O que está a mais no preço anunciado, ou a menos, chama-se condição comercial. Os comercializadores praticam descontos associados a comportamentos que lhes reduzem custo administrativo ou risco de cobrança, e os mais frequentes são três: adesão ao débito directo, adesão à factura electrónica com dispensa de envio em papel, e contratação em regime dual, com electricidade e gás natural no mesmo fornecedor. Isoladamente, cada um destes descontos costuma valer pouco. Acumulados, e conjugados com campanhas de angariação de novos clientes, podem ultrapassar 20% do valor da energia em determinados tarifários.
Há três coisas que convém verificar antes de assumir que o desconto é uma vantagem líquida. A primeira é a duração. Muitas condições promocionais têm prazo definido, tipicamente doze meses, ao fim do qual o preço regressa ao valor de tabela sem que haja qualquer comunicação a assinalar a mudança. É a origem mais comum daquele salto inexplicável na factura ao fim de um ano. A segunda é a fidelização associada. Um desconto sustentado por um período mínimo de permanência tem uma penalização de saída, e essa penalização deve ser comparada com a poupança que se obteria mudando para outra oferta a meio do contrato. A terceira é a base de cálculo: um desconto de 20% pode incidir apenas sobre o termo de energia e não sobre o termo de potência, e nesse caso o efeito real no total da factura é bastante menor do que o número sugere.
Existe ainda uma componente que nenhum desconto comercial afecta e que representa uma fatia significativa do que se paga. As tarifas de acesso às redes, os impostos e as taxas aplicáveis são fixados por via regulatória e são iguais em todos os comercializadores. Isto tem uma consequência prática que muda a forma de comparar: quando um fornecedor anuncia uma redução percentual sobre a factura total, esse desconto está diluído por uma parte que ele não controla. Quando anuncia uma redução sobre o preço da energia, o efeito é real mas aplica-se a uma base menor. Perceber a estrutura da factura da luz é o que permite ler estas duas promessas com a mesma régua.
Para quem quiser fazer a verificação com rigor, o método é simples e leva menos de dez minutos. Retirar da última factura o consumo em kWh e a potência contratada, pedir a simulação com esses valores exactos em vez de estimativas, exigir o custo mensal total previsto e não apenas o preço unitário, e confirmar por escrito a duração das condições promocionais e a existência ou não de período de fidelização. É este último passo que quase ninguém dá e é o que separa uma poupança que dura de uma poupança que expira sem aviso.
Um último ponto, para quem gere orçamento familiar e trata a factura de energia como uma despesa fixa. Não é uma despesa fixa. É uma despesa contratada, revista quando o titular decide revê-la, e neste momento com uma dispersão de preços entre fornecedores que raramente foi tão grande. A diferença entre a melhor e a pior oferta para o mesmo consumo é hoje maior do que aquilo que a maioria das famílias consegue poupar cortando no consumo durante um ano inteiro.
















