No que respeita à eficácia de pessoas nas empresas, pode-se fazer um paralelismo perfeito com um ditado, agora alterado: ‘sem bons ovos não há boas omeletes’, ou seja, a matéria-prima e a sua qualidade (leia-se as pessoas) são uma condição necessária, mas não suficiente para se atingir os objetivos financeiros ou comerciais da empresa. Temos um consenso de que sem uma equipa funcional, atingir objetivos ambiciosos deixa de ser possível, pondo até em risco a viabilidade da empresa?
Ricardo Anselmo de Castro, sócio-fundador da empresa de consultoria de gestão INERCIA-MN e coordenador do Programa de Especialização de Lean Six Sigma Black Belt, do Instituto Superior Técnico.
Como então gerar bons ovos? Bem, tudo começa na qualidade do pensamento de cada um. O resto é consequência. Onde deveremos então atuar: nas consequências, ou nas causas? Não precisamos ser génios para responder corretamente. Sem pensarmos de forma clara e simples, não é possível tomar boas decisões, executar as tarefas corretamente ou sabermo-nos relacionar com os outros. E, perante tais dificuldades, é natural que a resistência à mudança comece a surgir entre áreas, com tudo o que isso implica. Mas é aqui que as coisas começam a tonar-se interessantes. É possível usar a força da resistência à mudança que existe na sua empresa, a favor dos seus objetivos. Quero que pense um pouco sobre o que isto pode significar para si. Como usar essa resistência, essa força negativa, a seu favor? Através da aplicação de ferramentas avançadas de lógica. Vejamos os seguintes exemplos que sublinham a importância do tema que é a lógica:
Se todas as rosas são flores, e se algumas flores murcham rapidamente, então algumas rosas murcham rapidamente, certo? Errado. Invertemos o silogismo de Aristóteles. Parece que o raciocínio faz sentido, mas existe uma falácia.
Vamos a um segundo caso:
O desempenho da empresa tem sido bastante bom, porque a margem líquida aumentou 100%. Ou, as operações têm funcionado muito melhor, porque os tempos de espera diminuíram consideravelmente. Ou, a satisfação dos colaboradores aumentou significativamente porque os valores dos inquéritos internos estão agora nos 95%. Faz sentido, certo? Errado. Em qualquer uma das frases anteriores, estamos a trocar a causa pelo efeito previsto e, neste caso, a usar indevidamente a palavra ‘porque’!
Houve aqui algum truque que tenhamos feito para não ter respondido corretamente a ambas as questões? Não. Então, como poderemos tomar boas decisões, em casos muito mais complexos aos aqui apresentados, se as pessoas não aprenderem a pensar em termos causais e holísticos?! Este não é um problema menor porque, não só ele não é reconhecido (e sem o reconhecermos jamais o resolveremos) como o que muitas vezes se faz é trabalhar nos sintomas. ‘Existe um mau ambiente de trabalho? Vamos fazer um offsite para nos conhecermos melhor, ou vamos ser mais simpáticos e tolerantes’, ou ‘vamos colocar as pessoas num curso de liderança e dizer-lhes para passarem a dar o feedback em sanduiche’. Na verdade os resultados que daqui saem são muito marginais. Não admira que os gestores de topo, ainda que reconhecendo a importância do problema, jamais se arriscarão a calcular o ROI destas formações ou iniciativas. Eles sabem que se o calculassem a priori acabariam sempre por rejeitar qualquer treino deste tipo, por não verem qualquer retorno. Não admira pois, que tudo isto seja interpretado como um gasto, em vez de um investimento! Se quisermos ser sérios, precisamos endereçar a causa raiz das equipas não estarem no seu potencial e de não haver formas visíveis e palpáveis que mostram se estamos efetivamente a melhorar. Qual é então a causa raiz? Os fracos modelos mentais que a maioria usa e que minam a qualidade do pensamento e das decisões. Daí que, quando alguém adota algum modelo mental mais evoluído terá a tendência para chamar o outro de ‘não muito inteligente’, pois para si é tudo tão óbvio e ao mesmo tempo tão exasperante. É aqui que precisamos atuar, nos modelos mentais, se quisermos aumentar o alinhamento e a mobilização das pessoas em prol da empresa. Só depois de trabalharmos o pensamento é que aparecerão, com naturalidade, os benefícios que todos querem, seja:
- O aumento do espírito de equipa
- A libertação das chefias dos fogos diários
- A comunicação eficaz das ideias
- Uma maior autonomia das pessoas
- A resolução eficaz dos problemas
- A promoção da harmonia no local de trabalho
- A redução do stresse
- O respeito e a valorização dos outros
É perfeitamente possível chegar a estes benefícios através de ferramentas de lógica e modelos mentais potentes que ajudam as pessoas a pensar de forma mais clara, eficaz e simples.
Termino com um alerta: qualquer iniciativa que esteja a desenvolver ao dia de hoje, sem primeiro endereçar o modo como as pessoas pensam é, no mínimo, uma iniciativa arriscada porque o pensamento é a base de tudo. Logo, será algo pouco sustentável. Sob a forma de ditado popular, é possível que esteja a endereçar os problemas da sua empresa, na mesma proporção de quando se tenta ‘tapar o Sol com a peneira’. Algo por certo ingrato e com pouco significado. Por isso pergunto: preferirá continuar a tirar prazer das suas queixas, ou vai fazer alguma coisa a respeito?














