A revolução silenciosa do recrutamento: o ChatGPT escreve, a IA lê e ninguém responde

Human Resources
15 de Setembro 2025 | 09:40

Os jovens estão a utilizar o ChatGPT para escrever as suas candidaturas; os Recursos Humanos estão a utilizar a IA para os analisar. Resultado? Ninguém está a ser contratado, conclui o The Atlantic.

 

Actualmente, nos Estados Unidos os lucros das empresas são sólidos, a taxa de desemprego é de 4,3% e os salários estão a aumentar. Porém, as contratações estão essencialmente congeladas há quatro meses. Há quatro anos, os empregadores contratavam quatro ou cinco trabalhadores por cada 100 empregados, mês após mês. Agora, estão a contratar três.

Ao mesmo tempo, o processo de arranjar emprego tornou-se um pesadelo. As plataformas de contratação online tornaram mais fácil encontrar uma vaga, mas mais difícil garantir uma: os candidatos enviam milhares de currículos criados por IA, e as empresas utilizam a IA para os seleccionar.

São inúmeros os candidatos se deparam com dezenas de vagas em várias plataformas como o Linkedin, que lhes parecem adequadas. Revêem o currículo, escrevem cartas de apresentação, respondem às perguntas de triagem da empresa, clicam em “Enviar” e nada… silêncio absoluto. Muitos relatam que ficariam felizes por receber feedback negativo.

Continue a ler após a publicidade

Para os empregadores, o mercado de trabalho também está a funcionar de forma diferente. As empresas recebem inúmeras candidaturas inadequadas para cada vaga em aberto. Só que em vez de analisarem as candidaturas manualmente, utilizam máquinas.

Numa pesquisa recente, os directores de RH disseram ao Boston Consulting Group que estão a utilizar a IA para escrever descrições de funções, avaliar candidatos, agendar reuniões introdutórias e avaliar candidaturas. Em alguns casos, as empresas também estão a utilizar chatbots para entrevistar candidatos. Os potenciais candidatos acedem a um sistema semelhante ao Zoom e respondem a perguntas de um avatar. O seu desempenho é gravado e um algoritmo procura palavras-chave e avalia o seu tom de voz.

Priya Rathod, especialista em tendências de carreira da Indeed, afirma que compreende porque é que os candidatos a emprego sentem que os seus currículos estão a «ir para o vazio». Mas contrapõe que as plataformas online realmente facilitam a procura de vagas e que a IA pode «levá-los para a próxima etapa da entrevista mais rapidamente», se as candidaturas corresponderem às necessidades do empregador.

Continue a ler após a publicidade

Ainda assim, muitos candidatos nunca passam por um processo de entrevista feita por humanos. A impossibilidade de chegar à fase da entrevista incentiva os trabalhadores desempregados a enviarem mais candidaturas, o que os leva a recorrer ao ChatGPT para criar os seus currículos e responder aos pedidos de triagem. E assim o ciclo continua: o aumento de candidaturas idênticas, criadas por IA, leva os empregadores a usar filtros de robôs para gerir o fluxo.

O tempo que um trabalhador passou à procura de emprego subiu para uma média de 10 semanas, o que significa que os norte-americanos estão a passar mais duas semanas no mercado de trabalho do que há alguns anos. A proporção de trabalhadores que se demitem caiu para o nível mais baixo numa década, devido às preocupações com o aumento dos preços e ao nervosismo com a desaceleração do crescimento.

Mais de 10% dos trabalhadores com menos de 24 anos estão à procura de emprego. «Os despedimentos estratégicos e por desempenho estão a aumentar», escreveu Lydia Boussour, da consultora EY-Parthenon, numa nota aos clientes na semana passada. O ponto de ruptura parece cada vez mais próximo.

Qual o caminho para os candidatos? Priya Rathod recomenda o networking tradicional: convidar recrutadores para um café, ir a eventos de emprego presenciais e pesquisar amigos e antigos empregadores em busca de eventuais oportunidades.

Estas estratégias podem funcionar se os empregadores voltarem a contratar. Mas, caso contrário, milhões de pessoas podem acabar por deitar os seus currículos para o ciberespaço.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar


Mais Notícias