Elogio ao líder mundano. E a falta que faz “levantar os olhos” dos livros de gestão

«Um bom líder é, antes de mais, um bom ser humano. E um bom ser humano não se imita. Mas ensina-nos mais do que qualquer livro de gestão.»

 

Por Maria João Gomes, partner da Odgers Berndtson

 

Num dia de chuva, depois de horas a conduzir madrugada fora, chego a um cliente para uma reunião importante, mesmo à hora marcada. O meu cliente aproxima-se e enquanto me agradece o esforço para estar ali tão cedo, convida-me para um pequeno almoço saudável, que preparámos em conjunto na sua copa improvisada, e ali começámos o dia, em versão “slow”, enquanto me explicava que aquele era um projecto pessoal dele (CEO), pois queria ajudar as suas equipas a ter uma vida melhor, mais equilibrada, mais saudável.

E assim, ao som de um bom jazz, dedicámos uns minutos a partilhar coisas mundanas, da vida, das artes, da literatura, do fim de semana. Partilhou a sua visão sobre a diversidade e inclusão, as histórias de duas pessoas da empresa e como lutavam para querer ser iguais, quando o que ele queria era que eles fossem apenas e só diferentes. Ainda hoje recordo como um dos momentos mais enriquecedores e inspiradores que tive. Tratava-se de um homem admirável, inteligente, criativo, mas, acima de tudo, de uma pessoa rica, aberta e muito atenta ao mundo que o rodeia.

Às vezes sinto que nos faz falta “levantar os olhos” dos livros de gestão, das estatísticas, das biografias, dos grandes líderes mundiais que parecem perfeitos e que só nos fazem pensar como somos imperfeitos… Bons líderes e boas histórias devem sempre inspirar-nos, mas acima de tudo devemos lembrar que bons líderes são pessoas reais, que estão aqui próximas,  são aquelas que mais nos enriquecem ao longo da vida.

Se há coisa que esta pandemia nos ensinou é que os líderes estão em todo o lado: naquela senhora de Abrantes que passou a servir refeições gratuitas a quem precisava, aos colegas da sede que acordaram às 5 da manhã para ajudar lojas com falta de pessoal porque tinham filhos pequenos em casa, no condutor da Carris que emprestou os olhos e ouvidos a desabafos de quem desesperava com falta de esperança.

Numa altura em que tendemos a endeusar “o propósito” (referência ao “Start with Why” do Simon Sinek, e outros), pergunto se sabemos qual o propósito dos nossos ídolos, dos nossos líderes, e se eles sabem qual é. O mais provável é que nem para o mais inspirador dos líderes o propósito esteja assim tão claro, porquanto é difícil estruturar num pensamento, algo que nasce do sentimento, que não se inscreve numa frase, mas antes nos é tão íntimo, intrínseco.

Uma coisa é certa: Um bom líder é, antes de mais, um bom ser humano. E um bom ser humano não se imita. Mas ensina-nos mais do que qualquer livro de gestão. A liderança não é uma “coisa” diferente, isolada de quem somos. E não é seguramente uma coisa das empresas. Não está nas teias corporativas com regras hierárquicas definidas, jogos de influência e exercícios de poder mais ou menos expectáveis. Não. A liderança constrói-se da riqueza mundana, das conversas com pessoas tão diferentes de nós, da discussão de ideias, do choque da novidade e daquilo que nos coloca em causa, que questiona as nossas certezas e dogmas. É tudo aquilo que vivemos, aprendemos e ensinamos que nos faz líderes. E é isso que trazemos, por fim, para dentro das organizações.

Antes do líder, está a pessoa. Enriquecê-la, fazê-la crescer, aprender, é reforçar o líder, capaz de assegurar o círculo virtuoso da liderança: antecipar oportunidades, acreditar e perseguir sonhos; inspirar e partilhar com os outros; e entregar resultados, muitas vezes aqueles que ninguém esperava.

Quer ser um líder melhor? Vá onde nunca foi, conheça pessoas novas, faça o que ainda não fez. Não podemos acrescentar nada de novo ao mundo, aos nossos, às nossas equipas, se fizermos todos os dias o mesmo, se nos dedicarmos sempre e só à “mesma causa”. Não falo de aprender em cursos online mais ou menos conceituados, que são úteis mas que por vezes nos fazem correr o risco de serem mais… do mesmo. Não falo de fazer solidariedade, porque parece bem ou é politicamente correto. Falo de descoberta, de curiosidade, de experiências que nos causam nervoso miudinho, aquela excitação da primeira vez que nos confrontamos com algo de novo ou no qual nunca tínhamos pensado ou para a qual não estávamos preparados. Coisas que nos parecem interessantes, sem termos de saber porquê, apenas porque nos parecem bonitas ou, noutras palavras, inspiradoras. Seja aprender um novo instrumento, ouvir nova música, explorar novos movimentos artísticos, comprar um livro de quem nunca ouvimos falar. Tudo aquilo que nos enriquece, nos torna mais interessantes e interessados pelo mundo.

Se quer ser um líder melhor, questione mais, aceite menos o óbvio ou o “sempre se fez assim”, pergunte, procure, critique, apaixone-se, elogie. E olhe por si. Seja um pai/mãe mais presente, um marido/mulher mais generoso, um filho(a) mais próximo (a), um amigo mais disponível.

Afinal parece tão simples: Se quer ser um líder melhor, seja uma pessoa melhor.

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