Casar ou não casar com uma organização, eis a questão

Ou a busca pela felicidade no trabalho. Porque «hoje queremos encontrar a organização certa para amar».

 

Por Patrícia Araújo, docente no IPAM Porto/Universidade Europeia; consultora de HR & Internal MarKeting; CEO da Método Positivo – Consultoria, Coaching, Psicologia Positiva & Mindfulness

 

Há muito que reflicto e comparo diferentes tipos de vínculos e ligações que os seres humanos estabelecem entre si, por isso, enquanto cientista social, partilho com o leitor algumas reflexões.

É curioso pensar que a relação matrimonial, ou amorosa se quisermos chamar – apesar de nem sempre ter havido amor no contrato matrimonial – cada vez mais evolui num sentido semelhante ao da relação contractual laboral: emprego ou trabalho.

Poderá parecer insólita esta analogia, mas acompanhe-me nesta divagação… Nos primórdios dos tempos, os seres humanos nem sequer tinham a palavra “trabalho”. Do verbo latino “tripaliare” (torturar) surgiu o conceito “tripalus” (instrumento de tortura de 3 paus), que só além do século XVI começa a ganhar o sentido que hoje conhecemos. Contudo, havia registo de comportamentos produtivos, que geravam produtos e resultados. Por outro lado, nas relações ´amorosas’ também não existiam vínculos.

A implementação da monogamia como regra reduz-se a algo simples: existiu uma necessidade pragmática de estabilizar as relações sociais (e evitar conflitos) e, mais tarde, com influência de religiões e afins, consolidou-se a ideia de que a monogamia seria o caminho correcto.

A evolução seguiu o seu caminho e nós, humanos que desenvolvíamos os comportamentos de trabalho sem empregos nem vínculos, sendo grande percentagem dele em formato freelancer/ empreendedor, passámos a criar empregos e a vincular-nos a organizações.

O vínculo de pertença parece caminhar lado-a-lado em muitas áreas da vida humana. O emprego e/ou o casamento era uma prática relevante para gerar estabilidade, rendimento e garantir sobrevivência, numa sociedade centrada na família.

No entanto, casamentos ou empregos deixaram de ser encarados para a vida toda, e passamos a ter a possibilidade de serem, como eu lhe chamo, ‘monogâmicos em série’, ou seja, podemos recasar – ter uma, duas ou até três relações monogâmicas consecutivas.

Passou também a ser socialmente aceitável mudar algumas vezes de carreira ou de organização. Sendo no entanto de evitar que estas se tornem excessivas, por serem frequentemente interpretadas como negativas pelos empregadores.

Qual será a etapa seguinte? Bem, talvez o regresso à forma original de nos conectarmo-nos livremente com outros seres ou organizações. O vínculo matrimonial passa a ser uma escolha e tem vindo a tornar-se tardio ou inexistente. Desaparecerá totalmente? Hoje em dia, tomamos mais tempo para encontrar uma relação integral satisfatória. E vincularmo-nos a organizações (e até a carreiras) mais tarde para encontrar propósito e sentido no emprego (e no trabalho!).

Hoje, seres humanos, conscientes e informados, escolhem amar e ser amados, sem contratos, sem vínculos ou com vínculos flexíveis, e constroem relações de amor com base na conexão que sentem uns pelos outros e não em normas sociais que tiveram a sua função durante alguns séculos.

Afinal, vivemos num momento em que “É complicado” é um estado civil para algumas redes sociais. Que tal mudar a narrativa para “É fluído”?

Noutros campos observamos fenómenos parecidos. Dantes eramos nómadas essencialmente por motivos climáticos. Hoje, cada vez mais pessoas querem assumidamente ser mais móveis, mas agora chamamos-lhe mobilidade e não nomadismo.

Alguns pensadores poderão observar estes comportamentos e chamar-lhe ‘commitment issues’, ou seja, dificuldade em comprometer-se com seja o que for; outros chamar-lhe-ão liberdade para calmamente realizar escolhas conscientes.

Regressando ao trabalho, hoje queremos encontrar a organização certa para amar. Colaboramos, acumulamos, somos precários, com todas as imensas desvantagens que isso traz, mas podemos andar na ‘busca pela felicidade organizacional’ e procurar um sentido para o nosso contributo na sociedade.

Há tempos propôs-se uma nova versão da pirâmide das motivações de Maslow, que coloca no topo as necessidades de transcendência, de propósito e de sentido, que só passaram a ser possíveis procurar a partir deste momento maravilhoso da existência em que já não fugimos de leões e dominamos a nossa sobrevivência e podemos então, começar a caminhar para um outro humanismo.

 

«Eu quero amar, amar perdidamente», dizia Florbela. Eu diria que procuramos amar a organização onde estamos e amar a pessoa com quem decidimos partilhar a existência. E tenho a sensação de que, em breve, ninguém aceitará menos do que isso, uma verdadeira e profunda conexão, seja que em campo for.

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