O ordenado subiu, a taxa de esforço melhorou, e mesmo assim a resposta piorou. Não é um erro do banco nem má vontade do gestor. É que a análise de crédito não mede apenas quanto se ganha, mede também há quanto tempo se ganha.
O que o banco avalia chama-se estabilidade de rendimento, e assenta em três verificações. A primeira é a natureza do vínculo: contrato sem termo pesa diferente de contrato a termo, e ambos pesam diferente de trabalho independente. A segunda é a antiguidade, com a maioria das instituições a pedir um histórico mínimo no empregador actual, e a olhar com atenção para quem está em período experimental, precisamente porque nessa fase o contrato pode cessar sem as protecções habituais. A terceira é a consistência da remuneração ao longo do tempo, comprovada por recibos e pela declaração de rendimentos.
A taxa de esforço, que é o indicador de que toda a gente fala, entra depois disto. Nos processos intermediados pelo ComparaJá em Agosto, a média ficou em 28,0%, com folga confortável face ao limite de 45% recomendado pelo Banco de Portugal. Ou seja, o mercado não está a ser travado pelo peso da prestação. Os processos que encalham encalham noutro sítio, e a mudança de emprego a destempo é um dos sítios mais frequentes.
Há três variantes que valem a pena distinguir, porque o efeito não é o mesmo. Mudar de empregador mantendo contrato sem termo e função equivalente costuma implicar apenas atraso, com o banco a pedir documentação nova e a aguardar o fim do período experimental. Mudar para um vínculo mais frágil, como um contrato a termo ou uma prestação de serviços, pode obrigar a reavaliar o processo de raiz, mesmo com rendimento superior. E passar a uma estrutura salarial com forte componente variável, ainda que o total anual aumente, tende a reduzir o rendimento considerado elegível, porque prémios e comissões só entram na totalidade com histórico de vários anos.
A recomendação prática para quem está nesta encruzilhada não é recusar a proposta. É de sequência, e vale para qualquer processo de crédito habitação em curso. Se a escritura estiver a semanas de distância, vale quase sempre a pena fechar primeiro e mudar depois, comunicando a alteração ao banco já com o contrato assinado. Se o processo estiver no início, é preferível assumir a mudança, deixar passar o período experimental e retomar com a situação consolidada, evitando uma recusa que fica registada. E em qualquer dos casos, informar o intermediário ou o gestor antes de assinar o novo contrato de trabalho poupa semanas, porque a resposta a esta pergunta varia de instituição para instituição e é sempre melhor conhecê-la antes.
Fica uma nota para quem gere equipas e faz propostas de contratação. A data de início de um contrato tem, para muitas pessoas, consequências financeiras que não têm nada a ver com o salário oferecido. Uma entrada adiada em quatro ou seis semanas pode ser a diferença entre concretizar uma compra de casa e perder um sinal, e é uma flexibilidade que custa pouco a quem contrata e vale muito a quem é contratado. Vale a pena perguntar, e vale a pena que quem recebe a proposta se sinta à vontade para explicar em que ponto está o processo antes de negociar a data de início.
















