sem ninguém reparar nela: entrega no prazo, abastece prateleiras e garante fluxos contínuos de mercadorias. Mas essa discrição operacional teve um efeito colateral: o sector ficou associado a uma imagem redutora, pouco qualificada, com horários exigentes e oportunidades limitadas de progressão.

Mas essa imagem já não corresponde à realidade. A logística que hoje assegura milhões de envios diários em Portugal e no mundo está completamente diferente daquela que existia há uma década. A transformação tecnológica, a profissionalização das operações e a crescente valorização das pessoas alteraram de forma estrutural as condições de trabalho, os perfis procurados e as perspectivas de carreira no sector.

O problema é que a forma como o sector comunica continua, muitas vezes, ancorada no passado.

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Hoje, um centro logístico é um ambiente altamente tecnológico. Sistemas de gestão de armazém, algoritmos de optimização de rotas, soluções de automação e inteligência de dados fazem parte do quotidiano operacional. A eficiência já não depende apenas de força física ou rapidez manual; depende de capacidade analítica, competências digitais, tomada de decisão informada e trabalho em equipa.

Os perfis que são procurados actualmente reflectem essa evolução. Precisamos de especialistas em planeamento, técnicos de manutenção com competências electrónicas, profissionais de IT, analistas de dados, gestores de operações, equipas de qualidade e segurança, além de funções tradicionais que também se tornaram mais exigentes e qualificadas. A logística deixou de ser apenas execução: é cada vez mais estratégia, tecnologia e coordenação.

Ao mesmo tempo, as próprias condições de trabalho têm evoluído. A automatização de processos reduziu tarefas repetitivas e fisicamente exigentes. A aposta na segurança tornou-se prioridade absoluta. A preocupação com o bem-estar, a conciliação entre vida profissional e pessoal e a estabilidade contratual assumem um papel central nas políticas de Recursos Humanos das empresas do sector.

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Apesar de tudo isto, continuamos, enquanto sector, a falar pouco desta mudança. Continuamos a enfatizar a dimensão operacional – que é essencial – mas subvalorizamos o percurso de carreira que é possível construir e raramente contamos as histórias de crescimento interno, de colaboradores que começaram numa função operacional e hoje assumem responsabilidades de coordenação, gestão ou especialização técnica.

Se queremos atrair talento jovem, profissionais qualificados e perfis digitais, precisamos de ajustar a narrativa. Precisamos de explicar que a logística é uma das áreas onde a transformação tecnológica acontece de forma mais acelerada. Precisamos de mostrar que é um sector com mobilidade interna real, com aprendizagem contínua e com oportunidades concretas de progressão. Precisamos de comunicar que é um sector estável, com impacto directo na economia e na vida das pessoas.

A questão não é se o sector mudou. Porque mudou, e muito. A questão é se estamos a conseguir transmitir essa mudança para fora.

Mudar a forma como falamos da logística não é apenas uma questão de reputação. É uma questão estratégica. É através dessa mudança que conseguiremos atrair as competências de que precisamos, reforçar o orgulho interno das nossas equipas e posicionar o sector como aquilo que ele efectivamente é: uma área dinâmica, tecnológica, em crescimento e com um papel estruturante na economia portuguesa.

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