A Maria está em todas as reuniões. Mas não está bem

Opinião de Susana Rodrigues, enfermeira de saúde integrativa e preventiva, e fundadora da Maria Health

Human Resources
1 de Setembro 2026 | 10:30
A Maria está em todas as reuniões. Mas não está bem

Porque há um custo de saúde que nenhum relatório de Recursos Humanos consegue mostrar.

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Por Susana Rodrigues, enfermeira de saúde integrativa e preventiva, e fundadora da Maria Health. Com mais de 13 anos de experiência clínica e em gestão de projectos internacionais de saúde, trabalha na intersecção entre saúde feminina, prevenção e literacia em saúde. Acompanha individualmente mulheres em cargos de liderança e desenvolve programas de saúde feminina para organizações.

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A Maria tem 39 anos e trabalha numa empresa portuguesa que podia ser a sua.

Tem uma boa carreira, uma equipa a seu cargo e vários anos de experiência. Há algum tempo que trabalha com dores que aprendeu a ignorar. Tem consultas que tenta encaixar entre reuniões, há dias em que dorme particularmente mal e, em determinadas alturas do mês, sente que a concentração não está onde costuma estar. Não fala sobre isso no trabalho, mas continua a cumprir, a liderar e a dizer que está tudo bem.

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Até que um dia deixa de querer aquela posição que seria o passo seguinte da sua carreira, ou começa a recusar projectos mais exigentes. Ou decide procurar uma empresa onde consiga viver e trabalhar de outra forma.

No dashboard de Recursos Humanos, veremos provavelmente a saída. Talvez uma quebra de engagement, talvez nem isso.

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Não aparece “dor”, não aparece “exaustão”, não aparece “não consigo imaginar manter este ritmo durante mais dez anos”.

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Há uma palavra para isto, e interessa-me particularmente: presentismo.

A Maria pode estar sentada no seu lugar, responder aos e-mails, participar numa reunião e cumprir as tarefas previstas e, ainda assim, estar a funcionar muito abaixo daquilo que seria habitual. Não falta, está lá. Mas não está inteira.

Os números que temos sobre isto são desconfortáveis. Num estudo populacional realizado nos Países Baixos, com mais de 32 mil mulheres, 80,7% referiram ter trabalhado ou estudado com produtividade reduzida devido a sintomas menstruais, enquanto 13,8% referiram absentismo pelo mesmo motivo.1 Uma parte importante do impacto acontece precisamente enquanto a pessoa continua presente.

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Com a endometriose acontece algo semelhante. Uma revisão sistemática sobre o impacto económico da doença identificou custos indirectos associados à perda de produtividade, incluindo absentismo e presentismo, e as guidelines da European Society of Human Reproduction and Embryology reconhecem o seu impacto na qualidade de vida e no funcionamento quotidiano.2, 3

É uma realidade que conheço dos dois lados, como profissional de saúde e mulher. Em mais de uma década a trabalhar em contextos clínicos e a acompanhar mulheres, encontro repetidamente o mesmo padrão: mulheres que chegam depois de meses, ou de vários anos, a normalizar sintomas que estavam a interferir com a sua vida. Dor, fadiga, alterações do sono, dificuldades de concentração ou ciclos incapacitantes eram encarados como coisas que simplesmente tinham de aprender a suportar.

No meu próprio percurso com endometriose, tive dores altamente incapacitantes, que chegaram a exigir medicação hormonal e analgesia forte. Nos últimos anos tenho vivido uma realidade completamente diferente, que nem sabia ser possível, pois ninguém me tinha explicado que podia ser assim.

Não apresento a minha experiência como prova científica, seria absurdo fazê-lo. Mas reforçou uma convicção que vejo confirmada no acompanhamento de outras mulheres: muitos destes sintomas merecem ser avaliados, compreendidos e acompanhados, e há bastante que podemos fazer para melhorar saúde, funcionalidade e qualidade de vida.

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É isto que raramente entra na conversa sobre talento. A Maria trabalha com dor porque não quer ser vista como pouco comprometida. Marca as consultas ao final do dia para não ter de explicar a ausência. Quando regressou da licença de maternidade, sentiu que precisava de provar rapidamente que continuava “igual”. E há uns meses começou inclusive a evitar responsabilidades, porque percebeu que já não conseguia sustentar o mesmo ritmo.

E, eventualmente, a Maria sai. Quando isso acontece, o sistema regista uma saída, mas não regista nada do que veio antes.

Não estou a sugerir que as mulheres sejam um grupo mais frágil ou menos previsível. Estou a sugerir o contrário: que uma parte da capacidade que já existe dentro das organizações pode estar a ser gasta a compensar problemas de saúde que ninguém vê e sobre os quais ninguém fala, e que isso raramente é uma questão de motivação, compromisso ou ambição.

É também uma questão de literacia em saúde: sabemos que o estilo de vida influencia a saúde, mas falamos pouco sobre o que isso significa na prática. Uma escolha tão simples como o que colocamos no prato ao pequeno-almoço pode influenciar a energia e a concentração ao longo do dia. Quantas organizações têm essa conversa com as suas colaboradoras, antes de existir um problema?

Hoje deixo uma pergunta aos responsáveis de Recursos Humanos, Wellbeing, People & Culture e DEI e não é quantas pessoas faltaram no último trimestre, mas sim:

Quantas “Marias” estiveram presentes sem estar bem, e o que está a organização a fazer antes de esse problema se tornar visível?

 

 

Referências:

1 – Schoep ME, Adang EMM, Maas JWM, et al. Productivity loss due to menstruation-related symptoms: a nationwide cross-sectional survey among 32 748 women. BMJ Open. 2019;9(6):e026186. doi:10.1136/bmjopen-2018-026186.

2 – Soliman AM, Yang H, Du EX, Kelley C, Winkel C. The direct and indirect costs associated with endometriosis: a systematic literature review. Human Reproduction. 2016;31(4):712–722. doi:10.1093/humrep/dev335.

3 – Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al.; ESHRE Endometriosis Guideline Group. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open. 2022;2022(2):hoac009. doi:10.1093/hropen/hoac009.

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