Marta tem 34 anos, é técnica de qualidade numa unidade industrial e arrenda um apartamento de dois quartos há quatro anos. Nunca considerou o arrendamento uma situação provisória, mas também nunca o tratou como uma decisão financeira: a renda é um valor que sai da conta no dia 8 e que sobe um pouco em Janeiro. O perfil não corresponde a uma pessoa concreta, mas reúne uma situação cada vez mais frequente entre os agregados que chegam ao ComparaJá.
O que mudou no caso dela, e no de muita gente na mesma posição, é que a frase com que se justificava arrendar deixou de ser verdadeira. Durante anos, a comparação entre arrendar e comprar resolvia-se com uma ideia simples: a renda é previsível e a prestação da casa varia com as taxas de juro. Hoje o coeficiente legal de actualização das rendas para 2027 está fixado em 2,56%, e a renda mediana dos novos contratos subiu 10,2% em termos anuais, para 10,17 euros por metro quadrado, um máximo da série do Instituto Nacional de Estatística. A renda também está indexada. Só o está a outro mecanismo.
A diferença entre os dois números descreve exactamente a posição de Marta. Enquanto ficar onde está, paga mais 2,56% em Janeiro, o que no caso dela significa pouco mais de vinte euros por mês. Se tiver de mudar de casa por qualquer razão, por emprego, por dimensão do agregado, por venda do imóvel, entra no mercado ao preço corrente, que subiu a dois dígitos desde que assinou. A sua estabilidade depende de não se mexer, e é uma estabilidade que ela não controla, porque a decisão de renovar não é só dela.
É aqui que a comparação com quem tem crédito à habitação se torna interessante, e não da forma habitual. Quem tem crédito enfrenta uma revisão de prestação em Outubro que pode custar entre 25 e 90 euros mensais num empréstimo de referência de 150 mil euros a 30 anos, conforme o prazo do indexante. É um aumento maior do que o de Marta. Mas quem tem crédito tem também um instrumento de resposta: pode transferir o empréstimo para outro banco, renegociar o spread ou amortizar capital. Marta não tem nenhum instrumento equivalente. Não existe transferência de contrato de arrendamento, nem renegociação de coeficiente.
Esta assimetria é o ponto que importa retirar do caso. Não é que arrendar seja pior do que comprar, porque para muitos perfis continua a não ser. É que a caixa de ferramentas de quem arrenda é mais pequena, e portanto a parte negociável do orçamento tem de ser procurada noutro sítio. No caso dela, esse sítio é o das despesas recorrentes, que num agregado que arrenda pesam relativamente mais porque não há amortização de capital a competir com elas.
Os números do mês dão a dimensão do que está em jogo aí. Na electricidade regulada, o agravamento de 1 de Outubro é de cerca de 2,7%; no gás natural regulado, de 6,4%. Para uma família com dois filhos e 400 quilowatt-hora de consumo mensal, a distância entre a tarifa regulada e a melhor oferta do mercado fica em cerca de cinco euros por mês, e a poupança anual por escalão de consumo vai de 213 a 980 euros. Para Marta, resolver essa linha vale mais do que o aumento da renda de Janeiro e é a única das três subidas que admite decisão da parte dela.
Há uma particularidade do arrendamento que reforça este raciocínio e que raramente é dita. Num contrato de arrendamento, os contratos de electricidade e de gás estão no nome do inquilino, e portanto a decisão é integralmente dele, sem necessidade de autorização do senhorio e sem intervenção na casa. É, em rigor, a parte do custo de habitar que o inquilino controla mais do que o proprietário.
De acordo com o Energy Team Leader do ComparaJá, André Nunes, este é o grupo que menos aparece nos processos de mudança de fornecedor e por uma razão que não é de preço. «Há a ideia de que num arrendamento não vale a pena mexer no contrato de energia porque a casa é temporária», afirma. «Mas o contrato de energia é da pessoa e não da casa: muda com ela quando ela muda. É provavelmente a decisão de poupança mais portátil que existe num orçamento familiar.»
Para uma área de recursos humanos, o caso interessa porque descreve uma parte crescente da população activa cuja principal despesa não é negociável e cujo principal risco é a mobilidade forçada. Um colaborador que arrenda tem menos capacidade de absorver um aumento de custos do que um colaborador com crédito, ao contrário do que a intuição sugere, porque a sua despesa principal não tem instrumento de revisão. Saber isso muda a forma de comunicar apoios, subsídios de deslocação e políticas de trabalho híbrido, que para este grupo valem mais do que valem para quem já tem casa própria.















