Por José Araújo, contabilista certificado n.º 5
Anualmente, largas dezenas de jovens concluem as suas licenciaturas e mestrados na área da contabilidade e finanças, com o plano de se apresentarem junto da Ordem dos Contabilistas Certificados. O objectivo é simples, serem membro activos da comunidade de contabilistas certificados a exercer as suas funções em território nacional. Porém, da teoria à prática o percurso é muito mais sinuoso, com aspectos de cariz burocrático a lembrar uma qualquer distopia kafkiana.
Desde logo, urge perceber porque se deve exigir a um jovem um exame sobre matérias já avaliadas no percurso académico para entrar na profissão. Faz sentido que, depois do esforço académico, e de cumpridas as etapas necessárias para o efeito, seja erigida mais uma barreira?
Assumo, desde já, a minha discordância em relação a este tipo de barreira. O exame de acesso deve ser estabelecido por etapas e avaliar conhecimentos apenas sobre matérias que não tenham sido ministradas em ambiente académico. Os cursos não são todos iguais. Desde logo, fruto da sua inadequação, com questões que, por norma, remetem para pequenas artimanhas linguísticas, totalmente desfasados e afastados da prática empresarial. E não faz qualquer sentido que se coloquem questões direccionadas para a certas temáticas, quando a maioria das empresas, micro ou pequenas, nunca a irá implementar, e sem considerar outro tipo de organizações.
Por fim, e perante uma profissão, na qual o contabilista certificado precisa de tempo, concentração, capacidade analítica, conhecimento e pesquisa do manancial legislativo que se coloca, nenhum exame consegue, em absoluto, atestar a sua real capacidade e competência para a execução das tarefas que lhe serão exigidas; apenas reflecte se o candidato a profissional foi mais ou menos afectado por um determinado estado de espírito, naturalmente, de muita pressão.
A alternativa ao actual exame de acesso
Parece, desde logo, evidente que quaisquer dinâmicas devem levar em consideração os diferentes percursos académicos dos candidatos, bem como as idiossincrasias de cada licenciatura ou mestrado com valências para o acesso à profissão. É também importante que os novos profissionais estejam cientes do conjunto de exigências que se levantam, de acordo com o tipo de empresas nas quais pretendam exercer funções, com especial atenção, por exemplo, ao volume de negócios e dimensão.
Os estágios e a experiência profissional dos candidatos devem ser factores a considerar no acesso, no sentido de diferenciar quem já tem conhecimento prático de quem não tem. É fundamental que os contabilistas certificados tenham verdadeiras formações e actualizações, ministradas por formadores devidamente preparados, e sejam supervisionados, nos seus efeitos, pela própria Ordem dos Contabilistas Certificados. A disponibilização de cursos de especialização para quem pretende aprofundar conhecimentos em determinados ramos da Contabilidade, como a Pública, Agrícola, Setor Social, Cooperativo, etc., traz muitos mais ganhos e garantias quanto ao desenvolvimento de um setor profissional competente, conhecedor e que assegure um papel de parceria junto do tecido empresarial, da economia social e do sector público.
É muito importante estruturar elementos de apoio, sobretudo numa fase de integração na profissão, numa fase “júnior” do exercício, como guias de boa práticas e normas de atuação profissional, que auxiliem, orientem e protejam a uma prestação valorizada e mais bem remunerada, auxiliados por profissionais mais experientes, “séniores”.














