Lembra-se, nos filmes, daquele filho que, já adulto, vive na cave da casa dos pais? Agora, nos EUA, esses filhos têm um novo herói: Brendan Liaw, campeão do concurso televisivo, “Jeopardy”, noticia o The Wall Street Journal.
Liaw, de 27 anos, tem um mestrado em Ciência Política e, a avaliar pelas suas prestações em programas de perguntas e respostas, um vasto conhecimento sobre tudo, desde a Idade Média à música pop. Ganhou 59.398 dólares no mês passado. Também está desempregado e vive com os pais.
A seu pedido, o apresentador do concurso “Jeopardy”, Ken Jennings, apresentou-o como um “recém-licenciado e filho que fica em casa” (stay-at-home son, no original). «Pensei que, mesmo que perdesse o primeiro jogo, pelo menos podia fazer as pessoas rir», conta. E funcionou. Da noite para o dia, o humor auto-depreciativo de Liaw transformou-o numa lenda nas redes sociais, onde as pessoas dizem que ele está praticamente a viver o sonho delas.
A expressão “stay-at-home son” – uma adaptação de “stay-at-home mom” que representa uma mãe que fica em casa a tomar conta dos filhos – foi acrescentada ao Urban Dictionary em 2007 como um insulto a um homem infantil e imaturo, ou “criança crescida”, desmotivado. Ultimamente, porém, a geração que trouxe a “demissão silenciosa” adoptou o rótulo como um distintivo de honra irónico.
Nos EUA, esta época de formatura provavelmente produzirá muitos “filhos que ficam em casa”. A taxa geral de desemprego é de 4,2%, mas 8,2% dos jovens dos 20 aos 24 anos estão desempregados. A taxa de desemprego para os homens nesta faixa etária é ainda pior, 9,6%.
O concorrente – e vencedor – tinha acabado de terminar o mestrado e estava a estudar para exames quando recebeu a chamada para “Jeopardy”, por isso não encaixa no estereótipo de um homem adulto a jogar videojogos na cave de casa. Ao The Wall Street, Journal Brendan Liaw contou que «“filho que fica em casa” soa melhor do que “desempregado”. Os tempos estão difíceis, por isso vamos tentar arrancar algumas gargalhadas.».
E aproveitou esse tempo em casa para se submeter a um treino intensivo de perguntas e respostas, antes do programa. «Durante cerca de um mês pratiquei com um buzzer. Via cinco episódios por dia, de fato, de pé na sala de estar. Fazia exercício aeróbico todos os dias, subia para a bicicleta estática e via um episódio de “Jeopardy” para aumentar os batimentos cardíacos», para simular o nervosismo de estar no programa e sentir o coração a acelerar. Ainda que não tenha feito grande diferença, pois «não há forma de recriar o subir ao palco com todas as luzes, câmaras, o apresentador Jennings e o público», realça.
Brendan Liaw considera que o rótulo se enquadra na tendência para rejeitar a cultura da correria. «Acho que isso é mais típico da minha faixa etária. A minha carreira não me define verdadeiramente, e deveria ser apenas uma questão de estar bem com o que faço e ganhar o suficiente para pagar as contas.»
O vencedor espera que quem está na mesma situação mantenha a esperança e espírito positivo. «Por vezes, a situação pode tornar-se um pouco dark quando pensa: “O que é que estou a fazer aqui em casa?”.»
Com os pais emigrados do Brunei e uma vida de classe média, Brendan Liaw gostava de trabalhar no governo ou na política. «Escrevi a minha dissertação de mestrado sobre a Câmara dos Representantes e quero muito trabalhar no Congresso. Trabalhar no Senado como assessor seria o emprego dos meus sonhos.»














