Porque continuamos a esperar pelo problema para começar a falar de saúde?
Por Susana Rodrigues, enfermeira de saúde integrativa e preventiva, e fundadora da Maria Health. Com mais de 13 anos de experiência clínica e em gestão de projectos internacionais de saúde, trabalha na intersecção entre saúde feminina, prevenção e literacia em saúde. Acompanha individualmente mulheres em cargos de liderança e desenvolve programas de saúde feminina para organizações.
Há cinco anos, a Maria não tinha nenhum diagnóstico.
Tinha 34 anos, uma carreira a crescer e nenhuma razão aparente para se preocupar. Dormia mal em determinadas semanas, saltava refeições quando o dia apertava, vivia com ferritina baixa e tinha começado a notar alterações no seu ciclo menstrual.
Mas nada disto a impedia de trabalhar. Não faltava, não se queixava e ninguém à sua volta tinha motivo para estar preocupado.
No artigo anterior escrevi sobre o que acontece à Maria anos depois, quando os sintomas já interferem com o trabalho e ela continua presente sem estar bem.
Hoje interessa-me o que aconteceu antes. Entre estar bem e ter um diagnóstico existe uma janela que pode durar vários anos, e é precisamente aí que quase ninguém intervém.
Quando falo de literacia em saúde, não estou a falar de saber identificar uma condição clínica. Falo de se ter conhecimento suficiente para reconhecer sinais, compreender os factores do estilo de vida que os podem influenciá-los, tomar decisões informadas e saber quando procurar avaliação.
Uma escolha tão banal como aquilo que colocamos no prato ao pequeno-almoço pode influenciar a saciedade, a energia e a concentração ao longo da manhã.
Uma noite mal dormida afecta a concentração, a fome e a saciedade no dia seguinte. A actividade física não serve apenas para gerir o peso, e o stress não existe separado do resto do organismo. Nada disto é novidade científica.
Mas quantas pessoas tiveram alguém que lhes explicasse como aplicar este conhecimento à sua própria saúde e realidade?
Uma mulher pode passar anos a considerar normal uma menstruação incapacitante porque nunca ninguém lhe disse que não deveria ser assim.
Outra pode chegar aos 35 anos com alterações no ciclo, energia instável e factores de risco metabólico sem perceber que existem coisas simples que pode fazer pela sua saúde, a começar ainda hoje.
Mais do que questionar nomes de diagnósticos, será que as primeiras perguntas não deveriam ser: “O que posso fazer hoje pela minha saúde? E o que teria sido útil saber cinco ou dez anos antes?”
Por exemplo, na síndrome do ovário poliquístico (recentemente denominada de SOMP: síndrome ovárica metabólica poliendócrina), a guideline internacional de 2023 coloca o estilo de vida no centro da gestão, recomendando alimentação saudável e actividade física como parte dos cuidados para todas as mulheres com esta condição.1 Mas na prática, alguém explicou o que fazer exactamente? Como controlar a resistência insulínica? Deve fazer jejum intermitente ou comer farinhas assim que acorda?
Nas doenças auto-imunes, cerca de quatro em cada cinco pessoas diagnosticadas são mulheres,2 e temos evidência que reconhece o papel do estilo de vida como sono, alimentação, gestão de stress e actividade física, como parte de uma abordagem integrada. Mas alguém lhe explicou o que fazer em concreto, dependendo da doença auto-imune que tem e a medicação que toma? Sabe que parâmetros deve acompanhar nas suas análises, para além dos óbvios?
Prevenção não é prometer que ninguém adoece, é aumentar a capacidade de questionar melhor, reconhecer mais cedo, tomar melhores decisões e agir sobre aquilo que é modificável.
Na prática, raramente encontro falta de interesse pela saúde, mas encontro falta de acesso à informação credível, contextualizada e aplicável na vida real.
E, nesse vazio, o que sobra muitas vezes são redes sociais, conversas com amigas e uma quantidade enorme de conteúdo sem filtro nem contexto, como no caso da inteligência artificial.
É aqui que as organizações têm uma oportunidade pouco explorada. Não para diagnosticar, nem para substituir profissionais de saúde. E certamente não para dizer às colaboradoras como devem viver, mas sobretudo para garantir que informação credível chega a quem dela precisa, antes de existir um problema.
Uma mulher que compreende o seu corpo, os fatores que influenciam a sua saúde e os sinais a que deve estar atenta procura ajuda mais cedo e toma melhores decisões.
Para a organização, isto tem uma tradução directa na conta: menos absentismo, menos meses de presentismo silencioso, menos saídas que ninguém viu chegar e menos custos de substituição. E, do lado que raramente se contabiliza, mais anos de capacidade, experiência e talento dentro da organização.
É esta a diferença entre responder a um problema e investir na saúde antes de ele se tornar um problema para a organização.
Por isso, se vamos trabalhar até aos 65 ou 70 anos, a pergunta não pode ser apenas como manter as pessoas no mercado durante mais tempo, mas sim em que estado queremos que lá cheguem. Presentes, mas exaustas? Ou com conhecimento e ferramentas para cuidar da sua saúde ao longo das décadas?
Uma das responsabilidades das organizações nos próximos anos é esta: deixar de esperar pela doença para começar a falar de saúde.
Já sabemos que a prevenção vale a pena. Agora é preciso desenhar intervenções suficientemente estruturadas para fazer diferença e suficientemente práticas para serem implementadas.
Quantas das suas colaboradoras estão, neste momento, naquela janela entre “estar bem” e “ter um diagnóstico”, e o que está a sua organização a fazer sobre isso?
Referências:
1 – Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, et al.; International PCOS Network. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Human Reproduction. 2023;38(9):1655–1679. doi:10.1093/humrep/dead156.
2 – National Institute of Environmental Health Sciences. Autoimmune Diseases. 2021. https://www.niehs.nih.gov/health/topics/conditions/autoimmune
















