Bernardo Correia, director-geral da Google Portugal: “Portugal continua a ser um país muitíssimo interessante para investir”

Bernardo Correia acredita que as pessoas com mais impacto raramente são aquelas que são meramente muito boas no que fazem. É preciso paixão. E é isso que se percebe nas suas palavras quando fala do que a Google tem feito pelo ecossistema digital em Portugal. É também disso que, enquanto líder, não abdica.

 

Por Ana Leonor Martins | Fotos Paulo Alexandino

 

Recentemente, a Google renovou o seu compromisso na formação em competências digitais em Portugal, assumindo como objectivo formar mais 32 mil pessoas, ainda este ano. Bernardo Correia acredita que é por aí que passa a recuperação económica portuguesa. E confia que o nosso país pode sair desta crise muito bem posicionado no que toca à localização do melhor talento do mundo. É precisamente a disponibilidade de talento nacional qualificado e a capacidade de atracção de talento internacional que o director-geral identifica como as duas principais razões que justificam o investimento da gigante tecnológica em Portugal e que pode «tornar-nos imparáveis» enquanto país.

 

Como classificaria o ecossistema digital em Portugal e como o compara com a restante Europa?
Passei 11 anos da minha carreira a viver em Inglaterra, de longe a economia mais digital dos grandes países europeus. Em 2009, o Google encomendou um estudo à BCG em que se media o peso do digital em qualquer coisa como 7,2% do PIB [Produto Interno Bruto] britânico. Quando regressei a Portugal, encomendámos um estudo semelhante também à BCG para medir o digital em Portugal, e em 2018 – quase uma década depois – esse peso era de apenas 4,7% do PIB nacional.

O ecossistema português tem feito enormes progressos, mas o caminho é ainda longo. Basta pensar que, de acordo com esse mesmo estudo, a média europeia é de quase 8% e Reino Unido, entretanto, está já nos 14%. Atingir a média europeia representaria mais 11 mil milhões de euros para a economia portuguesa.

 

A pandemia de COVID-19 veio de facto acelerar a transformação digital das empresas em Portugal, de forma irreversível?
A transformação digital em Portugal veio tarde, mas é irreversível, acima de tudo porque o consumidor português o exige. Dados do Google Trends dizem- -nos que, por exemplo, globalmente, durante a pandemia, as pesquisas relacionadas com comércio electrónico duplicaram. Em Portugal, quadruplicaram.

Falando com vários CEO e CFO noto um fenómeno singular e histórico em Portugal: as operações de comércio online, devido ao aumento da escala, são agora, muitas vezes, mais rentáveis do que as operações tradicionais. No entanto, registo também que, em muitos casos, quem aproveitou o aumento da procura por produtos e serviços digitais por parte dos portugueses foram empresas estrangeiras que estavam mais preparadas para reagir quando a procura explodiu.

Apesar disso, sou um optimista: no meu entender, a face mais visível – e urgente – da transformação digital é a procura de novos mercados para os produtos de excelência que se fazem em Portugal. Por exemplo, as máscaras portuguesas anti-microbianas da MOxAdTech são agora vendidas para 27 países.

 

Como tem a Google promovido o desenvolvimento do nosso ecossistema digital?
Orgulhamo-nos muito do trabalho que temos feito em Portugal. A BCG estimou o impacto económico directo dos produtos Google em 2,5 mil milhões de euros em Portugal e o impacto indirecto, ou seja, através dos nossos produtos gratuitos, em qualquer coisa como nove mil milhões de euros, o que é quase 5% do tamanho do PIB em Portugal e o equivalente a 70 mil empregos.

Orgulhamo-nos não só de ter um impacto grande na economia portuguesa, mas também de termos uma presença cada vez mais reforçada pelos investimentos que temos feito recentemente, seja no cabo submarino que estamos a construir ligando a África à Europa via Portugal, na aposta decisiva na competências digitais através do Atelier Digital ou do Android Training Program, ou na promoção da língua e cultura portuguesas, através da digitalização dos museus sob a alçada do Ministério da Cultura, ou na exposição virtual da Lusofonia em parceria com a Universidade do Minho.

Mais recentemente, em resposta à pandemia, tentamos apoiar o estado português e os seus cidadãos e empresas. Desde integrar as informações oficiais da Direcção-Geral da Saúde (DGS) no motor de pesquisa à parceria com a Altice para criar assistentes virtuais com inteligência artificial (IA) para a linha Saúde 24, a publicidade gratuita para o governo e PME, o portal Ensine de Casa para professores, a parceria entre o Ministério da Educação, YouTube e Thumb Media na criação do canal do YouTube #Estudoemcasa, o lançamento do Google For Nonprofits, o donativo de 100 mil euros para o Banco Alimentar, e os mais de 70 jornais locais apoiados financeiramente.

Há inúmeros outros exemplos, mas não queria deixar de referir que, acima de tudo, orgulho-me do trabalho que as nossas equipas fazem todos os dias para apoiar as empresas portuguesas na sua digitalização, sem a qual não há futuro para a nossa economia.

 

Recentemente assinaram um memorando de entendimento com o Governo, para apoiar a transição digital das empresas. Como pretendem concretizar este programa “Grow Portugal with Google”?
Este memorando é, primordialmente, a nossa forma de apoiar o ambicioso programa “Portugal Digital” de transição digital do Governo Português, focado em três grandes áreas: competências digitais e empregabilidade, startups e inteligência artificial. Pretende ser um começo e não um fim, ou seja, os projectos já anunciados serão, assim espero, os primeiros de muitos.

Como parte deste memorando, o Google compromete-se a renovar o seu compromisso na formação em competências digitais em Portugal e anunciamos novos objectivos.

 

Através de projectos como o Atelier Digital ou o Android Training Program…
Concretamente, vamos ter como objectivo formar mais 32 mil pessoas em competências digitais até final de 2020 através do Atelier Digital, em parceria com politécnicos portugueses, e mais três mil programadores através do Android Training Program. No apoio à empregabilidade, lançámos uma nova experiência de emprego no motor de pesquisa em parceria com o IEFP [Instituto do Emprego e Formação Profissional].

No empreendedorismo, está a decorrer o Indico Accelerator Program powered by Google for Startups, que conta com o apoio da StartUp Portugal, e, em conjunto com a AICEP [Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal], organizámos uma série de webinars digitais focados em exportação. Finalmente, em IA vamos lançar uma ferramenta de diagnóstico para ajudar as empresas portuguesas a fazer a melhor utilização possível desta tecnologia.

 

Que resultados já conseguem perceber dessas apostas?
O Atelier Digital formou, em quatro anos de vida, mais de 83 mil pessoas em Portugal. Sabemos de várias histórias inspiradoras de pessoas que conseguiram construir negócios digitais e de inúmeros jovens que incluem esta qualificação nos seus currículos. Superou largamente todas as nossas expectativas, porque inicialmente tínhamos previstos treinar 10 mil pessoas.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Outubro (n.º 118) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital.

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