A rotina não só não bloqueia a inovação, como até é precisa. Mas o foco tem que estar na melhoria (vídeo)

Muitas vezes, a rotina é vista como um bloqueador da inovação. Mas não tem de ser assim, até porque a rotina, de forma mais ou menos vincada, faz parte de todas as funções. Mesmo na industria metalúrgica indústria, como afirma Luísa António, do Grupo Ciclo Fapril, não se pode não ser criativo, no sentido de resolução de problemas. E Nelson Teixeira, da Randstad Portugal, acrescenta que «uma área de alta performance, se não tiver uma rotina constante, não obtém os resultados desejados, mas essa rotina tem de ser sempre melhorada». Assim, à pergunta que orientou mais uma RE(talk) – “A rotina bloqueia a inovação” – a resposta foi inequívoca. Não.

 

Por Sandra M. Pinto

 

Em Fevereiro, as re(talks) têm como tema “umbrella” o “Conteúdo de trabalho interessante”, recaindo o foco da primeira conversa na dicotomia rotina versus inovação. Luísa António, directora de Gestão de Desenvolvimento de Capital Humano do Grupo Ciclo Fapril, e Nelson Teixeira, Business Unit Manager, Staffing, da Randstad Portugal foram os convidados da sessão que contou com moderação de Sandra M. Pinto, jornalista da Human Resources.

A Ciclo Fapril actua no sector da indústria metalúrgica, tipicamente um sector com tarefas mais rotineiras, mas será que continua a haver espaço para a criatividade e inovação ou a rotina bloqueia a inovação? Luísa António garante que não há um dia «em que possamos falar de monotonia ou de bloqueio à criatividade e à  inovação. A multiplicidade de processos, de peças  e de soluções das sete unidades industriais e os diferentes desafios que diariamente todos os colaboradores do grupo, independentemente da função, enfrentam não permitem esses bloqueios. Todos os dias somos chamados a uma dinâmica muito forte e muito exigente de resolução de problemas. Por isso não podemos deixar de ser criativos, no sentido de resolução de problemas e de resposta rápida a uma redefinição.»

Quanto à inovação, a directora de Gestão de Desenvolvimento de Capital Humano admite que «esta já não ocorre com a mesma temporalização, como é óbvio, mas o grupo caracteriza-se por apresentar aos seus clientes mensalmente soluções inovadoras» para o que lhes é pedido. Ou seja, no caso do Grupo Ciclo Fapril, a rotina não bloqueia a inovação, ao mesmo tempo que a saída dessa rotina a promove.

Nelson Teixeira faz notar que não é só no sector industrial que existem tarefas rotineiras. «Temos que ter a percepção de que todas as funções têm uma rotina, seja uma administrador, um CEO ou um comercial, isso esta inerente à função desempenhada, mas o que é importante perceber nessa rotina é de que forma é que nós conseguimos puxar essas pessoas estrategicamente para fora do seu processo de rotina  e envolve-las no processo de análises do que estão a fazer para perceber de que forma seriam mais produtivas e eficientes, porque a rotina vai ter de se manter». Para o Business Unit Manager importa aperfeiçoar o desempenho das tarefas e das funções ao longo do tempo. «Conseguir identificar onde se pode melhorar traduz-se na obtenção de um melhor processo e de um colaborador mais competente.»

 

O papel da liberdade e da autonomia

Luísa António concorda que é importante para as empresas darem alguma liberdade aos colaboradores para que, mesmo dentro da sua própria rotina, se aperceberem que podem inovar e de que a inovação é um caminho. «A gestão e a liderança das organizações tem que estar muito atenta a essa questão. É igualmente importante trazer para esta reflexão a palavra hábito», acrescenta. «As rotinas e hábitos profissionais eficazes e eficientes são muito importantes, pelo que as nossas chefias e os nossos lideres, desde a administração até aos capitães em chão de fábrica, têm todos uma consciência muito  grande de que é necessário que qualquer colaborador do Grupo tenha a liberdade de propor, de sugerir e de de perguntar. No Grupo fomentamos muito o “perguntem”, “questionem” pelo que a liderança e a gestão tem de fazer exactamente isto. Mais do que afirmar coisas e dar as orientações, tem de se promover este processo criativo, sendo este um aspecto que integra a nossa cultura, que é uma cultura livre.»

Envolver as pessoas em todo o processo é fundamental na visão de Nelson Teixeira. «Uma área de alta performance, se não tiver uma rotina constante, não obtém os resultados desejados, mas essa rotina tem de ser sempre melhorada para que se consiga evoluir com vista à obtenção de melhores e mais satisfatórios resultados». Luísa António acrescenta que todos precisamos da rotina para o «nosso equilíbrio, para a nossa performance e para nossa eficácia, seja na vida profissional como na vida pessoal. Agora, é muito importante ter estímulos que nos levem a desenvolver e a inovar, e este é um dos grandes desafios para a área industrial», afirma.

