Barómetro. Haverá uma mudança do paradigma de trabalho no pós-pandemia? Os especialistas não têm dúvidas

A maioria dos especialistas do painel do Barómetro Human Resources não tem dúvidas de que vamos assistir, na maioria das empresas, a uma mudança do paradigma de trabalho. Isso passa pelo teletrabalho, mas não só. Também evidente nos resultados desta 34.ª edição, é que os desafios para a Gestão de Pessoas previstos em 2020 mudaram significativamente.

 

Por Ana Leonor Martins

 

Há precisamente um ano, a análise ao Barómetro Human Resources, então na sua 29.ª edição, começava assim: «Sem surpresas, a atracção e retenção de talento é identificada pelos especialistas como o grande tema para a Gestão de Pessoas em 2020.» Mas surpresa foi precisamente o que aconteceu com a pandemia de COVID-19, e por isso há diferenças drásticas na percepção dos responsáveis para 2021 em relação às que anteviam para o ano passado.

Desde logo, e onde a diferença é mais drástica e a tendência diametralmente oposta, é na perspectiva sobre a evolução do emprego em Portugal. Se, em Janeiro de 2020, apenas 6% dos inquiridos previam uma diminuição do emprego (entre 0 e 3%), em Janeiro de 2021 há um aumento de 70 pontos percentuais (p.p.), com 40% dos especialistas a considerarem que o emprego vai sofrer uma diminuição entre 0 e 3%, e 36% a acharem que essa diminuição será superior a 3% (no ano passado, nenhum dos inquiridos acreditava neste cenário), num total de 76%. Já 7% consideram que o emprego se irá manter (em 2020, a percentagem foi de 42%) e há 17% especialistas confiantes de que vai aumentar (14% entre 0 e 3% – em 2020, a percentagem foi de 48%; e 3% acham que o aumento será superior a 3%, percentagem igual à do ano passado). Ou seja, quando comparada com o ano passado, esta percentagem sofre uma redução de 34 p.p.

No que respeita à projecção para a evolução do número de colaboradores nas respectivas empresas, em 2021, a estimativa é mais optimista, com a maioria (41%) dos especialistas do painel a acreditar que se vai manter. Mas 34% prevêem uma redução que, para 14%, será superiora 5%. Por outro lado, 24% revelam que irão aumentar o número de colaboradores.

A outra grande diferença regista-se ao nível do que serão os grandes temas e desafios da Gestão de Pessoas este ano (podendo os especialistas escolher até três). No início do ano passado, como já referido, não havia dúvidas de que seria a atracção e retenção de talento, com 59% das respostas. Este ano reúne 12% das respostas, menos 47 p.p. Em segundo surgia o equilíbrio entre a vida pessoas e familiar/bem-estar dos colaboradores (44%), com a transformação digital a completar o top 3 (42%). Volvidos 12 meses com uma pandemia (que subsiste) no meio, as prioridades vão claramente ser outras. Destacadas, com 64%, surgem as novas formas de organização do trabalho, seguida pela preocupação com a saúde – física e mental – dos colaboradores (536%) e pela liderança de equipa (35%).

Já em relação ao nível de preparação dos responsáveis pela Gestão de Pessoas para enfrentar os desafios identificados, a maioria (60%) está optimista, afirmando que estão preparados, mas ressalvando que vão precisar de actualizar as suas competências. Para 21% dos inquiridos, a maioria dos responsáveis estão preparados e nenhum afirma que não estão. Mas 19% acham que a maioria dos gestores de Recursos Humanos não estão preparados.

Não obstante, perante o actual contexto, parece que a influência dos responsáveis de Gestão de Pessoas na estratégia do negócio vai aumentar em 2021. É nisso que acredita a esmagadora maioria (79%) do painel de especialistas, com 52% a afirmarem que será uma influência elevada e 28% a dizerem mesmo que será muito elevada. No global, a percentagem não é muito diferente da registada no ano passado nestas variáveis, mas há mais profissionais a considerar que será uma influência “muito elevada”. Por outro lado, apenas 2% acham que será uma influência reduzida e ninguém acredita que vai ser muito reduzida ou nula.

