Casar ou não casar com uma organização, eis a questão

Leonor Martins
28 de Novembro 2019 | 21:00
Casar ou não casar com uma organização, eis a questão

Ou a busca pela felicidade no trabalho. Porque «hoje queremos encontrar a organização certa para amar».

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Por Patrícia Araújo, docente no IPAM Porto/Universidade Europeia; consultora de HR & Internal MarKeting; CEO da Método Positivo – Consultoria, Coaching, Psicologia Positiva & Mindfulness

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Há muito que reflicto e comparo diferentes tipos de vínculos e ligações que os seres humanos estabelecem entre si, por isso, enquanto cientista social, partilho com o leitor algumas reflexões.

É curioso pensar que a relação matrimonial, ou amorosa se quisermos chamar – apesar de nem sempre ter havido amor no contrato matrimonial – cada vez mais evolui num sentido semelhante ao da relação contractual laboral: emprego ou trabalho.

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Poderá parecer insólita esta analogia, mas acompanhe-me nesta divagação… Nos primórdios dos tempos, os seres humanos nem sequer tinham a palavra “trabalho”. Do verbo latino “tripaliare” (torturar) surgiu o conceito “tripalus” (instrumento de tortura de 3 paus), que só além do século XVI começa a ganhar o sentido que hoje conhecemos. Contudo, havia registo de comportamentos produtivos, que geravam produtos e resultados. Por outro lado, nas relações ´amorosas’ também não existiam vínculos.

A implementação da monogamia como regra reduz-se a algo simples: existiu uma necessidade pragmática de estabilizar as relações sociais (e evitar conflitos) e, mais tarde, com influência de religiões e afins, consolidou-se a ideia de que a monogamia seria o caminho correcto.

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A evolução seguiu o seu caminho e nós, humanos que desenvolvíamos os comportamentos de trabalho sem empregos nem vínculos, sendo grande percentagem dele em formato freelancer/ empreendedor, passámos a criar empregos e a vincular-nos a organizações.

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O vínculo de pertença parece caminhar lado-a-lado em muitas áreas da vida humana. O emprego e/ou o casamento era uma prática relevante para gerar estabilidade, rendimento e garantir sobrevivência, numa sociedade centrada na família.

No entanto, casamentos ou empregos deixaram de ser encarados para a vida toda, e passamos a ter a possibilidade de serem, como eu lhe chamo, ‘monogâmicos em série’, ou seja, podemos recasar – ter uma, duas ou até três relações monogâmicas consecutivas.

Passou também a ser socialmente aceitável mudar algumas vezes de carreira ou de organização. Sendo no entanto de evitar que estas se tornem excessivas, por serem frequentemente interpretadas como negativas pelos empregadores.

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Qual será a etapa seguinte? Bem, talvez o regresso à forma original de nos conectarmo-nos livremente com outros seres ou organizações. O vínculo matrimonial passa a ser uma escolha e tem vindo a tornar-se tardio ou inexistente. Desaparecerá totalmente? Hoje em dia, tomamos mais tempo para encontrar uma relação integral satisfatória. E vincularmo-nos a organizações (e até a carreiras) mais tarde para encontrar propósito e sentido no emprego (e no trabalho!).

Hoje, seres humanos, conscientes e informados, escolhem amar e ser amados, sem contratos, sem vínculos ou com vínculos flexíveis, e constroem relações de amor com base na conexão que sentem uns pelos outros e não em normas sociais que tiveram a sua função durante alguns séculos.

Afinal, vivemos num momento em que “É complicado” é um estado civil para algumas redes sociais. Que tal mudar a narrativa para “É fluído”?

Noutros campos observamos fenómenos parecidos. Dantes eramos nómadas essencialmente por motivos climáticos. Hoje, cada vez mais pessoas querem assumidamente ser mais móveis, mas agora chamamos-lhe mobilidade e não nomadismo.

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Alguns pensadores poderão observar estes comportamentos e chamar-lhe ‘commitment issues’, ou seja, dificuldade em comprometer-se com seja o que for; outros chamar-lhe-ão liberdade para calmamente realizar escolhas conscientes.

Regressando ao trabalho, hoje queremos encontrar a organização certa para amar. Colaboramos, acumulamos, somos precários, com todas as imensas desvantagens que isso traz, mas podemos andar na ‘busca pela felicidade organizacional’ e procurar um sentido para o nosso contributo na sociedade.

Há tempos propôs-se uma nova versão da pirâmide das motivações de Maslow, que coloca no topo as necessidades de transcendência, de propósito e de sentido, que só passaram a ser possíveis procurar a partir deste momento maravilhoso da existência em que já não fugimos de leões e dominamos a nossa sobrevivência e podemos então, começar a caminhar para um outro humanismo.

 

«Eu quero amar, amar perdidamente», dizia Florbela. Eu diria que procuramos amar a organização onde estamos e amar a pessoa com quem decidimos partilhar a existência. E tenho a sensação de que, em breve, ninguém aceitará menos do que isso, uma verdadeira e profunda conexão, seja que em campo for.

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