A pandemia como uma lupa: o que efectivamente importa?

Numa altura em que discutimos como vai ser o futuro, é importante não esquecer que a lente mágica da pandemia nos ensinou que o que temos de fazer, tem de ser feito agora, porque amanhã pode ser tarde.

Por Isabel Heitor, directora de Recursos Humanos da ANA – Aeroportos de Portugal

 

Há quem diga que os últimos meses têm sido difíceis, eu vejo-os como momentos intensos e desafiantes. Para mim, a pandemia funciona como lupa: amplia os nossos sentimentos, comportamentos, atitudes, crenças e pensamentos ocultos. Uma lente tão potente que faz com que os mais míopes vejam o que há muito já não viam. Para além do profissional, agora parece ver-se melhor que ele/ela é uma pessoa com outro mundo para além do trabalho, com uma família, com necessidades que desconhecíamos. Esta lente mágica mostra-nos o que realmente é importante.

Na tentativa de nos superarmos e demonstrar o quanto aprendemos neste último ano, discutimos como vai ser o futuro, desenhamos novas funções, pensamos em qual será o papel da Gestão de Pessoas, o regresso do teletrabalho, e assim tentamos desvendar o futuro. São inúmeros os eventos dedicados ao tema, na busca constante de respostas para o dia de amanhã.

A minha lente pandémica só me permite ver o agora. Mais do que nunca, agora sei que não posso dar nada como garantido. O que era já não é, o que é não foi e o que será pode não vir a ser. É a certeza da incerteza, a tomada de consciência de que o que verdadeiramente importa é confiarmos uns nos outros. Acreditar que no teletrabalho também se pode ser produtivo e que onde quer que se esteja a trabalhar, qualquer que seja a função, o produto do trabalho, os métodos de trabalho, a área de negócio, o que verdadeiramente importa são as pessoas.

O nosso papel passa por ajudar os outros a confiar mais do que controlar, ouvir mais do que falar, dar mais autonomia e conhecer melhor a realidade de cada um.

Todos sabemos que em tempos de crise somos postos à prova: ou evoluímos ou regredimos ou petrificamos. A crise ensina-nos que só depende de nós evoluir. Tal como o combate à pandemia depende da forma como nos comportamos, seja no uso de máscara ou no distanciamento social. Há sempre uma alternativa, somos nós que escolhemos o nosso caminho.

Acredito que os profissionais de Recursos Humanos têm hoje um dos maiores desafios de sempre. As relações que se criaram no último ano são únicas. O conhecimento sobre cada um é mais vasto e vai muito para além do desempenho profissional.

Entrámos pela casa adentro uns dos outros. Estabelecemos contacto com outros membros da família. Partilhamos a dor daqueles que perderam entes queridos ou agonizaram com o vírus.

Agora, nós que somos gestores de pessoas, temos a responsabilidade acrescida de criar soluções à medida de cada um. E não basta ser-se diferente. Temos de ser autênticos e promover essa autenticidade, do mesmo modo que a vivemos nas reuniões virtuais.

Aprendemos que a vida se faz vivendo um dia de cada vez. Se dedicamos muito tempo a queixar-nos ou com saudades do passado e queremos acelerar o futuro porque estamos convencidos de que será melhor que o dia de hoje, ficamos sem tempo e espaço para nos dedicarmos ao presente. A lente mágica ensinou que o que temos de fazer, tem de ser feito agora, porque amanhã pode ser tarde.

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