Segundo a Veja, o empresário afirma que a corrida à IA está a ser impulsionada sobretudo pelo potencial financeiro da tecnologia, levando muitas empresas a acelerar a inovação apesar dos riscos envolvidos. Segundo Gates, vários executivos do sector reconhecem essas preocupações em privado, mas evitam manifestá-las publicamente por receio de afectar os seus negócios ou a capacidade de atrair investimento.
Mercado de trabalho pode enfrentar uma transformação sem precedentes
Aos 70 anos, Gates considera que os efeitos da actual vaga de automação poderão ser significativamente diferentes dos observados noutras revoluções tecnológicas. Historicamente, os avanços tecnológicos eliminaram determinadas funções, mas acabaram também por criar novas oportunidades de emprego que absorveram parte dos trabalhadores deslocados.
Desta vez, alerta, o cenário poderá ser diferente. A IA tem capacidade para ser implementada em simultâneo em múltiplos sectores da economia, reduzindo as possibilidades de transição profissional para os trabalhadores afectados. A seu ver, esta característica distingue a IA de todas as transformações tecnológicas anteriores.
Imposto sobre IA para travar a substituição de pessoas
Entre as medidas defendidas pelo empresário encontra-se a criação de um imposto associado à utilização de sistemas de IA. A proposta passaria por taxar os chamados “tokens”, as unidades de processamento utilizadas pelos modelos de IA.
O objectivo seria aumentar os custos da substituição de trabalhadores por tecnologia e utilizar as receitas geradas para apoiar profissionais impactados pela automação. Para Gates, é essencial encontrar mecanismos que permitam distribuir de forma mais equilibrada os benefícios económicos gerados pela inteligência artificial.
Algumas funções devem continuar a ser exclusivamente humanas
Outra das propostas apresentadas passa pela criação de categorias profissionais protegidas da automação. Gates sugere a definição de actividades “reservadas a humanos”, particularmente em profissões onde a relação interpessoal e a componente emocional assumem um papel central.
Os cuidadores são apontados como um dos exemplos. Na sua perspectiva, existem ocupações em que a substituição por sistemas automatizados poderá ter consequências sociais significativas, especialmente quando os profissionais afectados encontram poucas alternativas de reintegração noutros sectores.
Segurança e regulação entram na agenda
As preocupações de Gates vão além do mercado de trabalho. O empresário defende acordos internacionais que estabeleçam mecanismos obrigatórios de monitorização e controlo dos sistemas mais avançados de IA.
Em particular, alerta para o potencial da tecnologia na facilitação do desenvolvimento de agentes biológicos perigosos, defendendo avaliações obrigatórias para modelos que possam contribuir para a criação de moléculas com riscos elevados para a segurança global.
Gates critica ainda a dependência de compromissos voluntários assumidos pelas empresas tecnológicas e considera que os riscos actuais justificam uma regulação obrigatória por parte dos governos.
Uma mudança de discurso
A posição representa uma evolução relevante no discurso de uma das figuras mais influentes do sector tecnológico. Apesar de continuar a acreditar no potencial transformador da IA, Gates admite estar impressionado com a velocidade dos avanços recentes, incluindo em áreas como a programação informática.
Segundo o próprio, algumas ferramentas actuais já demonstram capacidades superiores às suas numa área que considera dominar particularmente bem. Ainda assim, não defende a interrupção do desenvolvimento tecnológico, mas sim a criação de mecanismos que mitiguem os seus impactos negativos e permitam uma adaptação mais equilibrada da sociedade.
