E esse estímulo também tem que ser dado pelos lideres. Luísa António partilha que quando entrou no Grupo Ciclo Fapril teve «a alegria e a novidade de ver o grupo de segunda geração de gestores destas fábricas ser pioneiro na região geográfica onde se encontram ao encararem os Recursos Humanos de uma forma completamente diferente daquilo que era o hábito». Há «o cuidado por parte da liderança de olhar para as pessoas e para o seu potencial, percebendo que está tudo ligado à sua performance e produtividade. Há aqui de facto um cuidado com as pessoas, com o seu potencial e com o seu talento», garante.

Para promover ainda mais esta aposta, o Grupo Ciclo Fapril está envolvido num estudo com a Universidade de Aveiro. Mas reconhece que, «grande parte do tecido empresarial português fala, vai a conferências, coloca posts nas redes sociais afirmando que as pessoas são importantes, mas na realidade do dia-a-dia não fazem absolutamente nada nesse sentido. A produtividade tem de ser respondida, mas se não cuidarmos do potencial e do talento as empresas portuguesas não vão conseguir ser competitivas. Essa é a diferença entre Portugal e a competitividade de outros países».

Nelson Teixeira acrescenta aqui a necessidade da requalificação. «Por vezes é necessário retirar as pessoas da sua rotina para lhes dar novas competências  colocando-as noutras posições e postos de trabalho».

No que à requalificação diz respeito, o Grupo Ciclo Fapril faz um investimento não só de monotorização mas também de mapeamento, por exemplo no Programa Qualifica, revela a responsável de Gestão de Desenvolvimento de Capital Humano. «Este ano estão 51 colaboradores no grupo integrados no Programa Qualifica o que diz muito da importância que damos a este aspecto.»  Um dos grandes desafios da industria é exactamente esse, «colocar a pessoa certa no posto de trabalho certo, à hora certa na função certa e isso é que vai ser de facto inovador». Se analisarmos detalhadamente, percebemos que a qualificação é de facto algo de muito subjectivo. «Há pessoas da área da industria que fizeram determinada tarefa muitos tempo e a qual desempenham como ninguém, com a competência certa e adequada. Aqui temos o desenvolvimento da competência pela experiência.»

 

Máquinas: o futuro nas tarefas rotineiras 

O Grupo Ciclo Fapril possui neste momento sete unidades industriais, sendo que tem sido um tema algo recorrente perceber se as máquinas vão substituir o Homem nas tarefada mais rotineiras. Luísa António acredita que essa substituição não vai ser 100%. «Trabalhamos com a industria 4.0, sendo que temos a noção de que as pessoas vão ser sempre necessárias. Agora se vamos diminuir pessoas na área industrial, parece-me que sim, e também me parece que vai haver aqui caminho para descobrirmos que competência vai surgir e que vai trazer valor acrescentado, capitalizando o que vem da máquina.»

Nelson Teixeira sublinha que «para cada máquina que é colocada, temos de pensar que alguém tem de a gerir. Ou seja, até podem desaparecer postos de trabalho, mas outros vão aparecer para dar resposta a novas necessidades. Será preciso requalificar com a certeza de que o trabalho humano nunca vai deixar de existir.»

«As funções de chefia e de gestão é que vão ter de ser reinventadas», acrescenta Luísa António. «A industria 4.0 vai necessitar de uma requalificação e um melhoramento exaustivo de tudo o que é liderança, gestão, inteligência emocional e resolução de problemas, rapidez e resiliência. As competências de gestão, liderança e comunicação vão ter se ser rapidamente colocadas no mercado e nisso Portugal tem de correr mais rápido, porque as universidades e os nossos engenheiros têm muita dificuldade em gerir pessoas.»

 

Saber gerir pessoas: a competência essencial no futuro

Pegando nesta evidência evidenciada por Luísa António, deduz-se a necessidade de ligar mais a universidade e o ensino às empresas e ao tecido empresarial. A responsável defende que a universidade não pode estar fechada no seu próprio mundo. «É obrigatório a universidade estar ligada ao tecido empresarial e é preciso implementar uma maior agilidade na comunicação». É errado pensar que estamos espartilhados e em silos isolados uns dos outros, «tem de existir um ecossistema que funcione e que esteja interligado. É preciso “matar” a burocracia em Portugal e acabar com os “doutores e engenheiros” na vertente de pensar que aquilo que existe nas empresas tem menor valor e importância do que aquilo que se aprende na faculdade, pois é preciso perceber que ninguém é mais importante que ninguém e todos temos muito para aprender uns com os outros.» A responsável termina partilhando a convicção de que a indústria do metal é muito atrativa para os jovens, «sendo que aqui podem ter trabalho durante muitos anos».

 

(re)Veja aqui, na íntegra.

As re(talks) são uma iniciativa da Randstad em parceria com a Human Resources, promovida desde Março, e estão todas reunidas aqui.

 

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