A polarização do debate público nas redes sociais está a aumentar. Cria adição ao nível da droga e há um tema que se destaca

A LLYC acaba de lançar o relatório “The Hidden Drug. Um estudo sobre o poder viciante da polarização do debate público”, no qual analisa o debate dos últimos cinco anos em 13 países, incluindo Portugal, através do processamento de mais de 600 milhões de mensagens em redes sociais recolhidas entre 1 de Setembro de 2017 e 31 de Agosto de 2022.

 

O estudo, realizado na Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, República Dominicana, Equador, México, Panamá, Peru, Portugal, Espanha, Estados Unidos e República Dominicana, demonstra que, nos últimos cinco anos, a polarização no mundo cresceu quase 40% na América Latina e 2,2% nos EUA.

Utilizando técnicas de Big Data e inteligência artificial, a campanha, realizada em colaboração com neurocientistas e psicólogos, demonstra que, em certos casos, a adição às redes sociais atinge o nível de uma droga com sintomas semelhantes aos de uma droga do tipo “c”, que podem incluir a perda de controlo, a absorção mental ou a alteração grave do funcionamento diário do indivíduo.

Das mais de dois milhões de mensagens analisadas em Portugal concluiu-se que o nosso país apresenta um nível de polarização inferior ao da vizinha Espanha ou do Brasil, o outro país de língua portuguesa analisado. Os portugueses não estão livres deste fenómeno, estão apenas ligeiramente menos expostos do que a maioria dos países.

Em termos de áreas de conversação, os temas que mais cresceram em termos de polarização foram, por ordem: aborto, liberdade de expressão, imigração, sindicatos e direitos humanos.

A que mais polariza os portugueses e continua a crescer em intensidade é o aborto. Apesar da aprovação por referendo da lei da interrupção voluntária da gravidez há 15 anos, a polarização acerca deste tema cresceu 95%.

A principal diferença em relação a outros países analisados é que o racismo tem uma forte presença na conversa, embora mostre níveis moderados de polarização em comparação com o aborto ou a liberdade de expressão. Os que se destacam por gerar o maior consenso são o salário mínimo, os direitos humanos e o feminismo. Já a censura destaca-se por ser um tema sensível, em parte pela história do país. A imigração, em comparação com Espanha, é o território que mais cresce em termos relativos, multiplicando-se por 4,1. As alterações climáticas (-59,3%) e o salário mínimo (-33,4%) são os territórios que mais decrescem.

A nível social, vemos uma clara subdivisão progressista versus conservadora. As vozes mais progressistas abordam maioritariamente o feminismo (+92,4%), o aborto (+59,4%), os direitos humanos (+59,2%) e o salário mínimo (+35,8%), destacando-se no volume de conversação em comparação com a ideologia conservadora. Já as vozes mais conservadoras abordam maioritariamente o racismo (+32,6%) e a liberdade de expressão (+24,6%).

O crescimento mais lento nos EUA em comparação com os restantes países deve-se ao enorme consenso que o racismo e o aborto geram na sociedade norte-americana. O caso de George Floyd resultou numa rejeição social de elevado volume e consenso que produziu uma queda temporária da polarização de 74%; por seu lado, as decisões judiciais dos últimos meses contra o aborto geraram também um movimento de rejeição altamente consensual.

O relatório adverte também para um aumento progressivo desta “adição”, ou seja, do nível de envolvimento, ou engagement, dos utilizadores de ambos os lados do espectro político nos territórios de debate. Na América Latina, houve um crescimento de 11% no mês em que a pandemia foi declarada, não parando de crescer desde então a um ritmo anual de 8%.

Nos EUA, os níveis de adição ao debate revelam um crescimento contínuo de 15% ao ano desde o início da pandemia; nos últimos meses, a tendência de crescimento está até a agudizar-se 13% acima da média.

«Vivemos numa sociedade viciada em conflitos, uma adição que é potenciada pela utilização das redes sociais que ajudam a reforçar as nossas próprias opiniões e preconceitos, distanciando-nos do consenso. Para além dos dados, que são muito reveladores, o principal valor do The Hidden Drug é convidar-nos a todos a reflectir e a encontrar espaços de diálogo e conciliação com os outros», revela David González Natal, sócio e director-geral da Região Norte da LLYC.

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