Eduarda Pinto: «O nosso ecossistema de negócios gera experiências transformadoras para as pessoas»

A Lionesa reúne cerca de 120 empresas e mais de 5 mil colaboradores. É o maior e o mais dinâmico centro de negócios dedicado à indústria 4.0 em Portugal, que, nos últimos anos, atraiu «grande quantidade e qualidade de investimento estrangeiro para o Porto». Em entrevista exclusiva à Human Resources, a directora executiva Eduarda Pinto partilha não só como estão a adaptar-se à realidade actual mas também os projectos de desenvolvimento que tinham em curso, e que não vão parar.

Por Sandra M. Pinto

 

A Lionesa tem em curso a execução de um masterplan, que assenta em construir a “caixa” do edifício, permitindo ao cliente customizar todo o interior, construindo um espaço à sua medida e que é a “sua cara”. Este centro de negócios transforma a «vida quotidiana num ecossistema de negócios, com uma visão global, onde o espaço de trabalho é integrado ao estilo de vida da comunidade».

Eduardo Pinto fala dos planos de crescimento mas também de como reagiram à crise pandémica. E, apesar o teletrabalho não ser novidade na Lionesa – ou não tivessem mais de 50% das empresas da área das tecnologias -, a verdade é que perceberam junto das mesmas que não é essa de todo a solução que querem seguir. «Precisamos do trabalho de equipa para captar e reter o talento.»

 

Nascida em 1944, a qual é hoje a missão e filosofia da Lionesa?

A Lionesa é o maior e mais dinâmico centro de negócios dedicado à indústria 4.0 em Portugal. Com mais de 100 empresas, é um agente de inovação e aceleração de empresas e talentos à escala global. Foca-se na criação de espaços de trabalho personalizados para responder às necessidades de cada cliente e na criação de um ecossistema que facilita a vida das 5 mil pessoas que passam os seus dias na Lionesa.

Neste centro de negócios, que se encontra aberto 24 horas sete dias por semana, com segurança permanente, é possível encontrar uma variedade de serviços, como restaurantes, padaria, farmácia, cabeleireiro, correios, sala de conferências, estacionamento, spa automóvel, ATM, entre muitos outros.

Paralelamente ao nosso core business, assumimos no nosso ADN um forte compromisso com a cultura. Arte e criatividade são, portanto, parte integrante da experiência da Lionesa, pois acreditamos que a inovação é estimulada pela criatividade.

Transformamos a vida quotidiana num ecossistema de negócios com uma visão global, onde o espaço de trabalho é integrado ao estilo de vida da comunidade.

Temos o espaço ideal para ir além da empresa, gerando experiências transformadoras para as pessoas. Existe algo mais importante que o talento?!

 

Actualmente, quantos são os vossos clientes e qual o seu perfil?

Nos últimos anos, a Lionesa atraiu uma grande quantidade e qualidade de investimento estrangeiro para o Porto, concretamente para o concelho de Matosinhos, onde está instalada, nomeadamente na área de tecnologias de informação, inovação e desenvolvimento e shared services. Empresas como a Oracle, Farfetch, eDreams, Vestas, Cofco, Klockner Pentaplast e Hilti são algumas das marcas com sede na Lionesa.

O perfil dos nossos clientes passa, essencialmente, por empresas na área das Tecnologias de Informação (TI), as quais representam actualmente 60% da comunidade. Seguem-se as empresas de Shared Services com representação de 13% e as empresas que instalaram na Lionesa as suas áreas de R&D e que actualmente ocupam já 10% do universo.

As restantes empresas distribuem-se pelas áreas de retalho, marketing, indústria farmacêutica e outros. No que diz respeito às empresas com maior dimensão, quer pela área que ocupam, quer pelo número de colaboradores, poderemos destacar a  Farfetch, a Vestas, a Cofco, a Klockner Pentaplast, a Hilti, a RH mais (call center da Vodafone), a Oracle e a Retail Consult.

São cerca de 120 empresas e mais de 5 mil colaboradores de um universo superior a 30 nacionalidades diferentes, com idades médias entre os 25 e 35 anos.

