«Há uma ideia que ganha força sempre que falamos de inteligência artificial (IA): a de que a tecnologia substituirá progressivamente a liderança. Leio os resultados do 66.º Barómetro Human Resources de forma diferente. Para mim, revelam precisamente o contrário. Quanto maior for a capacidade da IA para automatizar tarefas, maior será a responsabilidade dos líderes em mobilizar pessoas.
Os dados mostram organizações preocupadas com produtividade, competitividade e transformação, mas também conscientes de que o verdadeiro desafio deixou de ser tecnológico para passar a ser organizacional. Esta transformação significa também que o papel das pessoas nas organizações está a mudar. À medida que as tarefas mais repetitivas, analíticas ou previsíveis passam a ser apoiadas pela IA, o valor acrescentado das pessoas desloca-se para aquilo que a tecnologia dificilmente reproduz: o pensamento crítico, a criatividade, o discernimento, a colaboração, a inteligência emocional e a capacidade de aprender continuamente.
Não se trata apenas de adquirir novas competências técnicas, mas de desenvolver competências distintivamente humanas, que passarão a ser o principal factor de diferenciação individual e organizacional. É esta a razão pela qual, no barómetro, a IA surge como prioridade, mas nunca isolada. Surge lado a lado com temas como modelos de trabalho, requalificação, saúde mental, liderança, avaliação, trabalho híbrido e organização do trabalho. Este cruzamento revela um sinal de maturidade: a tecnologia começa a ser entendida como parte de um sistema humano, e não como um fim em si mesmo.
Vejo também uma mudança de paradigma. Durante anos, valorizámos líderes pela rapidez de decisão, domínio técnico ou capacidade de controlar processos. Muitas dessas competências serão progressivamente ampliadas pela IA. O que dificilmente será automatizado é a capacidade de gerar confiança, interpretar contextos ambíguos, tomar decisões eticamente sustentadas e criar ambientes onde as pessoas sintam segurança para aprender e mudar. Esta é uma interpretação dos resultados, mas parece-me consistente com o conjunto das respostas.
Há, contudo, um risco que merece atenção. O barómetro evidencia uma preocupação significativa com competitividade e produtividade. Se esta preocupação conduzir apenas à adopção de tecnologia, sem investimento equivalente na preparação das lideranças, poderemos acelerar processos sem fortalecer as organizações. A velocidade da transformação deixará então de ser uma vantagem para passar a ser uma vulnerabilidade.
Na Hotelaria, no Turismo e nos Serviços, onde a experiência do cliente continua a nascer da qualidade das relações humanas, esta reflexão torna-se ainda mais relevante. Podemos utilizar IA para prever procura, optimizar escalas ou apoiar decisões. Mas continuaremos a depender de líderes capazes de inspirar equipas, gerir diversidade, desenvolver talento e transformar mudança em compromisso.
É precisamente aqui que vejo o novo posicionamento dos Recursos Humanos. Já não apenas como gestores de pessoas, mas como arquitectos da capacidade de adaptação das organizações. O nosso papel será garantir que a evolução tecnológica acontece ao mesmo ritmo da evolução da liderança.
A verdadeira vantagem competitiva da IA não estará nas organizações que a adoptarem primeiro, mas naquelas cujos líderes souberem transformar tecnologia em confiança, aprendizagem e compromisso das pessoas.»
Este testemunho foi publicado na edição de Agosto (nº. 188) da Human Resources, no âmbito do seu LXVI Barómetro.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital



















