
Catarina Real, Medicare: Porque a experiência também é inovação (e não salta degraus)
Vivemos numa época em que a inovação é quase automaticamente associada à juventude, à velocidade, à transformação digital, à criatividade disruptiva. Não obstante, esta visão ignora um recurso que cada vez mais importa: a experiência.
Por Catarina Real, head of People and Wellbeing da Medicare
Ter vivência, conhecer falhas do passado e despertar consenso são formas de inovação mais subtis, mas profundamente eficazes. A inovação é assumida como um valor absoluto, que impulsiona o progresso, desafia o status quo e abre caminhos antes inimagináveis, mas é preciso reconhecer que inovar não é um salto, é uma escalada. E, como toda a escada, a da inovação também tem degraus que não podem ser ignorados.
Cada degrau representa uma etapa de aprendizagem, de experimentação e de amadurecimento. São momentos em que se erra, se reflecte, se ajusta e se cresce. No entanto, o ritmo acelerado da sociedade actual, muitas vezes, pressiona indivíduos e instituições a chegarem ao topo o mais rápido possível. O resultado? Um conhecimento que, por vezes, é adquirido já nos degraus superiores, sem que se tenha passado pelas bases fundamentais.
Essa tendência é particularmente visível nas novas gerações, que entram no mercado com acesso a uma quantidade imensa de informação e ferramentas tecnológicas. Embora isso seja uma vantagem inegável, também pode gerar uma falsa sensação de domínio. Quando se ignora o percurso, corre-se o risco de construir soluções frágeis, incapazes de lidar com a complexidade dos problemas reais ou de sustentar estratégias robustas a longo prazo.
Nesse contexto, a presença significativa de profissionais com mais de 50 anos nas empresas pode representar uma vantagem estratégica. Estudos recentes sublinham o valor acrescentado dos profissionais seniores nas organizações, contrariando os estereótipos de desmotivação ou desactualização.
Um relatório da Michael Page Portugal revela que 62% dos profissionais com mais de 50 anos procuram activamente oportunidades de formação e desenvolvimento de carreira, o que revela um forte compromisso com a aprendizagem contínua e a inovação. Noutro, da OCDE, ficou demonstrado que um aumento de 10% na proporção de trabalhadores com mais de 50 anos nas empresas está associado a ganhos directos de produtividade, destacando o contributo efectivo da experiência na performance organizacional. E ainda um outro estudo, da AESE Business School, conclui que equipas multigeracionais tendem a ser mais resilientes, inovadoras e equilibradas, promovendo não só a retenção de conhecimento, mas também uma cultura colaborativa entre diferentes gerações.
Sendo assim, as empresas que acolhem estas faixas etárias percebem-nos como fonte de inovação através da experiência acumulada, constituindo uma base sólida para decisões estratégicas, cultura organizacional resiliente e abordagens ponderadas a desafios complexos.
Para tirar pleno proveito deste potencial, é essencial aplicar medidas concretas que promovam a integração plena dos profissionais seniores nas organizações, começando por investir de forma contínua na formação e requalificação. É importante entender estas medidas como investimento, não custo. Qualquer empresa que aposte numa equipa diversificada em idade tende a ganhar em resiliência, criatividade e sustentabilidade.
A inovação exige mais do que romper com o passado e de ter boas ideias, exige contexto, experiência, resiliência e integração do acervo humano de formas mais eficientes. E isto não se aprende apenas nos livros ou nos laboratórios; aprende-se no percurso, nos degraus que muitos tentam evitar.
A experiência sénior não é um entrave: é inovação em forma de estabilidade, estratégia e sabedoria. Valorizar estes profissionais é preparar as nossas empresas para um presente mais equilibrado e um futuro mais sustentável.
Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.