Como a ética está a ser vivida nas empresas em tempos de pandemia? Este estudo dá a resposta

Um estudo da Católica Porto Business School revelou que o contexto de pandemia tornou mais complexos os desafios éticos e veio enfatizar a importância da confiança. Fez também emergir a ética do cuidar no ambiente vivido nas empresas, materializado em dois sentimentos pouco habituais em contexto laboral – protecção e compaixão.

 

Por Ana Leonor Martins e Sandra Pinto

 

O Fórum de Ética da Católica Porto Business School promoveu o estudo “A ética nas empresas em tempos de pandemia”, tendo como objectivo fazer um retrato de como a crise está a ser vivida de um ponto de vista ético nas organizações, as eventuais angústias, as decisões mais difíceis e a forma como pessoas, com e sem responsabilidades de gestão, foram dando resposta às novas questões que surgiram.

Helena Gonçalves, coordenadora do Fórum de Ética, revela e analisa os principais resultados do inquérito lançado após o fim do confinamento nacional, entre 19 de Junho e 31 de Julho, em que mais de metade dos participantes reconhece que a pandemia veio aumentar os desafios éticos.

 

O que motivou a realização deste estudo? Porque acharam relevante realizar este inquérito no pós-confinamento? Este estudo teve como objectivo fazer um retrato de como a crise pandémica estava a ser vivida de um ponto de vista ético nas organizações, as angústias, as decisões mais difíceis, a forma como pessoas, com e sem responsabilidades de gestão, iam dando resposta às novas questões que surgiam.

Considerámos que era importante conhecer o ambiente vivido, as principais perturbações ocorridas e as respectivas soluções e, essencialmente, conhecer os desafios éticos, o que os tornou especialmente difíceis, as oportunidades que a pandemia revelou e o momento mais marcante neste tempo de pandemia. É, por isso, um estudo com uma grande componente qualitativa, com perguntas nas quais é deixada alguma margem para a expressão da visão pessoal de cada respondente.

 

Como é que a crise pandémica afectou as organizações do ponto de vista ético?
Cerca de metade – 53% – considera que teve mais desafios éticos durante o período de confinamento. Se juntarmos as pessoas que “não sabem”, talvez por terem dificuldade em estabelecer a exacta fronteira do que é um desafio ético, o valor ultrapassa os 80%.

Nesses desafios, para todos, com ou sem responsabilidade de gestão, surgem em primeiro lugar dois tópicos: as questões ligadas à conciliação do trabalho com a família que, no caso das chefias é não só a sua família, mas também a dos colaboradores; e as questões da equidade, que talvez estejam relacionadas, sobretudo pelas chefias, com o conhecimento e necessidade de dar respostas diferentes às situações particulares de trabalhadores.

De notar que, para quem não tem responsabilidade de gestão, a questão da equidade surge a par com a necessidade de se cumprir ordens com as quais não se concorda ou das quais se desconhece a utilidade. Esta resposta poderá estar relacionada com algo que é muito referido nas respostas abertas: a comunicação e a transparência, que todos – chefias e não chefias – consideram que poderiam ter sido melhor geridos durante o período de confinamento.

 

Mas como é que o confinamento e o teletrabalho “condicionaram” este tema?
A questão da família e da conciliação trabalho-família não é, naturalmente, uma questão nova, mas a pandemia deu-lhe uma nova dimensão, colocou a família na empresa ou a empresa no espaço da família. Esta “coabitação” “tornou mais evidente aquilo que é negligenciado no dia-a-dia em casa” – não chefia –, permitiu à família exercer uma pressão que se torna aqui muito mais presente e que se materializa, por exemplo, na pressão “para não fazer horas extras de trabalho” – não chefia.

Por outro lado, há a entrada de novos personagens e espectadores da vida das empresas. Por exemplo, quando alguém está em casa a falar com colegas, com a equipa ou com a sua chefia, as crianças da casa são espectadoras do tom da conversa, das reacções… A vida empresarial passa a ser potencialmente um exemplo, e tem de ser pensada enquanto tal.

Há um apelo a uma integridade da pessoa, a uma coerência entre o que cada um é em casa e no trabalho, que nunca tinha sido sentido desta forma antes.

 

Quais as principais angústias reveladas pelos profissionais?
A percepção que temos decorre da selecção de sentimentos que descreve o ambiente que estava a ser vivido na empresa. O desgaste, o medo, a desorientação, o desalento, a perda de foco e até mesmo o desespero foram alguns dos sentimentos mais comuns neste tempo de pandemia, mas, curiosamente, não foram os sentimentos mais assinalados. Dessa lista de características do ambiente vivido, existe um maior destaque para aspectos positivos como o desafio, o optimismo e o dinamismo que foram vividos por muitas pessoas e dos quais os produtos e serviços que foram criados neste período são de algum modo testemunho. Houve ainda quem considerasse ter vivido num ambiente protector ou mesmo compassivo, um pequeno sinal da prática da “Ética do Cuidado” em contexto de trabalho.

 

Tendo o estudo englobado profissionais com e sem responsabilidades de gestão, notaram diferentes percepções sobre o tema?
Embora não haja diferenças significativas entre chefias e não chefias quanto ao número de desafios éticos, há diferenças substanciais quando analisamos as respostas abertas, onde se nota o peso e a responsabilidade que recaiu sobre as chefias e o desafio pessoal que a pandemia para elas representou.

Este período foi, para muitas chefias, o dar de caras com o mundo VUCA [acrônimo das palavras inglesas Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity], começar a decidir num mundo onde “tudo ou quase tudo passou a temporário, reversível, precário, indefinido” – resposta de chefia. Ou seja, as chefias viveram de forma acrescida, pela inerência das suas funções, aquilo que caracteriza os dilemas éticos: a ausência de certezas sobre qual a decisão a tomar, a ausência de regras pré-definidas, o isolamento no momento da decisão.

As situações adquiriram maior complexidade, passou-se para a “ambiguidade e ambivalência dos sentimentos: por um lado querer compreender quem quer deixar de pagar e por outro lado não ter margem para aceitar isso” – resposta de chefia.

 

O que destaca das principais conclusões do estudo?
O surgimento da ética do cuidar no ambiente vivido nas empresas, materializado em dois sentimentos – protecção e compaixão – que talvez não fosse comum associar a sentimentos do contexto laboral. E, referido por chefias e não chefias, o surgimento, de forma muito marcada, da dimensão pessoal, do contexto específico de cada pessoa, como um aspecto a ter em conta na tomada de decisão.

 

O que se evidencia de mais negativo?
Talvez a dificuldade em confiar de algumas chefias, que é referida pelas próprias e também por não chefias, com alguma mágoa.

Efectivamente, algumas chefias tiveram dificuldade em adaptar a sua liderança a um contexto em que era muito mais difícil controlar as pessoas, nomeadamente no que diz respeito a horários de trabalho e em que era preciso confiar.

Por outro lado, o facto de estarem a decidir num contexto completamente novo, sem certezas e sem regras comprovadas, colocou as chefias numa posição de fragilidade, que pode ter tido, em algumas, impacto na sua própria imagem e autoconfiança.

Parece-nos que este foi um período em que teria sido muito importante para as chefias terem tido apoio para se conseguirem manter no seu melhor, mas, como em muitas situações na vida, o urgente ultrapassou o importante.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Janeiro (nº.121) da Human Resources, nas bancas.

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