 

As novas formas de trabalho. E novo paradigma?
Porque têm havido algumas vozes assumidamente discordantes, considerando não ser benéfico para as empresas ter toda a equipa em trabalho remoto, questionámos os especialistas se, enquanto a situação de pandemia se mantiver (com números elevados), concordam com a manutenção da obrigatoriedade do teletrabalho a 100% em todos as funções em que isso seja possível. E a larga maioria (72%) não tem dúvidas em afirmar que sim.

Sendo que, das empresas representadas no painel do Barómetro Human Resources, e independentemente do sector de actividade, não há nenhuma que não tenha – ou nunca tenha tido – equipas em teletrabalho, 48% garantem que, na sua empresa, a maioria dos managers a quem as equipas em teletrabalho reportam fazem a avaliação de desempenho e dão feedback de forma regular. E 21% afirmam mesmo que todos o fazem. Já 29% reconhecem que essa avaliação e feedback regular só é feito por uma minoria dos managers.

Ainda que, após o Estado de Emergência, as empresas possam retomar alguma normalidade no seu dia-a-dia, quase todos os gestores e responsáveis de empresas têm sido peremptórios na convicção de que “nada será como dantes”. Assim, é natural que novos modelos de trabalho comecem a ganhar outra relevância. Quando questionados sobre que modelos de trabalho acreditam que mais irão crescer nos próximos tempos (e podendo escolher até dois), 67% dos inquiridos destacaram o trabalho por projecto. A uma distância considerável – com 36% das respostas –, surge em segundo lugar os trabalhos da gig economy (“uberização”), com o trabalho freelancer (com 28%) a completar o top 3 dos mais referidos. No lado dos modelos que menos irão crescer, de acordo com os especialistas, serão os trabalhos com contrato sem termo (5%) e o trabalho temporário (12%).

Pensando num cenário pós-pandemia, e voltando ao teletrabalho, quisemos saber que preponderância os especialistas acreditam que irá assumir na maioria das empresas em Portugal e a maior parte (38%) perspectiva que a percentagem da forma de trabalho que estará neste regime será entre 10 e 30%, e 34% defendem que será entre 30 e 50%. Ou seja, não será sempre menos de metade da totalidade da equipa em trabalho remoto. Nenhum inquirido acredita que a maioria das empresas terá mais de 90% dos colaboradores em teletrabalho, mas também só 5% acham que essa percentagem será inferior a 10%.

A questão que se coloca é, com estas mudanças, vamos de facto assistir a uma mudança do paradigma de trabalho, com novas práticas e modelos de organização do trabalho a serem a regra, com os resultados a sobreporem-se ao presentismo, etc. E a resposta surge inequívoca: 62% dos inquiridos acreditam que essa mudança de paradigma se vai verificar na maioria das empresas e 5% acham mesmo que será em todas. Ninguém afirma que nenhuma empresa fará essa mudança, mas 33% consideram que será só numa minoria de empresas. Teremos de esperar até que as restrições acabem para ver como as empresas se (re)organizam e o que vão assumir como prioritário.

Os resultados são comentados por alguns especialistas do painel do Barómetro Human Resources, composto por mais de 200 profissionais, maioritariamente gestores de Pessoas (75%), mas também presidentes (10%) e directores de Marca, Comunicação e/ou Marketing (15%).

 

Fique a conhecer todos os resultados do XXXIV Barómetro Human Resources na edição de Fevereiro  (nº.122)  da Human Resources, nas bancas (se preferir a versão online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital), e o comentário dos especialistas:

– Ana Porfírio, directora de Recursos Humanos da Jaba Recordati

– Andreia Rangel, head of People da Deloitte Portugal

– Catarina Horta, directora de Capital Humano do Novo Banco

– Isabel Barros, administradora executiva da Sonae MC

– Isabel Moisés, directora executiva de Recursos Humanos do Grupo Secil

– Joana Queiroz Ribeiro, directora de Pessoas e Organização da Fidelidade

– João Zúquete da Silva, administrador e chief Corporate officer da Altice Portugal

– Paulo Jorge Silva, director de Recursos Humanos da SIVA

– Pedro Jorge Silva, director de Recursos Humanos da Santra Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML)

– Sandra Brito Pereira, directora de Recursos Humanos do Banco Montepio

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