 

No início de 2020, qual era a situação dos grandes centros empresariais? As perspectivas eram de crescimento?

A Lionesa tem em curso a execução de um masterplan. Começámos o ano a seguir escrupulosamente o projecto, porque sabemos que estruturalmente o mercado reclama esse upgrade. Ou seja, continuamos a ter perspectivas de crescimento!

Desde que foi apresentado o masterplan, surgiram novos projectos, como o do parque verde dos arquitectos Sidónio Pardal e Siza Vieira. Creio que é a primeira vez que estes dois nomes ímpares trabalham juntos num mesmo projecto. Com cerca de 5Ha, enquadrado no nosso projecto turístico e cultural do Mosteiro de Leça do Balio, faz com que a expansão da Lionesa integrasse e desenvolvesse o seu projecto em relação e interação com o mesmo, o mosteiro e o seu parque, verdadeiras âncoras da Lionesa e de toda a região.

Relembro que o nosso modelo assenta em construir a “caixa” do edifício, permitindo ao cliente customizar todo o interior, construindo um espaço à sua medida e que é a “sua cara”. No entanto, a nossa meta é executar o projecto que entendemos que consolida o nosso conceito e se tivermos de sacrificar um prazo em função da nossa estratégia assim o faremos.

Neste momento, um dos projectos está em fase adiantada de obra e será entregue no terceiro trimestre de 2020, outros encontram-se em fase de licenciamento e dois em desenvolvimento do projecto e concurso de arquitectura. O Corredor Verde do Leça, a ciclovia do rio Leça, o projecto da Câmara Municipal de Matosinhos estão também em construção na zona da Lionesa, o que representa uma enorme mais-valia para toda a envolvente.

 

Como estão os grandes centros empresariais como a Lionesa, onde cerca de 5 mil pessoas passam o dia, a ajustar-se a esta nova realidade?

Com calma, ponderação e planeamento. Passamos estes dois meses de confinamento a preparar-nos para o regresso. A absorver o que de melhor e mais eficaz se fazia noutros países de modo a retirar os ensinamentos devidos. Tivemos essa “ajuda”, de termos a possibilidade de analisar outros exemplos, noutros países, e de ajustarmos com bom senso e racionalidade, ao nosso contexto.

De facto, o teletrabalho para nós não é novidade, ou não tivéssemos mais de 50% das empresas da área das tecnologias, mas é verdade que percebemos junto das mesmas que não é essa de todo a solução que querem seguir. Precisamos do trabalho de equipa para captar e reter o talento. As nossas empresas querem os colaboradores motivados e felizes, agora mais seguros que nunca. Estamos, por isso, a criar todas as condições para proporcionarmos um regresso gradual e seguro, seguindo todas as normas que a Direcção Geral de Saúde (DGS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconizam, acrescentando outras medidas que entendemos serem úteis.

Cada empresa tem o seu próprio plano de desconfinamento e o nosso articula-se com os mesmos, sendo como uma extensão na relação do interior com o exterior das empresas, focando-se essencialmente nas áreas exteriores, comuns e na comunicação. Estamos a desenvolver acções no sentido de sensibilizar a comunidade a cumprir todas as normas da DGS, vamos ter vários dispensadores de desinfectante, máquinas de vending linha COVID, as áreas de refeições fechadas, como o “marmita point”, vão ser encerradas, e aumentamos exponencialmente locais para refeições e lazer no exterior, que permitam o distanciamento social, como por exemplo zonas de piquenique na margem do rio.

Os nossos restaurantes estão sensibilizados e preparados para servirem em take away e delivery e para promoverem junto das empresas formas de servirem as refeições sem deslocação aos espaços. Mas, para além de todas estas acções, teremos também um serviço que nos parece que será muito útil para as empresas: em parceria com a Unilabs implementamos uma unidade de testes COVID-19, que permitirá às nossas empresas um acompanhamento da saúde dos seus colaboradores.

Vamos assim, ajustando-nos a esta nova realidade, sendo certo que a nossa preocupação são as pessoas.

