COVID-19: Pandemia eliminou mais de 174 mil empregos entre os que auferiam salários mais baixos

Human Resources
26 de Maio 2021 | 12:30

A pandemia tornou mais evidentes as disparidades no mercado laboral. Para os profissionais mais qualificados e com melhores salários, a crise sanitária não travou a criação de 87 mil novos postos de trabalho. Já entre os trabalhadores com salários mais baixos, persistem os efeitos de uma forte destruição de emprego, com muitas dezenas de milhares de postos de trabalho por recuperar.

A constatação é feita pelo Diário de Notícias, a partir dos dados de gestão de remunerações que a Segurança Social começou a publicar neste mês.

De acordo com a publicação, os números de Março, publicados na última semana, mostram que entre quem recebe até 800 euros o nível de emprego manteve-se 7,6% abaixo do período pré-pandemia. Naquele que foi o mês inicial de desconfinamento, 174.503 postos de trabalho permaneciam perdidos, comparando com Fevereiro de 2020.

Já entre escalões salariais acima, não se registam perdas, só crescimento. O emprego entre quem aufere acima de 800 euros sobe 6,1%, mesmo sob o efeito dos meses da pandemia. Em Março, havia mais 87.118 postos de trabalho com remunerações declaradas à Segurança Social. Destes, 85% pagavam entre 800 e dois mil euros.

A publicação revela ainda que considerando os dados globais de emprego, estes traduzem uma redução mais contida. Há hoje menos 82.152 pessoas com emprego do que no mês anterior à chegada da pandemia. São menos 2%, em termos líquidos, nos dados da Segurança Social.

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Mas este número não reflecte o efeito de recomposição no emprego, com perdedores e ganhadores da pandemia, na qual a contratação em salários mais altos permite ainda que o volume global de salários pagos no país se mantenha a crescer, em 2%.

«A queda do emprego por classes de rendimento na prática está a refletir os sectores das profissões», assinala João Cerejeira em declarações ao Diário de Notícias. Assim, e tal como têm vindo a apontar dados do INE e do Instituto de Emprego e Formação Profissional, «os sectores que estiveram fechados pelas medidas de confinamento e que são os setores com os mais baixos salários – a restauração, algum comércio a retalho também – são os setores que perderam emprego».

Já os sectores que «ganharam emprego são aqueles onde a pandemia mais requisitou profissionais. São a área das tecnologias da informação e comunicação e a área da saúde, que acaba por ser uma área de remuneração pelo menos acima desses 800 euros, e que emprega uma grande percentagem de profissionais licenciados e mais qualificados», refere o economista.

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Se, no primeiro caso, a reacção das políticas públicas à pandemia trouxe medidas de apoio à manutenção do emprego, como o lay-off simplificado, no segundo a protecção do emprego gozou de um efeito adicional da generalização do teletrabalho nos sectores mais facilmente convertíveis a este regime de prestação de trabalho. «Estamos a falar de quadros dirigentes, de técnicos muito especializados, cujas tarefas podem ser realizadas à distância. Tendem a ser profissões mais bem remuneradas».

Segundo a publicação, a dinâmica de criação de emprego nos sectores com salários mais elevados já vinha de trás, nalguns casos sendo reforçada pela crise sanitária. Por exemplo, no sector da saúde, «já se vinha a verificar há alguns anos uma expansão muito grande dos serviços no setor privado», com o crescimento do emprego a ser beneficiado ainda pela necessidade de recrutar mais para o sector público devido à crise de saúde pública.

A existência de dois mercados de trabalho divergentes, reflete João Cerejeira, é também «uma tendência que se acentuou na última década, com um peso cada vez maior dos sectores intensivos de conhecimento e das indústrias de tecnologia média ou média-alta no emprego».

A novidade está mais, agora, no que acontece no campo oposto: o do trabalho menos qualificado, e mais mal pago. «Desde a última crise financeira de 2011 até 2019, o emprego tinha crescido muito nos setores na base salarial, em virtude da expansão dos serviços. Agora, vimos uma contração», conclui o economista em declarações ao Jornal de Notícias.

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