As experiências bem desenhadas estão a substituir reuniões tradicionais

Opinião de Sílvia Ferreira, fundadora e CEO da ExperienceA

Human Resources
3 de Julho 2026 | 11:00

Por Sílvia Ferreira, fundadora e CEO da ExperienceA

 

Durante muito tempo, os eventos corporativos foram vistos como uma extensão logística da vida empresarial. Reservava-se uma sala, fechava-se uma agenda, alinhavam-se apresentações, coffee breaks e fotografias protocolares. O objectivo era simples: reunir pessoas no mesmo espaço e cumprir calendário.

Mas reunir pessoas nunca foi, por si só, criar valor.

Hoje, essa lógica tornou-se insuficiente. Vivemos num mercado cada vez mais competitivo, digitalizado e saturado de estímulos. As organizações realizam mais reuniões do que nunca, mas nem sempre conseguem gerar mais proximidade, mais envolvimento ou melhores resultados.

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Porque a questão já não é quantas pessoas estão presentes. É o que acontece quando estão juntas.

As empresas perceberam que não basta comunicar. É preciso gerar impacto. Não basta reunir equipas, clientes ou parceiros. É preciso criar ligação.

É precisamente aqui que estamos a assistir a uma das transformações mais relevantes do mundo empresarial, as experiências bem desenhadas estão progressivamente a substituir muitos dos formatos tradicionais de reunião.

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Não por uma questão de tendência, exibição ou sofisticação. Mas por eficácia.

Uma reunião convencional resolve tarefas. Uma experiência relevante constrói relações. Uma apresentação transmite informação. Uma experiência memorável gera envolvimento, pertença, confiança, reputação e continuidade.

A diferença pode parecer subtil, mas é profundamente estratégica.

O foco deixa de estar apenas na agenda, no espaço ou nos conteúdos apresentados e passa para aquilo que a organização pretende efectivamente alcançar: fortalecer relações, reforçar cultura, inspirar equipas, aproximar clientes, criar confiança ou acelerar oportunidades de negócio.

Porque a realidade é simples. As pessoas raramente recordam uma apresentação particularmente longa. Mas recordam momentos que as envolveram, surpreenderam ou fizeram sentir parte de algo maior.

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Esta mudança está longe de ser apenas uma percepção. Os próprios números demonstram que as organizações estão a atribuir um valor crescente às experiências presenciais. O mercado global de eventos corporativos deverá crescer cerca de 13% ao ano até 2028, ultrapassando os 1,9 biliões de euros. Paralelamente, cerca de 66% dos profissionais do sector antecipam um aumento do investimento em eventos presenciais, com foco crescente na personalização, exclusividade e experiência.

Este movimento não é acidental. É uma resposta directa à transformação das relações profissionais.

Vivemos numa economia profundamente digitalizada, marcada pelo trabalho híbrido, pelas reuniões remotas, pelo excesso de informação e por interacções cada vez mais funcionais. Este contexto trouxe ganhos significativos de eficiência, mas criou também um défice silencioso: menos proximidade, menos memória e menos conexão humana.

Talvez por isso o presencial tenha recuperado valor. Não como rotina. Mas como activo estratégico.

As organizações mais avançadas deixaram de olhar para os encontros presenciais apenas como momentos operacionais. Passaram a encará-los como ferramentas capazes de reforçar liderança, fortalecer cultura, desenvolver confiança, acelerar relações comerciais, promover networking qualificado, potenciar o employer branding e criar alinhamento entre equipas.

No fundo, procuram aquilo que os formatos tradicionais dificilmente conseguem entregar: significado. E esses resultados têm impacto económico.

Influenciam a retenção de talento, reforçam o engagement das equipas, fortalecem a relação com clientes e contribuem para uma diferenciação que dificilmente pode ser replicada pela concorrência.

É por isso que cada vez mais empresas estão a transferir investimento de formatos massificados para experiências cuidadosamente desenhadas, capazes de gerar valor antes, durante e depois do momento presencial.

Isto exige também uma mudança de mentalidade. Exige deixar de olhar para eventos corporativos como um centro de custo e começar a vê-los como um investimento estratégico. Porque é exactamente isso que muitas organizações já estão a fazer.

Sabem que, num contexto de atenção fragmentada, experiência é diferenciação. Sabem também que aquilo que gera valor não é apenas o momento do evento, mas a forma como esse momento contribui para construir relações, acelerar decisões, reforçar cultura e criar memória.

E é aqui que Portugal tem uma oportunidade única, ainda longe de ser plenamente aproveitada.

Durante anos promovemos o país sobretudo através dos seus atributos turísticos — e com razão. Temos clima, segurança, património, gastronomia, hospitalidade e infraestruturas reconhecidas internacionalmente.

Mas talvez esteja na altura de olhar para estes activos de uma forma diferente.

Portugal pode afirmar-se não apenas como destino, mas como plataforma estratégica para experiências empresariais diferenciadoras.

Temos uma combinação rara: infra-estruturas de qualidade, excelência gastronómica, diversidade territorial, autenticidade e uma capacidade relacional muito própria.

Poucos países conseguem oferecer, num mesmo território, hotéis de excelência, vinhos reconhecidos internacionalmente, património, natureza, litoral e uma hospitalidade que continua a ser um dos nossos maiores activos competitivos.

Num mercado onde muitas experiências corporate premium se tornaram excessivamente formatadas, Portugal mantém algo cada vez mais raro: autenticidade. E isso tem valor.

Tem valor para marcas nacionais e internacionais que procuram diferenciação. Tem valor para empresas que querem surpreender clientes, parceiros e investidores. Tem valor para organizações que entendem que a cultura empresarial também se constrói fora das salas de reunião.

O desafio passa por deixar de vender apenas destinos e começar a criar valor através das experiências que esses contextos podem proporcionar.

Porque as empresas não procuram apenas locais onde reunir pessoas. Procuram contextos capazes de fortalecer relações, inspirar equipas, aproximar clientes e produzir resultados concretos.

As reuniões continuarão a existir. Os eventos também. O que está a mudar é a forma como são pensados.

As organizações que compreenderem esta transformação mais cedo perceberão que a verdadeira vantagem competitiva já não está apenas naquilo que comunicam, mas naquilo que conseguem fazer as pessoas sentir, viver e recordar. Raramente as pessoas esquecem experiências verdadeiramente bem desenhadas.

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