Diversidade e inclusão na Pérez-Llorca: «Para muita gente, o trabalho continua a ser o último armário», diz Adolfo Mesquita Nunes

Tânia Reis
30 de Junho 2025 | 12:20

No mês em que se celebra o orgulho LGBTI, a Human Resources conversou em exclusivo com Eva Delgado, directora de Recursos Humanos da Pérez-Llorca, e Adolfo Mesquita Nunes, advogado sócio, sobre como o tema é trabalhado na sociedade de advogados, o que tem mudado no sector jurídico e o que ainda falta percorrer para alcançar o pleno respeito e dignidade.

 

Já tem mais de 40 anos de história (foi criada em Espanha em 1982), mas só chegou a Portugal em 2023. Actualmente, a Pérez-Llorca tem escritórios em Barcelona, Bruxelas, Cidade do México, Lisboa, Londres, Madrid, Monterrey, Nova Iorque e Singapura, contando com mais de 800 profissionais, de entre os quais cerca de 500 advogados.

A missão de «contribuir para o sucesso empresarial dos clientes», assente na qualidade do serviço jurídico e no «respeito pelos princípios éticos e deontológicos», Na base da forma como operam está o respeito, não só pelos princípios éticos e deontológicos para com os clientes e nos serviços jurídicos prestados, mas também internamente, na gestão das suas Pessoas.

Tal acontece através da implementação de um Plano de Igualdade «com objectivos claros e mensuráveis, bem como de políticas de recrutamento e promoção baseadas exclusivamente no mérito», conta Eva Delgado, directora de Recursos Humanos da sociedade de advogados. Trimestralmente, o Comité de Diversidade e Inclusão reúne para avaliar os progressos e propor novas acções. «Todas as nossas ofertas de emprego incluem uma cláusula de igualdade de oportunidades», realça, e garante que o feedback tanto de candidatos como das equipas internas tem sido muito positivo. «É particularmente gratificante perceber que este é um tema em que a direcção e as equipas estão alinhadas, o que reflecte uma cultura de respeito profundamente enraizada na Pérez-Llorca.»

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Na empresa, a diversidade LGBTI é uma prioridade, por isso desenvolveram um código específico para a prevenção e actuação em casos de assédio ou violência contra pessoas LGBTI, «aplicável não só aos profissionais, mas também a clientes, fornecedores e colaboradores externos», explica.

Durante o ano organizam ainda acções de sensibilização e formação em colaboração com a REDI (Rede Empresarial pela Diversidade e Inclusão LGBTI), associação sem fins lucrativos que reúne empresas comprometidas com a promoção de ambientes de trabalho inclusivos para pessoas LGBTI e oferece apoio técnico, formação e partilha de boas práticas entre empresas. «Somos associados desta rede em Madrid e Barcelona e estamos agora no processo de integração na recém-criada REDI em Portugal.»

Eva Delgado trabalha diariamente com equipas de escritórios em Madrid, Londres, Nova Iorque, Lisboa, entre outros e assegura que as diferentes realidades e culturas de cada país são valorizadas, «com o respeito e o espaço para a liberdade individual, elementos constantes da cultura Pérez-Llorca que ultrapassam as fronteiras».

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Para a directora de Recursos Humanos, «a inclusão não é apenas um princípio, é uma prática diária». Disponibilizam formação contínua em diversidade e inclusão a toda a equipa, promovendo o respeito mútuo e a sensibilização. Mantêm igualmente canais confidenciais para as denúncias de discriminação, geridos por “Assessores Confidenciais”, e divulgam regularmente os protocolos e códigos de conduta através da intranet e da comunicação interna. «A resposta dos colaboradores tem sido muito positiva, o que nos confirma que estamos no caminho certo. A inclusão efectiva constrói-se com coerência, escuta activa e compromisso real.»

Construir um ambiente verdadeiramente inclusivo traz desafios internos, reconhece, assim o foco tem sido antecipá-los. «Lançámos a rede de aliados LGBTI da Pérez Llorca, aberta a todos os profissionais, que actua como um motor de mudança e canal de propostas.» E não ficaram por aqui, reforçaram a formação das lideranças e promovem a representatividade de vozes LGBTI nas plataformas internas. «Tem sido muito agradável perceber que, apesar das diferenças culturais entre os países onde operamos, existe uma base comum de respeito que nos permite avançar juntos.»

 

O caminho faz-se caminhando e muito já mudou. Olhando em retrospectiva para a evolução da diversidade no sector jurídico português, Adolfo Mesquita Nunes, advogado sócio da Pérez-Llorca, assegura que «não há comparação possível entre a diversidade que se encontra hoje na advocacia portuguesa e aquela que existia há 25 anos», quando começou.

