A produtividade aumenta quando entramos de férias. Eis porquê

As férias encerram seis paradoxos que desafiam uma das crenças mais enraizadas sobre trabalho: quem está sempre disponível é mais produtivo. Mas parar pode ser, afinal, uma das formas mais eficazes de trabalhar melhor. Leia o artigo de Alexandre Real, co-fundador e partner da Sfori.

Human Resources
8 de Setembro 2026 | 14:00
A produtividade aumenta quando entramos de férias. Eis porquê

 

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Por Alexandre Real, co-fundador e partner da Sfori

 

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Durante décadas, as empresas ensinaram-nos uma equação perigosamente simples: mais horas significam mais produtividade. Quem fica até mais tarde parece mais comprometido. Quem responde durante as férias é considerado indispensável. Quem nunca desliga transforma a exaustão numa demonstração pública de lealdade.

Mas existe um problema, estar permanentemente disponível não significa estar permanentemente produtivo. Pode significar apenas que o corpo saiu do escritório, mas o cérebro continua preso à empresa.

E talvez seja este o grande paradoxo das férias: para produzir melhor, precisamos de passar algum tempo sem produzir absolutamente nada.

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Primeiro paradoxo
Quanto mais precisamos de descansar, menos conseguimos fazê-lo
Sabine Sonnentag chamou-lhe o paradoxo da recuperação. Quando a pressão, os conflitos e a sobrecarga aumentam, a necessidade de recuperação também aumenta. Contudo, são precisamente os profissionais mais pressionados que apresentam maior dificuldade em desligar, dormir adequadamente, praticar exercício ou interromper a ruminação sobre o trabalho (Sonnentag, 2018).

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Ou seja, quem mais precisa de férias é, frequentemente, quem menos consegue beneficiar delas. É por isso que algumas pessoas chegam à praia e continuam mentalmente numa reunião. Não estão verdadeiramente de férias. Apenas mudaram o escritório para um local com melhor vista.

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Uma empresa que telefona constantemente para um colaborador durante as férias não está a demonstrar que ele é muito importante. Está a revelar que não criou processos, autonomia ou redundância suficientes para funcionar sem ele. A suposta indispensabilidade pode ser apenas desorganização com estatuto.

 

Segundo paradoxo
As férias funcionam, mas não como imaginávamos
Uma meta-análise publicada em 2009 concluiu que as férias produziam efeitos positivos na saúde e no bem-estar, embora parte desses benefícios tendesse a diminuir após o regresso ao trabalho (de Bloom et al., 2009).

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Durante anos, consolidou-se a ideia de que as férias faziam bem, mas apenas por pouco tempo. A investigação mais recente veio desafiar essa conclusão. Uma meta-análise publicada no Journal of Applied Psychology reuniu 32 estudos e 256 efeitos estatísticos. Os resultados indicaram que as férias têm um impacto relevante no bem-estar dos trabalhadores e que os seus benefícios podem prolongar-se mais do que anteriormente se pensava. A duração das férias, a cultura do país e o número de dias legalmente disponíveis também influenciam os resultados (Grant et al., 2025).

A curiosidade está na evolução da própria ciência. Quando existiam poucos estudos, as férias pareciam produzir um efeito reduzido e temporário. Com mais dados, o efeito revelou-se mais significativo e duradouro.

Talvez tenhamos subestimado as férias porque estudámos o descanso com a mesma impaciência com que gerimos as pessoas: queríamos resultados imediatos.

 

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Terceiro paradoxo
Desligar melhora o bem-estar, mas não garante automaticamente produtividade
Uma meta-análise sobre desligamento psicológico analisou 86 publicações, 91 amostras independentes e mais de 38 mil trabalhadores. Os resultados mostraram que a capacidade de desligar do trabalho estava associada a menor exaustão, melhor sono, maior satisfação com a vida, maior recuperação e melhor desempenho nas tarefas, embora os efeitos sobre o desempenho fossem relativamente moderados (Wendsche & Lohmann-Haislah, 2017).

Outra meta-análise, com 316 amostras e mais de 99 mil participantes, encontrou um resultado ainda mais desconcertante. O desligamento psicológico reduzia a exaustão, as emoções negativas e o conflito entre trabalho e família. Contudo, isoladamente, não apresentava uma relação clara com resultados como criatividade, desempenho ou envolvimento profissional.

Já experiências de relaxamento e de domínio, como aprender, praticar uma actividade desafiante ou desenvolver uma competência, estavam mais associadas a resultados profissionais positivos (Headrick et al., 2023).

