A longevidade e o seu impacto no mundo do trabalho

O tema da longevidade exige uma transformação profunda ao nível do indivíduo, das organizações e das sociedades em geral. Mas os principais agentes podem não ter ainda dado a atenção devida à inevitável mudança que se impõe.

 

Por Luísa Neto Pereira, executive manager na LNP Luísa Neto Pereira – Consultoria e Assessoria de Gestão

 

A importância dos desafios colocados pelos avanços tecnológicos, nomeadamente no que se refere à robótica e à inteligência artificial, ganharam um espaço inquestionável em diferentes meios. Todavia, não menos crítico, nem menos urgente, ainda que apenas debatido em alguns fóruns, é o tema da longevidade, a qual também exige uma transformação profunda ao nível do indivíduo, das organizações e das sociedades em geral.

De acordo com “World Population Prospects: the 2017 Revision”, a população mundial está a envelhecer e o grupo de pessoas com mais 60 anos regista taxas de crescimento superiores às registadas pelos grupos mais jovens. As previsões apontam para que o número de pessoas com mais de 60 anos irá mais do que duplicar em 2050 e mais do que triplicar em 2100.

As implicações são várias e as oportunidades também, embora os principais agentes possam não ter ainda dado a atenção devida à inevitável mudança que se impõe. De facto, estamos a assistir a uma transformação global da longevidade, que requer a consciência e a acção de todos:

 

Indivíduo

– Redefinir o paradigma de base ao desenho da sua vida profissional, passando de um modelo de três estádios sequenciais – educação, trabalho e reforma – para um modelo multiestádios, no qual educação, exploração, trabalho numa organização, empreendedorismo e reforma podem coexistir e alternar-se em combinações diversas.

– Tomar a responsabilidade dos seus activos produtivos (conhecimentos, competências, network), activos de saúde mental e física e, não menos importante, activos que permitem a sua reinvenção (autoconhecimento, contactos e outros recursos que suportem a suas transições e mudanças pessoais).

 

Organizações

– Antecipar as competências críticas e criar oportunidades de aprendizagem mais flexíveis e customizadas às necessidades dos diferentes colaboradores.

– Promover o co-desenho dos percursos profissionais, criando espaço para a mudança individual e dando suporte à mesma-

– Apoiar a transformação das competências dos colaboradores, nomeadamente através da facilitação de contactos entre diferentes funções e negócios; da implementação de programas de coaching/ mentoring e de programas de capacitação on-the-job adequados à nova realidade.

– Incluir esquemas flexíveis para os colaboradores poderem optar por um maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, contribuindo para garantir uma maior vitalidade física e mental dos colaboradores ao longo do seu percurso profissional.

 

Sociedade

– Rever e adequar a legislação laboral às novas necessidades, assim como os mecanismos de reforma e pensões, permitindo aos colaboradores manterem-se ativos, ainda que em part-time ou em intervalos de tempo.

 

Por último, salientar a pertinência de reflectir sobre o vigente estereótipo da idade. Nos últimos anos, vários estudos forem realizados alertando para a discriminação com base na idade (idadísmo) e como esta tem influenciado as políticas de recrutamento, formação, promoção e mobilidade de muitas organizações.

Actualmente, as pessoas vivem mais e mantêm um vigor intelectual e físico até mais tarde. Para além disso, pesquisas mais recentes concluem que com a idade são desenvolvidos mecanismos com base na experiência que colmatam o eventual decréscimo capacidades cognitivas. Sobre este ponto, há quem advogue que apenas se denota um decréscimo da capacidade de resolução de problemas completamente novos em pouco tempo, o que nos remete para a questão de quantas funções exigem efectivamente essa capacidade (actualmente o número é reduzido).

É uma reflexão que nos cabe a todos nós. As alterações demográficas colocam-nos o desafio de voltar aos conceitos de discriminação vs. inclusão. Talvez o ponto essencial que nos é constantemente solicitado é ultrapassarmos os obstáculos das diferenças, integrando-as de forma efectiva na criação e responsabilização por novos percursos de vida.

 

Referências bibliográficas:

The Corporate Implications of Longer Lives (Lynda Gratton and Andrew Scott)

When no one retires (Paul Irving)

Organizing Age (Stephen Fineman)

Managing the Older Worker (Peter Cappelli and Bill Novelli)

 

 

 

 

Ler Mais
Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

*

MULTIPUBLICAÇÕES

Marketeer
Lego lança minissérie no YouTube
Automonitor
Portugal a caminho de bater recorde de produção anual