A revolução silenciosa da Saúde está nos dados, mas faltam profissionais preparados

Opinião de Ana Barqueira, coordenadora da Licenciatura em Gestão de Dados e Tecnologias em Saúde do ISEC Lisboa

Human Resources
6 de Julho 2026 | 11:00

Por Ana Barqueira, coordenadora da Licenciatura em Gestão de Dados e Tecnologias em Saúde do ISEC Lisboa

 

Enquanto grande parte da sociedade associa a inovação na saúde a novos medicamentos, equipamentos sofisticados ou avanços na inteligência artificial, a verdadeira revolução já está em curso de forma discreta e silenciosa e tem como pilar central a gestão dos dados. Todos os dias, hospitais, clínicas, laboratórios, seguradoras e dispositivos conectados geram volumes gigantescos de informação capazes de transformar profundamente a forma como prevenimos doenças, tratamos pacientes e gerimos sistemas de saúde.

O sector da saúde destaca-se como um dos maiores “produtores” de dados da actualidade. Registos clínicos electrónicos, exames de imagem, resultados laboratoriais, informação genética e dados provenientes de plataformas digitais geram um volume e uma diversidade de informação sem precedentes. Quando analisados através de metodologias adequadas, estes dados convertem-se em conhecimento frutuoso, permitindo identificar factores de risco, prever surtos epidemiológicos, apoiar a medicina personalizada e promover uma gestão mais eficiente dos recursos humanos e financeiros. No entanto, existe um obstáculo crítico que ameaça limitar esta transformação, a escassez de profissionais qualificados para interpretar, gerir e transformar dados em conhecimento útil para a tomada de decisão.

A digitalização da saúde avançou mais rapidamente do que a formação dos seus profissionais. Muitos hospitais investiram em sistemas tecnológicos modernos, mas continuam a enfrentar dificuldades para recrutar especialistas em análise de dados, ciência de dados, governança da informação, interoperabilidade e inteligência artificial aplicada à saúde. Assim, estamos perante uma situação paradoxal, temos mais dados do que nunca, mas nem sempre conseguimos convertê-los em valor real para pacientes e organizações.

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Esta lacuna não afecta apenas as equipas técnicas, mas também os médicos, enfermeiros, gestores hospitalares e decisores públicos que precisam cada vez mais de competências digitais para compreender indicadores, interpretar modelos preditivos e utilizar ferramentas analíticas de forma segura e eficaz. A literacia em dados deixou de ser uma competência exclusiva dos especialistas em tecnologia e tornou-se uma necessidade transversal em todo o ecossistema da saúde. Além disso, a crescente utilização de inteligência artificial reforça a urgência desta preparação. Os algoritmos podem apoiar diagnósticos, prever internamentos ou sugerir planos terapêuticos, mas a sua utilização exige profissionais capazes de avaliar resultados, identificar enviesamentos e garantir que as decisões continuam centradas no ser humano. A tecnologia, por si só, não substitui o conhecimento clínico nem a capacidade crítica.

Portugal, à semelhança de muitos países europeus, enfrenta uma oportunidade estratégica que consiste em investir em formação especializada, promover programas multidisciplinares e aproximar universidades, instituições de saúde e empresas tecnológicas pode acelerar a criação de uma nova geração de profissionais preparados para liderar esta transformação. Não basta adquirir softwares ou implementar plataformas digitais, é necessário desenvolver talento.

A revolução dos dados na saúde não será liderada apenas por máquinas, mas por pessoas capazes de compreender o seu significado e impacto. Os dados são, sem dúvida, o novo recurso estratégico da saúde moderna, contudo, sem profissionais preparados para os transformar em conhecimento e acção, continuarão a ser apenas informação acumulada. E a verdadeira inovação dependerá da nossa capacidade de formar os profissionais que darão sentido à enorme riqueza de informação que hoje temos à nossa disposição.

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