Chief Talent Officer Cast | Requalificar para preparar o futuro

Human Resources
20 de Março 2026 | 17:00

Human Resources dá início a uma nova rúbrica – Chief Talent Officer Cast, que resulta do videocast lançado este mês, em parceria com a NCN que, tal como o nome indica – New Career Network –, visa orientar e dar clareza às escolhas de requalificação profissional, através da curadoria de percursos formativos de elevada empregabilidade, num mercado de trabalho em rápida evolução e com elevada oferta formativa. É uma plataforma digital, impulsionada por inteligência artificial (IA), que junta profissionais, empresas e entidades formadoras.

Neste âmbito, o Chief Talent Officer Cast, uma série que com seis episódios, vai juntar especialistas e empresas, para reflectir sobre um dos temas mais prementes do mundo do trabalho de hoje: o imperativo do reskilling e upskilling. No primeiro episódio, o tema foi “Mind the Gap: oferta e procura de talento” e contou com a participação de Miguel Mota Freitas, executive administrator da Fundação Belmiro de Azevedo; Pedro Santa Clara, director da Escola 42 (42 Lisboa e 42 Porto)  e do TUMO Portugal e professor de Finanças; e Luz Pessoa e Costa, directora do Departamento de Formação Profissionaldo IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, numa conversa conduzida por Ana Leonor Martins, directora de redacção da revista Human Resources Portugal.

 

O ensino sob pressão

Pedro Santa Clara começa por destacar que Portugal registou um percurso importante nos últimos 50 a 70 anos, tanto no desenvolvimento de talento como no progresso da educação. No entanto, sublinha que «ainda há muito por fazer ». E acrescenta que, apesar do cenário de pleno emprego, o desemprego jovem continua a ser elevado, afectando, maioritariamente, jovens recém-formados. Esta realidade revela um problema estrutural de baixa produtividade, mostrando que muitas empresas permanecem em sectores de baixo valor acrescentado e têm dificuldade em subir na cadeia de valor.

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O professor alerta ainda para os elevados níveis de emigração de jovens licenciados e realça o desfasamento entre a formação produzida pelo sistema educativo e as competências procuradas por empresas, startups e novos negócios. Este problema torna-se mais evidente no ensino superior, onde se verifica um «sistema de ensino cada vez mai dual»: por um lado, universidades e cursos de elite com elevada procura e médias de entrada muito altas; por outro, a maioria das instituições enfrenta dificuldades em preencher vagas.

Pedro Santa Clara faz notar que as universidades e os politécnicos públicos funcionam em cerca de 75% da sua capacidade, existindo cursos sem procura e instituições que não conseguem ocupar 20% das vagas disponíveis. Em muitos destes casos, os resultado traduzem-se em elevadas taxas de desemprego e salários baixos. Defende, por isso, a criação de modelos de governação mais responsáveis e de incentivos alinhados com a realidade, sublinhando que, em qualquer outro mercado, «um sistema organizado desta forma não funcionaria».

 

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Formação e mercado de trabalho

Também em relação ao desemprego jovem, Luz Pessoa e Costa afirma que continua a ser uma realidade, reflectindo as dificuldades na integração desta geração no mercado de trabalho. Ao analisar o contexto laboral, verifica-se uma taxa de desemprego de cerca de 5,9%, o que confirma o cenário de pleno emprego. Não obstante, continuam a existir frequentemente pedidos por recursos humanos qualificados, defendendo a responsável a necessidade de uma «nova intervenção ao nível das políticas públicas».

De acordo com a directora do IEFP, o sistema legislativo criado em 2007 já não responde de forma eficaz aos desafios actuais, estando, sobretudo, orientado para a qualificação de profissionais em situação de desemprego. Acrescenta ainda que o modelo escolar já não se adapta à realidade actual, assente no Catálogo Nacional de Qualificações.

Face a este cenário, as políticas públicas devem adoptar um novo pensamento, de modo a acompanhar as transformações do mercado de trabalho, não devendo o sistema continuar a aplicar as mesmas receitas. Temas como a economia verde, a digitalização ou mesmo o envelhecimento da população trazem novos desafios e pressionam ainda mais o mercado de trabalho, exigindo outro tipo de resposta.

 

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A educação para o futuro

Por outro lado, Miguel Mota Freitas constata que, segundo o balanço anual da educação, promovido pela Fundação Belmiro de Azevedo, a evolução é positiva, reflectindo a capacidade de resposta do sistema educativo. «Há cinco anos, era mais difícil encontrar profissionais com competências necessárias para sustentar as necessidades das empresas», garante.

Essa evolução também se nota ao nível da progressão salarial, que se verificou, essencialmente, em dois níveis: o ensino básico (pela progressão do salário mínimo nacional) e o ensino superior. Esta polarização da sociedade está a dar sinais de mudança no mercado de trabalho. Revela também que cerca de um terço dos empregos em Portugal exige «capacidade de análise abstracta e competências analíticas», uma realidade que antes não se verificava.

Para o responsável, a questão central não é avaliar se os profissionais que hoje estão no mercado estão bem preparados para responder às necessidades das empresas. «O ensino tem de ser pensado a 20, 30, 40 ou 50 anos», sublinha. O objectivo é perceber «o que é que os jovens que entram agora no sistema de ensino vão estar a fazer daqui a 30 ou 40 anos?», constatando que deve haver uma mudança concreta no ensino e na forma como o conhecimento é transmitido.

