Os espaços de trabalho estão a transformar-se para acompanhar novas formas de colaboração e modelos híbridos.
A forma como as empresas pensam o espaço de trabalho tem vindo a mudar nos últimos anos. Mais do que um local físico onde se desempenham tarefas, o escritório passou a assumir um papel cada vez mais relevante na forma como se vive a cultura organizacional, se promovem relações entre equipas e se constrói a experiência do colaborador.
Num contexto marcado pela generalização do trabalho híbrido, pela procura de maior flexibilidade e pela necessidade de reforçar o sentido de pertença, também os modelos de espaço evoluíram. Soluções como o cowork corporativo, os escritórios flexíveis ou os modelos híbridos de utilização do espaço procuram responder a novos desafios de bem-estar, colaboração e eficiência operacional nas organizações.
Em entrevista à Human Resources, Carlos Gonçalves, CEO e fundador do Avila Spaces, explica de que forma o espaço físico pode influenciar a cultura e o envolvimento das equipas, analisa a evolução do coworking para uma solução cada vez mais adoptada por empresas e antecipa as tendências que deverão marcar o futuro do trabalho e dos escritórios.
O Great Place to Work mede factores como confiança, respeito, orgulho e companheirismo. Que papel tem o espaço físico na cultura e na experiência do colaborador?
Mais do que um espaço de trabalho, o escritório passou a ser um ponto de encontro, descontraído, mas profissional. E isso é especialmente relevante para empresas que querem atrair e reter talento. O espaço físico é determinante da reforçar a cultura da empresa. Um escritório bem pensado transmite confiança, porque dá condições reais para trabalhar bem; respeito, porque valoriza conforto, privacidade e bem-estar; orgulho, porque representa a marca; e companheirismo, porque cria momentos de encontro. No trabalho híbrido, o escritório deixou de ser apenas o sítio onde se vai todos os dias: passou a ser o lugar onde a cultura ganha corpo e as relações se reforçam.
O coworking ainda é associado a freelancers e startups. Como é que evoluiu para se tornar uma solução corporativa para PME e multinacionais?
Evoluiu porque o mercado de trabalho mudou. Hoje, muitas PME e multinacionais já não querem contratos longos, CAPEX elevado e equipas presas a um único escritório. Querem estar focadas no seu negócio e subcontratar a gestão dos espaços a empresas como o Avila Spaces. Procuram soluções prontas a usar, escaláveis e compatíveis com modelos híbridos. O coworking corporativo respondeu a essa necessidade com escritórios privativos, áreas lounge partilhadas, salas de reunião, “day offices” com todos os serviços incluídos, como a organização de um Happy Hour todas as sextas-feiras, por exemplo.
Muitas empresas procuram espaços flexíveis para equipas híbridas ou projectos temporários. Que problemas relacionados com bem-estar, envolvimento e cultura estas soluções ajudam a resolver?
Ajudam a resolver três desafios. Primeiro, evitam o isolamento do trabalho exclusivamente remoto. Segundo, reduzem a fricção operacional, porque a empresa encontra tudo pronto a funcionar. Terceiro, reforçam a cultura, ao permitir encontros regulares entre equipas, onboarding mais humano e maior proximidade entre liderança e colaboradores. É interessante perceber que, depois da pandemia, muitas empresas reduziram a área de escritório na sede e depois acabaram por abrir “escritórios-satélite” em espaços de cowork, permitindo que os seus colaboradores trabalhassem individualmente ou em equipa, com total flexibilidade e maior equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
Como se equilibra flexibilidade com sentido de pertença e cultura organizacional, tendo em conta os receios de que o coworking possa diluir a identidade da empresa?
A flexibilidade não dilui a cultura; obriga é a desenhá-la melhor. O essencial é garantir que a empresa tem momentos, espaços e rituais próprios. Um escritório privativo num cowork permite manter confidencialidade, identidade visual e dinâmica de equipa, com a vantagem de estar inserido num ambiente mais ágil. Quando combinado com dias presenciais bem definidos, reuniões de equipa, onboarding estruturado e liderança próxima, o coworking reforça o sentido de pertença em vez de o enfraquecer. A identidade não depende apenas das paredes; depende da intenção com que se usam os espaços.
Que sinais ou feedback observam dos colaboradores que mostram que estes espaços melhoram motivação, colaboração ou sentimento de pertença à empresa?
As empresas que optam pelo escritório num cowork reportam-nos que há uma maior adesão aos dias de trabalho presencial, uma maior espontaneidade nas interacções, reuniões mais produtivas e feedback positivo sobre conforto, localização e ambiente. Muitas equipas dizem-nos que, quando regressam a um espaço inspirador e funcional, sentem que o tempo presencial “vale a pena”. Isso tem impacto na motivação e na colaboração. O colaborador percebe que a empresa não o chama ao escritório por rotina, mas para criar valor, ligação e melhores condições de trabalho. E quando sente essa intencionalidade, o compromisso também aumenta.