Mudou-se no género, nos percursos, na presença de diferentes origens sociais e até na forma de encarar a profissão, recorda. «Mas há um fenómeno mais recente, pouco falado», que merece atenção: o paradoxo que começa a formar-se num mercado «cada vez mais competitivo, com exigências cada vez mais sofisticadas, como fluência em várias línguas, experiência internacional, graus académicos acumulados e especializações de nicho», refere, explicando que quanto mais elevada é a fasquia curricular, mais estreito tende a ser o funil de acesso. «Não por falta de talento, mas porque nem todos partem do mesmo ponto», sejam «percursos brilhantes que não incluem um estágio em Londres ou um mestrado em Nova Iorque» ou «experiências de vida que podem enriquecer o exercício do Direito tanto quanto uma linha impecável de diplomas». E crê que a falta de consciência crítica deste fenómeno, poderá levar ao risco de, «em nome da excelência, perder precisamente a pluralidade de experiências e olhares que torna uma profissão mais viva, mais criativa e mais justa».

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Até porque, para o advogado sócio, a diversidade não é um princípio abstracto. «É a vida tal como ela é. Basta olhar à nossa volta. A sociedade é diversa. As empresas são diversas. Os clientes são diversos. Ter um sector jurídico que não reflectisse isso é que seria estranho.» Ao longo dos anos, tem visto como equipas onde convivem diferentes percursos, idades, géneros e visões de mundo são mais ricas nas discussões, mais criativas nas soluções e mais próximas das reais necessidades dos clientes.

«Não se trata de um argumento moral. Trata-se de uma questão de qualidade», defende Adolfo Mesquita Nunes, acrescentando que, quando todos partem da mesma experiência e olham o mundo do mesmo ângulo, «o pensamento tende a fechar-se». Pelo contrário, quando há diversidade, «há mais perguntas, mais dúvidas, mais ideias». E isso traduz-se em melhores respostas. «Num mundo cada vez mais complexo, nenhuma profissão pode dar-se ao luxo de prescindir dessa riqueza de perspectivas.»

Contudo, reconhece que, no tema da diversidade LGBTI, «o trabalho continua a ser, para muita gente, o último armário» e o sector jurídico não é diferente. «Ainda há quem tema que clientes, colegas ou até sócios não aceitem bem, ou que aceitem, mas prefiram que não se fale, porque haverá sempre quem não aceite.»

E está convicto de que o caminho só se fará com a adesão a um princípio simples, mas essencial: qualquer pessoa, pelo simples facto de o ser, merece todo o respeito e toda a dignidade que há no mundo. «Este é um princípio fundador da nossa convivência. Não se aplica apenas à questão LGBTI», mas a qualquer traço identitário, a qualquer diferença. «Numa profissão que vive do Direito e da Justiça, não pode ser um detalhe ou uma nota lateral» , salienta, «tem de estar no centro da cultura das organizações», para que cada um possa ser quem é, sem receio, e com a certeza de que será tratado com respeito.

Na sua experiência pessoal, partilha que a possibilidade de não ter de esconder a sua orientação sexual foi, desde sempre, algo que o tornou «mais inteiro» no exercício da profissão. «É extraordinário o que muda, em subtileza e em profundidade, quando se deixa de gastar energia a gerir silêncios.» E acredita que «quando todos, qualquer que seja o seu traço identitário, têm essa liberdade, o trabalho das equipas transforma-se. Ganha-se em autenticidade, em confiança mútua e, por consequência, em qualidade».

Convicto de que as boas ideias surgem mais facilmente onde as pessoas se sentem à vontade para pensar alto, para discordar, para propor o inesperado, isso só acontece em ambientes onde não se tem de medir cada palavra. «É claro que equipas diversas pedem mais esforço, mais escuta, mais atenção ao outro», mas é um esforço que enriquece a todos, remata. «Ao longo da minha experiência, não tenho dúvidas: os contextos mais diversos são também os mais intelectualmente estimulantes, mais abertos à inovação e, acima de tudo, mais humanos.»

A seu ver cada profissional, independentemente do seu cargo ou senioridade, tem um papel na promoção de um ambiente verdadeiramente inclusivo e «tudo parte de uma ideia simples». «Cada pessoa, só por ser pessoa, tem a mesma liberdade e dignidade do que eu.» Quando se vive esse princípio — não apenas se diz, mas se vive — o resto acontece, assegura. «As barreiras caem, os gestos tornam-se naturais, os silêncios deixam de pesar. É assim que se faz um ambiente onde todos podem chegar inteiros», conclui.

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