Surgiu uma nova tendência nas redes sociais. Os utilizadores partilham uma fotografia pessoal e pedem a ferramentas de Inteligência Artificial que criem uma ilustração com base na sua vida ou no seu trabalho, mostrando versões animadas dos utilizadores no escritório, com a sua família ou no seu ambiente de trabalho. A partilha destas imagens tornou-se viral no Instagram, TikTok e LinkedIn, e os especialistas da Kaspersky explicam os riscos.
Embora a dinâmica pareça criativa e divertida, os especialistas da Kaspersky alertam que esta prática pode expor informações pessoais e facilitar a criação de mensagens fraudulentas personalizadas e em grande escala — uma ameaça muito real nos dias de hoje. De acordo com o estudo Linguagem Digital da Kaspersky, quase dois em cada dez portugueses não sabem reconhecer uma mensagem falsa (14%).
Em Portugal, onde o uso de redes sociais e de ferramentas digitais faz cada vez mais parte do quotidiano pessoal e profissional, este tipo de tendência ganha rapidamente visibilidade, em especial entre utilizadores ativos no LinkedIn, Instagram e TikTok. Num contexto em que o trabalho híbrido, a exposição online e a partilha de informação pessoal se tornaram práticas comuns, a linha entre criatividade digital e excesso de exposição torna-se cada vez mais ténue.
De acordo com a Kaspersky, esta realidade reforça a importância da literacia digital e da adopção de comportamentos conscientes, para que a utilização de soluções de Inteligência Artificial não comprometa a segurança, a privacidade ou a confiança no ambiente digital.
Segundo os especialistas da Kaspersky, este tipo de pedido não funciona como um simples filtro visual. Para obter imagens mais precisas, os utilizadores permitem que a IA aceda a todas as informações associadas ao seu perfil, sem restrições, uma vez que a própria instrução inclui comandos como “create a caricature about me and my job based on everything you know about me” (em português significa “crie uma caricatura sobre mim e o meu trabalho com base em tudo o que sabe sobre mim”). Para além da fotografia de referência, são incorporados dados adicionais como o nome da empresa, logótipos corporativos, cargo, cidade, rotinas diárias, hobbies e outros detalhes familiares utilizados na criação desta trend.
Cada um destes dados é uma peça-chave para a construção de um perfil digital detalhado. Ao combinar imagem, texto e contexto, são revelados hábitos, relações, locais frequentados e responsabilidades profissionais que podem ser explorados por cibercriminosos para criar burlas mais sofisticadas. Desta forma, uma fraude que mencione a empresa onde alguém trabalha, o seu cargo ou até um familiar torna-se muito mais credível, aumentando a probabilidade de a vítima confiar e partilhar informações sensíveis ou dinheiro.
Além disso, ao interagir com estas plataformas, não é partilhada apenas a imagem final. Dependendo do serviço e das respectivas políticas de privacidade, podem também ser armazenados a fotografia original, os textos ou instruções introduzidas pelo utilizador, o histórico de utilização e determinados dados técnicos, como o endereço IP, o dispositivo utilizado ou padrões de interação. Parte desta informação pode ser conservada para garantir o funcionamento do serviço, melhorar o seu desempenho ou treinar modelos de Inteligência Artificial, o que significa que o conteúdo não desaparece necessariamente após a geração da caricatura e pode permanecer disponível durante mais tempo do que o utilizador imagina.
«O maior risco não está na ilustração criada, mas em tudo o que as pessoas revelam para a obter. Quando alguém partilha detalhes sobre o seu trabalho, a sua família ou a sua rotina, está, muitas vezes sem se aperceber, a disponibilizar informações que podem ser usadas em fraudes altamente direcionadas ou em casos de usurpação de identidade. Neste contexto, a exposição acumulada de dados pessoais pode transformar-se numa porta de entrada para ataques de engenharia social, roubo de identidade ou burlas personalizadas», afirma Fabio Assolini, director da equipa global de investigação e análise da Kaspersky para a região da Europa e das Américas.
Embora estas ferramentas possam ser uma forma divertida de explorar a criatividade digital, os especialistas recomendam a adoção de hábitos mais prudentes ao participar neste tipo de tendência.
Para reduzir os riscos, os especialistas da Kaspersky aconselham que:
· Evite inserir nos prompts dados identificáveis como nome completo, cargo, empresa, cidade, morada, horários ou rotinas, mesmo que pareça ser “apenas para personalizar” a imagem.
· Ao realizar pesquisas ou pedidos de natureza pessoal em ferramentas de IA, dê preferência ao modo “Temporary Chat” ou “Modo Incógnito”, que permite conversas que não são armazenadas no histórico, nem utilizadas para treinar modelos de IA ou recordadas em interações futuras.
· Não partilhe informações nem imagens de menores de idade, nem revelar dados familiares que possam ser usados para se fazer passar por pessoas próximas ou criar burlas de carácter emocional.
· Reveja a política de privacidade e as permissões da plataforma antes de a utilizar, em particular no que diz respeito à retenção de conteúdos e à utilização de dados para treino ou melhoria do serviço.