 

Nas empresas vossas clientes, muitas delas resultado de investimento estrangeiro, como é que esta situação está a ser vivida e gerida?

Desde meados de Março que mais de 70% das empresas foram para homeoffice. No entanto, a pandemia obrigou as empresas a reorganizarem-se num espaço de tempo muito reduzido por um longo período e, como tal, não deixa de ser um enorme desafio. Este é com certeza, um teste à capacidade de resiliência das empresas e, acima de tudo, um teste à sua resistência operacional. Apesar de grande parte destas empresas estar já adaptada ao homeoffice, houve uma série de questões que vão desde a infraestrutura e tecnologia, comunicações e a segurança da informação, que tiveram que garantir sem deixar de cuidar dos seus colaboradores.

Para os líderes, o desafio é agora ainda maior na gestão das suas equipas e a comunicação mais fundamental que nunca.

Do ponto de vista de negócio, este contexto reforçou o papel de algumas, dado actuarem na área tecnológica e sendo já empresas consolidadas.

 

Deram às empresas a possibilidade de suspenderem parte ou a totalidade dos valores de arrendamentos dos próximos seis meses. Até que ponto esta foi uma medida importante?

Era uma medida que se impunha tomarmos, mesmo antes da definição governamental no mesmo sentido. Estarmos ao lado das nossas empresas num momento atípico que apanhou o país e o mundo de surpresa. Neste sentido, a receptividade foi excelente e revelou-se uma medida que, acima de tudo, reforçou os laços que nos unem. Houve um reconhecimento imediato da grande ajuda que a medida poderia dar mesmo que não tivessem necessidade de recorrer à mesma. Até houve mesmo parceiros nossos que estão presentes em dezenas de mercados internacionais e que assinalaram que a nossa proposta foi mundialmente pioneira.

Em termos de impacto, creio que não ultrapassará os 5% na Lionesa e 15% na Fábrica 3ás, da facturação anual, mas mostramos às nossas empresas que estamos com elas nos momentos bons e naqueles que exigem mais força para ultrapassar.

 

Mesmo após a crise, o novo coronavírus mudou as dinâmicas de trabalho. Como se adaptaram?

A equipa de gestão da Lionesa ajustou-se rapidamente a esta nova realidade e, mesmo antes da obrigatoriedade do confinamento, adoptou o homeoffice. Uma parte da estrutura teve que se manter no local para assegurar o funcionamento dos centros, como a manutenção, a vigilância, a limpeza, a recepção das encomendas das empresas que cá estão instaladas e a restante equipa passou a tratar de tudo à distância, sempre atentos aos desenvolvimentos e mantendo um contacto muito estreito com os responsáveis das nossas empresas e, ainda, acompanhando a instalação de novas empresas e o desenvolvimento do fit-out das mesmas.

Admito que eu, particularmente, sinto muito falta do trabalho presencial, do trabalho de equipa, da troca de ideias e da discussão que nos faz crescer e evoluir! Gosto de estar no terreno e de ir aos locais ver a evolução dos projectos! Neste momento, também nos preparamos para o regresso, tendo avaliado junto de cada colaborador, em que condições é que tal seria possível, acima de tudo, pelas necessidades de apoio familiar, nomeadamente, a crianças pequenas e em idade escolar.

 

Com todas as restrições impostas devido à pandemia, como estão a ser pensados os espaços do futuro?

Acredito que o desafio da arquitectura dos espaços, nos próximos tempos, será mesmo a imposição de distanciamento físico. Os escritórios vão voltar aos anos 50 e a vida será a dos anos 20, mas do século XXI. A ocupação por metro quadrado voltará a ser menor, mas aquilo que exigiremos ter no ambiente do escritório ou perto dele será tudo aquilo que precisamos para nos sentirmos realizados: tecnologia, transportes, lazer, cultura, consumo e, agora ainda mais, saúde.