 

O impacto da IA

Focando a conversa no impacto que a inteligência artificial (IA) terá no futuro do trabalho, Pedro Santa Clara diz que é «difícil de prever». Os profissionais que entrarem no mercado laboral terão mais actividades para desempenhar, exigindo uma maior capacidade de adaptação e actualização contínua para conseguirem gerir o seu capital humano eficazmente.

Citando um estudo do McKinsey Global Institute, feito em colaboração com a Nova SBE, intitulado “Future of Work: Automação com GenAI: Oportunidade única para melhorar a produtividade em Portugal”, destaca que será preciso requalificar cerca de 1,3 milhões de profissionais até ao final da década. E faz notar que «nenhuma instituição de ensino tem essa competência », sublinhando a necessidade de repensar as políticas de formação e as estratégias de gestão de talento.

Há cerca de um ano, a Escola 42 começou a trabalhar numa solução com base no modelo «aprender através de desafios e da colaboração entre pares», e que esteve na origem do AI Dive for Business. A iniciativa consiste numa experiência imersiva de cinco dias, desenvolvida para responder a vários desafios em áreas como Marketing, Recursos Humanos, Vendas, automatização de processos ou criação de agentes.

O programa pretende, assim, capacitar os profissionais para a aplicação prática da IA, defendendo que se trata de uma «mudança que tem de acontecer na sociedade». A falta dessa capacidade por parte das instituições de ensino poderá, no futuro, «colocar em causa a economia portuguesa, a segurança social e a taxa de desemprego, afectando a vida de milhares de pessoas».

Para responder a este desafio, Luz Pessoa e Costa revela que o IEFP está a participar numa «reforma da legislação de enquadramento da formação profissional», assumindo que, pela primeira vez, se assiste a uma mudança de paradigma. Com recurso aos fundos do PRR, o instituto tem vindo a modernizar os centros de formação em todo o País, tanto os de gestão directa como os de gestão protocolar, com o intuito de reformular a sua própria rede.

Paralelamente, a organização tem investido na modernização dos equipamentos de formação profissional e no desenvolvimento de projectos formativos baseados na realidade virtual, destinados a reforçar a capacitaçãoe a disseminação do conhecimento. A formação de formadores, considerados
«agentes fundamentais para capacitar as pessoas», surge também como uma prioridade. A responsável defende ainda a revisão do diploma de formadores, que considera «completamente ultrapassado», bem como o reforço das parcerias com entidades públicas e privadas.

 

As competências no centro da mudança

Na perspectiva de Miguel Mota Freitas, as competências são um «tema central» no actual eixo de mudança do sistema de ensino, defendendo a importância da «aprendizagem contínua ao longo da vida». Acrescenta ainda que, actualmente, é difícil prever qual será o percurso profissional dos jovens que estão a ingressar no sistema de ensino, ao contrário das gerações anteriores, que tinham maior clareza sobre o sector ou a profissão que iriam exercer durante 30 ou 40 anos. «A sociedade tem de acreditar na necessidade de transformar a maneira como se olha para a aprendizagem e para o ensino», enfatizou o responsável.

Nesse sentido, torna-se fundamental reflectir sobre as questões ligadas ao reskilling. Considerando que algumas empresas estão mais preparadas do que outras, o gestor constata que a maioria opera numa «perspectiva incremental e não propriamente  transformacional. As organizações devem compreender o novo modelo da relação laboral e proporcionar condições para os profissionais poderem investir em novas competências.»

 

Requalificar para inovar

Por sua vez, Pedro Santa Clara defende a necessidade de «desregulamentar para inovar», criando incentivos que permitam às instituições apoiar os seus clientes e desenvolver modelos de governação capazes de responder às necessidades da sociedade, sublinhando que estes esforços são fundamentais para a evolução da educação.

No caso do IEFP, a instituição tem desenvolvido projectos de parceria como o PRO_MOV ou o UPskill. No entanto, a directora lança uma questão: como podem as pequenas e médias empresas (PME), que constituem a maioria do tecido empresarial português, dispensar os seus colaboradores para iniciarem processos de requalificação. E reconhece que um dos principais desafios está em compreender o actual quadro legislativo, garantindo que se actua sem prejudicar as leis da concorrência, do auxílio do Estado ou de outras normas para apoiar as PME.

A responsável identifica outro problema: o nível de competências dos dirigentes das PME, tema que precisa de ser encarado de forma «directa e com prioridade. É um trabalho que exige uma atenção contínua», enfatiza.

Para Miguel Mota Freitas, há um excesso de conhecimento ligado à especialização.Por outro lado, defende que a actualização de competências deve centrar-se, sobretudo, em profissionais que estejam no activo. «A grande dificuldade das empresas não é a falta de acesso ao conhecimento e à especialização, mas a capacidade de mudar e ter a agilidade para responder aos novos desafios», acredita.

A solução passa por adoptar uma lógica de parceria entre o Estado e o sector privado, uma vez que, conforme a Constituição Portuguesa, o Estado tem a obrigação de garantir um ensino
transversal a toda a população, mas também para o sector privado – neste caso as empresas –, garantindo que a formação responde às exigências do mercado de trabalho.

Alerta ainda que, embora algumas organizações possam prosperar sozinhas, «a economia portuguesa depende principalmente das pequenas empresas». Por isso, reforça que a colaboração entre Estado, sector privado e entidades é essencial para garantir que a requalificação atinja todos os níveis esperados do mercado de trabalho.

 

Este artigo foi publicado na edição de Fevreiro (nº. 182) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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