Por Eugénia Nogueira, directora de Recursos Humanos e Operações, Solfarcos
A transferência de conhecimento entre universidades e empresas é hoje um dos pilares fundamentais para transformar investigação científica em valor económico e social. Países e regiões que conseguem criar pontes eficazes entre estes dois mundos tendem a gerar mais inovação, mais competitividade industrial e um maior impacto da ciência na vida das pessoas.
No entanto, para que esta ligação seja verdadeiramente bem-sucedida, é necessário criar condições estruturais que permitam alinhar interesses, proteger a propriedade intelectual e promover modelos de colaboração sustentáveis e mutuamente benéficos.
Spin-offs: transformar conhecimento em impacto
Uma das formas mais eficazes de concretizar esta transferência de conhecimento é através da criação de spin-offs. Estas empresas surgem frequentemente a partir de resultados de investigação desenvolvidos nas universidades e permitem transformar descobertas científicas em produtos, serviços ou tecnologias com aplicação no mercado. As spin-offs têm a vantagem de manter uma forte ligação ao meio científico, enquanto operam com a agilidade e o foco característicos do sector empresarial. Quando bem estruturadas, estas iniciativas permitem que o conhecimento académico ultrapasse as paredes da universidade e gere impacto real na sociedade.
A protecção da propriedade industrial é um elemento central em qualquer processo de transferência de tecnologia. Dependendo da natureza da inovação, esta protecção pode assumir diferentes formas, como patentes, modelos de utilidade, desenhos ou modelos industriais, segredo comercial ou marcas registadas. A escolha do mecanismo adequado é determinante para assegurar que o conhecimento gerado pode ser valorizado e explorado de forma sustentável.
Neste contexto, os contratos de licença exclusiva de exploração de patentes assumem um papel particularmente relevante. Estes instrumentos jurídicos permitem que empresas, muitas vezes as próprias spin-offs criadas para explorar determinada tecnologia, tenham segurança para investir no seu desenvolvimento e valorização comercial. O risco associado ao investimento torna-se demasiado elevado sem um enquadramento claro de licenciamento e de exploração de propriedade intelectual. O processo de licenciamento de propriedade intelectual deverá, assim, alavancar o potencial de negócio e de valorização de uma spin-off.
Estruturas de colaboração universidades-empresas
Um papel igualmente decisivo é desempenhado pelas estruturas universitárias dedicadas à transferência de conhecimento e valorização da propriedade intelectual, que funcionam como intermediárias entre o meio académico e o tecido empresarial. Estas estruturas, presentes na generalidade das universidades, como a TecMinho, a UPTEC, a UACOOPERA ou a NOVA.ID.FCT, apoiam a protecção de resultados de investigação, facilitam processos de licenciamento, promovem a criação de spin-offs e de planos de negócios, e asseguram que existem modelos contratuais equilibrados e eficazes. Quando devidamente capacitadas e alinhadas com uma estratégia institucional clara, desempenham um papel fundamental na aproximação entre ciência e mercado.
Outra dimensão essencial passa pelos acordos de cooperação estruturados entre universidades e empresas, que permitam desenvolver projectos de investigação conjuntos e promover a circulação de conhecimento e talento. Entre os modelos mais relevantes destaca-se o doutoramento realizado em ambiente não académico ou em colaboração com empresas, apoiado nomeadamente através das bolsas da agora extinta Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), especificamente orientadas para este tipo de enquadramento. Estes programas representam uma oportunidade extraordinária para desenvolver conhecimento científico alinhado com as necessidades reais do tecido empresarial.
O equilíbrio entre publicar e proteger
Contudo, para que estes modelos funcionem de forma equilibrada, é fundamental salvaguardar os interesses de todas as partes envolvidas, em particular das empresas que financiam estes projectos e suportam uma parte significativa dos custos de investigação. A propriedade intelectual gerada nestes projectos deve ser também adequadamente protegida, assegurando que o investimento realizado não compromete a autonomia estratégica das empresas nem a possibilidade de exploração futura dos resultados obtidos.
É precisamente nesta situação que surge um dos principais desafios que impede a conclusão dos doutoramentos dentro do prazo previsto: o equilíbrio entre divulgação científica e protecção de conhecimento estratégico. A obtenção do grau académico exige frequentemente a publicação de artigos científicos revistos por pares (peer-reviewed publications), o que pode entrar em conflito com a necessidade de salvaguardar propriedade intelectual. A ausência deste equilíbrio pode comprometer não só projectos individuais, mas também a confiança global entre academia e indústria. Quando tal acontece, perde-se uma oportunidade de cooperação e inovação. A própria sociedade acaba por ser prejudicada pela falta de capacidade de transformar conhecimento científico em soluções concretas para desafios económicos, tecnológicos e sociais.
Do arranque ao crescimento
Para que as spin-offs e start-ups de base científica evoluam para empresas sólidas e sustentáveis, é igualmente importante reforçar programas de apoio ao seu crescimento e consolidação. Muitas nascem com uma forte base tecnológica, mas enfrentam desafios significativos na transição da fase inicial de desenvolvimento para a fase de expansão e industrialização. Instrumentos de financiamento adequados, programas de aceleração e políticas públicas orientadas para a inovação podem fazer a diferença neste percurso.
Promover uma transferência eficaz entre universidade e empresa exige, portanto, uma visão integrada: incentivar a criação de spin-offs, garantir mecanismos robustos de licenciamento de propriedade intelectual, promover programas de doutoramento em colaboração com empresas e criar políticas de apoio ao crescimento, mais do que à criação, de start-ups tecnológicas. Quando estas peças funcionam em conjunto, cria-se um ecossistema de inovação capaz de transformar conhecimento em progresso económico e social.
No final, o verdadeiro objectivo desta ligação entre ciência e indústria é simples: garantir que o conhecimento produzido nas universidades não permanece apenas num potencial publicado nos artigos científicos ou nas teses académicas, mas se traduz em inovação, competitividade e melhoria da qualidade de vida da sociedade.