As nossas empresas têm todas entradas individuais, o espaço exterior é vasto e está dotado de uma série de infraestruturas, o que pode permitir reuniões e encontros em segurança. O futuro vai passar cada vez mais pelos edifícios inteligentes, pelo reforço do investimento na arquitectura de interiores, pelos espaços verdes, no fundo, segue o que já se preconizava para este sector, acrescentando a exigência da segurança sanitária e da urgência da qualidade de vida em contexto de trabalho.

A multiplicidade de serviços ao dispor das empresas e dos seus colaboradores, a envolvência paisagística e natural, a presença da arte em cada esquina, a ligação a grandes vias de comunicação que permitem de forma rápida de chegar aos principais centros urbanos do país e a proximidade da praia, são só alguns dos factores diferenciadores da nossa casa.

 

Confiança no local de trabalho é um factor importante que as empresas devem transmitir aos colaboradores?

Extremamente importante. A confiança é a base de qualquer relacionamento. E, assim como a nível pessoal, ela é fundamental e vai sendo construída,  o mesmo acontece a nível profissional. Para tal, é necessário que cada um de nós dê o seu melhor, conquistando a confiança com acções e comportamentos diários. Mas a partir do momento em que se estabelecem relações de confiança, os resultados são claros: a motivação e a produtividade aumentam e o engagement dos colaboradores com a empresa sai reforçado.

No actual enquadramento, estando a maior parte da equipa em homeoffice, a confiança é ainda mais importante.

 

Num período como aquele em que vivemos qual é o vosso principal desafio ou desafios?

Num primeiro momento, o principal desafio foi a reorganização de toda a operação com praticamente toda a equipa em homeoffice. No entanto, o contexto trouxe também uma excelente oportunidade para identificar lacunas da empresa na transformação digital e para investir em ferramentas que eliminem processos e reduzam a necessidade da presença física. Estamos por isso a desenvolver ferramentas nesse sentido, em que será possível visitar a Lionesa à distância de um click e também ao nível do customer care.

 

Podemos retirar alguns ensinamentos desta situação?

Acredito que de todas as situações devemos retirar ensinamentos, nada nos preparou para uma pandemia desta natureza e não há nenhum estudo ou estratégia testada para melhor lhe responder. Por muito que se fale que já havíamos sido alertados para situações deste género, a verdade é que tenho sérias dúvidas que alguém pudesse algum dia ter antecipado uma tragédia desta natureza à escala planetária.

Agora defendo que, tratada a saúde, temos que nos voltar com seriedade para a economia. E sairemos desta crise ao ritmo que soubermos responder. Quanto mais rápidos formos na resposta, na implementação de soluções, mais rapidamente conseguiremos ultrapassar e seguir em frente. E termos a noção que a saúde e o bem-estar das pessoas mais do que nunca devem estar em cima da mesa de discussões quando se fala em trabalho e em locais de trabalho.

 

De que forma perspectiva o futuro do sector?

Este sector estava já numa fase muito interessante, extremamente competitiva e a escassa oferta de qualidade mantém-se. Factores como talento, segurança, qualidade de vida, características pelas quais Portugal era escolhido pelas grandes empresas do mundo para se fixarem não só se mantêm como a marca Portugal saiu reforçada.

Todas as crises trazem oportunidades, o aumento exponencial das vendas online, vai fazer crescer algumas indústrias, nomeadamente a da logística e, portanto, serão necessários escritórios de apoio às mesmas. Portugal continua a ser destino de investimento, estou crente que se vai manter o negócio nuns casos e até crescerá noutros.

O maior impacto julgo que será ao nível da arquitectura interior dos edifícios em termos de ocupação e usos, por outro lado a vertente humana será cada vez mais importante. Será um pouco como em tudo na vida, diferenciado à imagem de quem consome. Ou seja, cada empresa vai precisar de construir a sua própria arquitectura espacial que traduza o melhor possível a lógica organizacional que adoptou e que, sendo individual, será certamente mais personalizada, mais espaçada, mais limpa e segura, mais sustentável e, sobretudo, mais criativa.

É aqui que achamos que está o futuro e, felizmente, já é este em grande medida o presente da Lionesa.

 

 

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