A conclusão é desconfortável, mas importante: não basta não trabalhar. É necessário recuperar. Passar duas semanas a responder a mensagens, gerir problemas familiares, enfrentar aeroportos caóticos e regressar durante a madrugada pode cumprir juridicamente o conceito de férias, mas não necessariamente a sua função psicológica.

As férias não são produtivas por definição. Tornam-se produtivas quando devolvem recursos físicos, emocionais e cognitivos.

 

Quarto paradoxo
As férias aumentam a flexibilidade mental, mas não garantem ideias geniais
Num estudo longitudinal, 46 trabalhadores neerlandeses foram avaliados antes e depois de férias com uma duração média de três semanas. Depois das férias, os participantes demonstraram maior flexibilidade cognitiva. Produziram ideias mais diversificadas e conseguiram explorar um conjunto mais amplo de possibilidades.

Contudo, a originalidade das ideias não aumentou de forma significativa (de Bloom et al., 2014). Esta distinção é fascinante. As férias podem ajudar-nos a encontrar mais caminhos, mas não garantem que algum deles seja genial. O descanso amplia o mapa mental. Não escolhe o destino.

Outro estudo concluiu que as experiências de recuperação durante as férias estavam associadas a maior comportamento criativo, maior bem-estar profissional e maior satisfação com a vida (Kawakubo & Oguchi, 2019).

Talvez muitas empresas estejam a cometer um erro estratégico: exigem inovação durante 11 meses, mas criam culturas onde ninguém consegue verdadeiramente desligar durante o décimo segundo.

 

Quinto paradoxo
Uma pausa curta pode ser mais restauradora do que umas férias longas

Num estudo com 156 trabalhadores universitários australianos, tanto as pausas curtas como as férias produziram melhorias na capacidade de concentração e no bem-estar restaurador. Mais surpreendente ainda, algumas pausas curtas realizadas fora de casa e do trabalho superaram férias mais longas em determinadas medidas de recuperação.

Os resultados do estudo sugerem que a qualidade do ambiente, as actividades realizadas e o desligamento psicológico podem ser tão ou mais importantes do que a duração isolada da pausa (Packer, 2021).

Isto não significa que devamos substituir férias por fins-de-semana prolongados. Significa que a recuperação não deve ser concentrada numa única operação anual de emergência.

Nenhum atleta treina até à exaustão durante 11 meses para recuperar apenas em Agosto. No entanto, muitas empresas continuam a gerir cérebros humanos como se fossem máquinas industriais sem necessidade de manutenção.

 

Sexto paradoxo
Quem nunca tira férias pode não ser o melhor profissional
Existe uma espécie de heroísmo corporativo associado à presença permanente. O líder que nunca se ausenta é considerado dedicado. O colaborador que responde a tudo é visto como imprescindível. O profissional que não confia tarefas a ninguém é frequentemente elogiado pelo seu sentido de responsabilidade.

Mas uma organização que deixa de funcionar quando uma pessoa vai de férias não tem um grande profissional. Tem um grande risco operacional. As férias são um teste inesperadamente eficaz à maturidade das empresas. Quando alguém se ausenta, percebemos se os processos estão documentados, se existe partilha de conhecimento, se as equipas têm autonomia e se as decisões foram descentralizadas. A ausência revela aquilo que a presença permanente esconde.

 

O que devem fazer as empresas?
Primeiro, deixar de premiar a disponibilidade permanente. Responder a mensagens durante as férias não deve ser interpretado como elevado compromisso, mas como sinal de fronteiras frágeis.

Segundo, preparar a ausência. Se uma equipa colapsa quando alguém sai durante 10 dias, existe um problema de processos, delegação ou concentração de conhecimento. Terceiro, proteger o regresso. Colocar seis reuniões no primeiro dia destrói parte da recuperação que a organização esperou semanas para obter.

Quarto, distribuir a recuperação ao longo do ano. Férias, pausas, fins-de-semana protegidos, períodos sem reuniões e direito à desconexão devem fazer parte da arquitectura da produtividade.

Quinto, avaliar resultados e não sinais de exaustão. O número de horas, mensagens ou reuniões não pode continuar a ser confundido com criação de valor.

A empresa do futuro não será aquela onde todos trabalham permanentemente. Será aquela onde as pessoas sabem quando acelerar, quando parar e como regressar melhores.

Porque o contrário de produtividade não é descansar. É continuar a trabalhar quando já perdemos a capacidade de pensar.

 

Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 188) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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