Fale-nos do modelo “mix”: escritório privativo mensal para a equipa núcleo + day office para uso pontual. Como funciona na prática e que benefícios traz para colaboradores e gestores?
Neste modelo, a empresa mantém um escritório privativo para a equipa núcleo, garantindo continuidade, identidade e confidencialidade. Em paralelo, recorre a “day offices”, postos adicionais ou salas de reunião nos dias em que precisa de reunir mais pessoas, integrar equipas de projecto ou acolher colegas que trabalham remotamente. Para os gestores, isto significa controlo de custos e escalabilidade. Para os colaboradores, traduz-se em maior flexibilidade, menos deslocações desnecessárias e melhor equilíbrio entre foco individual e colaboração presencial. É uma lógica de utilização inteligente, não de ocupação permanente.
O pay-per-use permite pagar apenas pelo que se usa. Que resistências encontram e como ajudam as empresas a optimizar espaço, custos e experiência do colaborador?
A principal resistência é cultural: durante muito tempo associou-se estabilidade a metros quadrados fixos. Hoje, a pergunta certa já não é “quanto espaço devo ter?”, mas “que experiência preciso de oferecer à minha equipa?”. Ajudamos as empresas a fazer essa transição com dados de utilização, soluções modulares e formatos ajustáveis. O resultado é simples: menos espaço vazio, menos investimento imobilizado e uma experiência melhor, porque o colaborador encontra um ambiente preparado, profissional e alinhado com a forma como realmente trabalha. No fundo, troca-se rigidez por inteligência operacional.
Há sectores ou tipos de projectos onde este modelo on-demand é particularmente eficaz? Pode dar exemplos de casos concretos?
É particularmente eficaz em consultoria, tecnologia, serviços financeiros, equipas comerciais, hubs e operações de entrada em mercado. Também funciona muito bem em fases de expansão, relocalização ou reestruturação, quando a empresa precisa de rapidez sem assumir compromissos rígidos. Vemos, por exemplo, empresas que mantêm a sede e usam o cowork como escritório satélite para equipas noutras zonas da cidade.
O Avila Spaces oferece recepção, tecnologia, limpeza, manutenção e eventos. De que forma esta “hospitality” melhora a experiência diária das equipas e fortalece envolvimento e sentido de pertença?
Melhora porque retira carga operacional à empresa e fricção ao colaborador. Quando tudo funciona – recepção profissional, internet rápida e segura, salas equipadas, limpeza, manutenção e apoio no dia-a- -dia — a equipa concentra-se no que é importante. A componente de “hospitality” também humaniza a experiência: as pessoas sentem-se bem recebidas, cuidadas e apoiadas.
Que exemplos ou feedback dos colaboradores mostram o impacto real destes serviços na motivação e no sentimento de um “bom lugar para trabalhar”?
O feedback mais frequente é muito revelador: “aqui é fácil trabalhar”, “é bom voltar”, “sinto que a empresa pensou em nós”. Este tipo de percepção conta muito. Os colaboradores valorizam a previsibilidade do serviço, a qualidade do ambiente, a forma como são recebidos e a possibilidade de alternar entre foco e colaboração sem desgaste. Quando a experiência diária corre bem, cresce a satisfação e a ligação à empresa. Um Great Place to Work constrói-se também nestes detalhes invisíveis que tornam o trabalho mais fluido, mais humano e mais sustentável.
Olhando para os próximos anos, que tendências antecipa no cowork corporativo: mais hub-and-spoke, maior flexibilidade, integração com wellbeing ou outras soluções para melhorar a experiência do colaborador?
As empresas vão procurar soluções- -chave na mão que permitam atrair e reter talento, reforçar cultura e adaptar- -se rapidamente, sem a rigidez do arrendamento tradicional. O escritório será menos um custo fixo e mais uma ferramenta de gestão de talento. A integração entre espaço, tecnologia e wellbeing será decisiva: conforto acústico, ergonomia, hospitalidade, reservas simples, comunidade e serviços que poupem tempo. Vamos ver mais modelos “hub-and-spoke”, mais escritórios satélite, mais day office e decisões cada vez mais orientadas por uso real. O mercado caminhará para menos metros quadrados e mais qualidade de experiência.
Descreva apenas numa frase, qual é a promessa do Avila Spaces para empresas que querem criar ou manter um Great Place to Work?
Oferecemos às empresas escritórios “chave na mão”, flexíveis e inspiradores, onde a cultura se vive, as equipas se ligam e o talento encontra razões concretas para ficar – com a exigência de quem foi distinguido como Great Place to Work e reconhecido internacionalmente em 2023 como melhor Cowork do Mundo nos Global Startup Awards.
Este artigo foi publicado na edição de Março (nº. 183) da Revista da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














