A mudança deve assentar na estabilidade

Por Diogo Alarcão, Gestor

 

Mudança na estabilidade? Porquê mudar algo que está estável? Não é a estabilidade sinal de equilíbrio? Então, porquê mudar o que está equilibrado?

Parece um paradoxo, mas não é.

A mudança assente na estabilidade é possível e desejável. Habitualmente, as pessoas e as organizações sentem necessidade de mudar quando estão em crise ou quando se sentem ameaçadas. Embora por vezes essa mudança seja necessária, não é normalmente a melhor mudança ou, se quiserem, a mudança desejável. A tensão e a ameaça condicionam a forma como pensamos, planeamos e executamos a mudança com consequências que todos nós já testemunhámos: os resultados alcançados não são os esperados ou os danos causados são superiores aos benefícios.

Já a mudança que se pensa, planeia e concretiza em ambientes estáveis traduz-se em resultados mais sólidos, com menos turbulência e menores ou nenhuns danos colaterais. A estabilidade ajuda-nos a preparar a mudança assente em três atitudes: Ver, Julgar e Agir.

Para que um processo de mudança possa dar bons frutos é importante “Ver”. Isto é, observar o que nos rodeia quer seja a nossa equipa, os produtos e serviços que vendemos, o mercado em que atuamos ou a cultura e estilo de liderança da organização em que trabalhamos. “Ver” permite-nos discernir melhor sobre as razões por que queremos ou precisamos de mudar.

Depois de “Ver” é necessário “Julgar”. Isto é, perceber o que devo fazer para operar essa mudança que, recordo, pode ser de negócio, comportamentos ou até a saída da organização onde estou.

Por último, é necessário “Agir”. Isto é, planear como vamos fazer o processo de mudança e executá-lo na forma e nos prazos que definimos.

A mudança só deve acontecer quando há discernimento claro sobre:

  1. Porque tenho que mudar e, para isso, tenho que “Ver”;
  2. O que devo fazer para mudar e, para isso, tenho que “Julgar”;
  3. Como devo fazer o processo de mudança e, para isso, tenho que “Agir”.

O melhor momento de vermos, julgarmos e agirmos com discernimento é quando estamos estáveis nas diferentes dimensões da nossa vida pessoal e profissional. Por esta razão, às pessoas que me questionam e pedem conselhos sobre mudanças digo-lhes muitas vezes que o devem fazer apenas se se sentem bem. Eu próprio procuro refrear a minha vontade de mudança quando não me sinto capaz de discernir com estabilidade.

Quem já não pensou em mudar de organização ou de função porque “está farto do chefe” ou “porque não aguenta mais os colegas”? Quem já não pensou em mudar de profissão ou de vida porque “está cansado da rotina”? A abordagem que devemos ter deve ser, no entanto, outra. Queremos mudar porque “estamos fartos”, porque “não aguentamos mais” e porque “estamos cansados” ou devemos mudar porque queremos “fazer melhor”, “crescer mais” e “ser diferentes”? Para mim, parece-me óbvio que as segundas razões abrem outras perspetivas e ajudam-me a ver a necessidade de mudança de uma forma totalmente diferente.

Não creio que seja na tormenta e no turbilhão que encontramos as melhores condições para a mudança. Substituir os motores de um avião em pleno voo não me parece a melhor estratégia. Apesar disso, tenho assistido a tantos processos de mudança pessoais e organizacionais em “pleno voo”. Esperar, aterrar e estabilizar para depois planear a mudança parece-me sempre mais prudente. A mudança pede “terra firme”, “estruturas robustas” e “condições de segurança”. Ora, a firmeza, robustez e segurança são atributos da Estabilidade. Uma mudança firme, sólida e segura ajuda-nos a combater os nossos medos, produz resultados consistentes e dá-nos confiança nas decisões que tomamos.

Deixo aqui um conselho: procurem identificar oportunidades de mudança na estabilidade e não quando tudo à volta vos perturba. Mais vale uma mudança adiada do que uma mudança precipitada.

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