Um estudo da Gallup concluiu que apenas cerca de 40% dos trabalhadores possuem aquilo que pode ser considerado um “emprego de qualidade”, um conceito que combina remuneração, condições de trabalho, autonomia, influência nas decisões e oportunidades de desenvolvimento profissional, avança o The Washington Post.
A investigação, realizada junto de mais de 18 mil trabalhadores de diferentes sectores de actividade, procurou responder a uma questão que há muito desafia investigadores e empregadores: o que torna efectivamente um emprego bom para quem o desempenha?
- O salário permite viver com segurança financeira?
O primeiro elemento analisado foi a capacidade de o salário assegurar estabilidade económica. Para os investigadores, a qualidade do emprego não depende apenas do valor recebido mensalmente, mas também da existência de benefícios como férias pagas ou outras formas de tempo remunerado de ausência.
Ainda assim, os resultados revelam desafios significativos. Cerca de um terço dos trabalhadores admite enfrentar dificuldades financeiras, enquanto apenas pouco mais de um quarto afirma viver confortavelmente.
- Existe autonomia sobre o trabalho e os horários?
A previsibilidade dos horários e a capacidade de decidir como executar as tarefas surgem como factores centrais para o bem-estar profissional.
Segundo o estudo, muitos trabalhadores continuam a lidar com horários instáveis ou sobre os quais têm pouca influência. Mais de 40% referem ter reduzido controlo sobre o seu tempo de trabalho, enquanto quase dois terços não beneficiam de horários considerados previsíveis e estáveis.
A autonomia é apontada pelos especialistas como um dos elementos mais importantes para reduzir o stress, prevenir o burnout e aumentar a satisfação profissional.
- Os trabalhadores têm voz nas decisões?
Outro dos indicadores avaliados foi a capacidade de influenciar decisões que afectam directamente a experiência profissional.
A maioria dos inquiridos considera que deveria ter maior peso nas decisões relacionadas com remuneração e benefícios. Muitos manifestam igualmente vontade de participar mais activamente em matérias relacionadas com condições de trabalho, segurança e introdução de novas tecnologias, incluindo ferramentas de inteligência artificial.
Para os autores, ouvir os colaboradores nestas áreas pode gerar melhorias significativas na experiência de trabalho sem representar custos elevados para as organizações.
- O respeito faz parte da cultura organizacional?
A percepção de respeito revelou-se outro dos pilares de um emprego de qualidade.
Embora a maioria dos trabalhadores considere ser tratada com respeito no local de trabalho, persistem diferenças relevantes entre grupos demográficos. O estudo identificou maiores riscos de experiências de discriminação ou tratamento injusto entre trabalhadores LGBTQ+, pessoas neurodivergentes, profissionais não binários e alguns grupos étnicos.
Os resultados reforçam a importância das estratégias de diversidade, equidade e inclusão como componentes da qualidade do ambiente laboral.
- Há oportunidades reais de aprendizagem e progressão?
O acesso a formação, desenvolvimento de competências e progressão na carreira completa o conjunto de factores analisados.
Apesar da crescente valorização das competências no mercado de trabalho, um quarto dos trabalhadores afirma não ter oportunidades claras de evolução profissional. As possibilidades de progressão tendem a ser mais frequentes em grandes organizações e entre trabalhadores mais jovens.
Especialistas citados no estudo alertam que, num contexto em que as empresas valorizam cada vez mais competências concretas e experiência prática, a aprendizagem contínua assume um papel crítico na empregabilidade futura.
Quem tem maior probabilidade de ter um emprego de qualidade?
A análise concluiu igualmente que a qualidade do emprego não está distribuída de forma uniforme. Homens, trabalhadores dos sectores financeiro e dos serviços profissionais e profissionais localizados em determinadas regiões apresentam uma maior probabilidade de reunir os critérios definidos pelo estudo.
A principal conclusão, contudo, é transversal: um emprego de qualidade resulta da combinação entre condições económicas, autonomia, respeito, participação e desenvolvimento. Elementos que, cada vez mais, influenciam não apenas a retenção de talento, mas também a saúde organizacional e a produtividade das empresas.
















