Dos EUA a Singapura: como mudou o mapa dos passaportes mais poderosos em 20 anos

Para assinalar o 20.º aniversário do Henley Passport Index, a Henley & Partners realizou um estudo que combina 20 anos de dados do ranking com duas décadas de dados do Global Peace Index, revelando como a paz, a diplomacia e as mudanças geopolíticas têm moldado a mobilidade global desde 2006.

Human Resources
25 de Julho 2026 | 21:00
Dos EUA a Singapura: como mudou o mapa dos passaportes mais poderosos em 20 anos

A 20.ª edição do Henley Passport Index mostra que o passaporte médio oferece agora acesso sem visto a 108 destinos, quase o dobro dos 58 destinos registados em 2006, ano em que foi lançado o primeiro ranking. Este aumento significativo da mobilidade internacional contrasta com o mais recente Índice Global da Paz, que indica o pior cenário de paz global desde a Segunda Guerra Mundial, com o mundo a registar o maior número de conflitos entre Estados em 12 anos consecutivos de declínio da paz.

Escolha a Human Resources como fonte preferida no Google Escolher ›

Singapura lidera, Emirados Árabes Unidos sobem posições

O Índice de Passaportes Henley de Julho de 2026 — baseado em dados exclusivos da Timatic, da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) — conclui que Singapura mantém a liderança como o passaporte mais poderoso, permitindo a entrada sem visto ou com visto à chegada em 192 destinos. Os Emirados Árabes Unidos destacam-se como o país com maior subida, avançando para a 2.ª posição ao lado do Japão e da Coreia do Sul, com acesso a 188 destinos. O Reino Unido e o Canadá também melhoraram posições, subindo para 6.º e 7.º lugares respectivamente, enquanto os Estados Unidos mantêm o 10.º lugar, apesar de ainda exigir visto para a China.

«Vinte anos de dados mostram que o poder do passaporte é uma das expressões mais claras do capital geopolítico de um país. Reflecte muito mais do que apenas paz ou prosperidade. Os passaportes mais fortes do mundo pertencem a nações que outros países desejam como parceiros — para comércio, investimento, segurança ou cooperação. A mobilidade é, em última análise, uma medida do valor que outros países atribuem à sua relação consigo», destaca Christian H. Kaelin, presidente da Henley & Partners e criador do Henley Passport Index

Continue a ler após a publicidade

Disparidades crescentes na mobilidade global

Apesar da expansão da liberdade de viagem, o fosso entre os passaportes mais e menos poderosos aumentou significativamente. Em 2006, o Afeganistão tinha acesso a apenas 12 destinos, enquanto os EUA, Dinamarca e Finlândia ofereciam acesso a 130 destinos. Actualmente, o Afeganistão continua no último lugar, com acesso a 22 destinos, enquanto Singapura lidera com 192 destinos, criando um recorde de disparidade de 170 destinos.

Notavelmente, a Bolívia é o único país que perdeu acesso sem visto nos últimos 20 anos, reduzindo a sua pontuação em seis destinos.

Alterações no equilíbrio do poder geopolítico

Continue a ler após a publicidade

Os Estados Unidos, que lideravam o índice em 2006, caíram para o 10.º lugar, enquanto o Reino Unido subiu para o 6.º lugar. A Ásia assume maior protagonismo, com Singapura a subir do 8.º para o 1.º lugar, e o Japão e a Coreia do Sul a partilharem o 2.º lugar com os Emirados Árabes Unidos.

A Europa mantém uma presença forte no topo, mas o número de passaportes no Top 10 aumentou de 26 para 38, indicando uma competição mais intensa e uma maior dispersão do poder de mobilidade global.

Relação entre paz e poder do passaporte

Uma análise comparativa entre o Henley Passport Index e o Índice Global da Paz revela uma correlação positiva significativa entre a paz e a força dos passaportes. Países pacíficos como Singapura, Japão, Suíça, Irlanda, Áustria, Portugal, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Canadá, República Checa e Malásia apresentam passaportes fortes e elevados níveis de paz.

Continue a ler após a publicidade

Por outro lado, países com conflitos graves, como Afeganistão, Síria e Iémen, têm os passaportes mais fracos, evidenciando o impacto da instabilidade na mobilidade internacional.

Excepções que revelam o peso da diplomacia

Alguns países apresentam passaportes fortes apesar de rankings baixos de paz, como Israel, Estados Unidos, França, Ucrânia, Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul, Brasil, México e Rússia. Estes casos demonstram que, além da paz, a diplomacia, influência geopolítica, força económica e integração regional são determinantes para a mobilidade global.

Estados Unidos e Israel são exemplos notórios: apesar de estarem entre os países menos pacíficos, mantêm passaportes poderosos devido ao capital diplomático acumulado e à confiança internacional nas suas instituições.

Continue a ler após a publicidade

Mobilidade e integração regional

França destaca-se na Europa, combinando um ranking baixo de paz com um passaporte forte, beneficiando da adesão ao Espaço Schengen e da integração europeia. A Ucrânia, apesar do conflito com a Rússia, mantém um passaporte relativamente forte graças aos acordos de mobilidade com a União Europeia, mostrando que a mobilidade pode persistir mesmo em contextos de instabilidade prolongada.

Desafios para o hemisfério sul

Nos países do hemisfério sul, a paz é condição necessária para maior mobilidade, mas esta continua limitada pela menor influência diplomática e por acordos de isenção de vistos restritos. O sistema global de vistos favorece predominantemente os Estados mais ricos e influentes, levantando questões sobre justiça e equidade na mobilidade internacional.

Mehari Taddele Maru, do Instituto Universitário Europeu e da Universidade Johns Hopkins, destaca que as políticas de vistos actuais podem reforçar enviesamentos contra viajantes africanos, sublinhando a necessidade de reformas para uma mobilidade global mais justa.

Partilhar


Mais Notícias