No Dia Internacional das Famílias, que se celebra hoje, o Doutor Finanças apresenta os resultados do 1.º Barómetro de Hábitos Financeiros dos Portugueses, desenvolvido em parceria com o Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica Portuguesa. Além de avaliar o grau de literacia e os comportamentos financeiros da população em Portugal, visa monitorizar tendências e apoiar estratégias de educação financeira.
Os dados revelam que quase metade dos inquiridos (45%) não poupa de forma regular. E entre os que poupam, perto de metade poupa entre 5 e 20%. Só 32% afirmam reservar parte do rendimento logo no início do mês. Já 21% admitem não ter qualquer hábito de poupança, sendo esta falta de regularidade mais comum entre as faixas etárias mais velhas.
«A iliteracia financeira é parte do problema, mas não é tudo», revela à Human Resources Sérgio Cardoso, Chief Education Officer do Doutor Finanças. «Falamos também de uma forte componente comportamental. É verdade que muitos portugueses têm rendimentos baixos, mas também é verdade que, mesmo com poucos recursos, é possível criar hábitos de poupança. Há inúmeros exemplos de pessoas com rendimentos mais baixos que conseguiram, ao longo da vida, construir uma reserva financeira sólida.
A seu ver, o desafio está em duas frentes: melhorar o conhecimento técnico e transformar comportamentos. «Podemos repetir vezes sem conta que o ideal é poupar pelo menos 10% do rendimento mensal, mas isso de pouco serve se não ajudarmos as pessoas a estruturar esse hábito. Uma simples mudança, como automatizar uma transferência para uma conta-poupança logo no início do mês — e não apenas quando “sobra” dinheiro — pode fazer toda a diferença. Poupar tem menos a ver com quanto se ganha, mas sim com a forma como se gere o que se tem.»
A forma como as famílias abordam o dinheiro também esteve em foco neste estudo, que conclui que mais de um terço (35%) fala muito esporadicamente ou nunca sobre dinheiro em família — sendo esta realidade mais comum nos agregados familiares com idade mais avançada. Sobre esta dificuldade em falar sobre dinheiro, o Chief Education Officer considera que o tema continua a ser tabu em muitas famílias e sinónimo de desafios. «Adicionalmente, não tanto por falta de vontade, mas por falta de ferramentas: muitos pais não sabem como abordar o tema, que linguagem usar ou que nível de detalhe é adequado, especialmente quando se trata de crianças.»
Aliás, a literacia e autonomia financeira dos filhos também foi alvo de análise. A maioria dos pais afirma dar dinheiro aos filhos quando estes precisam, mas poucos envolvem os menores na gestão do seu próprio dinheiro: entre os maiores de 10 anos, cerca de 60% limitam-se a dar dinheiro apenas quando solicitado, apenas 30 a 40% dos jovens a partir dos 10 anos recebe semanada ou mesada. A principal forma de os mais novos guardarem ou gerirem o dinheiro é o tradicional “mealheiro” (51%), seguido das contas de depósito a prazo (39%). Apenas 3% recorrem a produtos financeiros mais estruturados.
«O barómetro mostra que 33% dos pais evita falar de dinheiro com os filhos até aos 6 anos por achar que “não é um assunto para crianças”. Mas é precisamente desde cedo que devemos começar a incluir os mais novos nestas conversas. Sustentabilidade financeira não e uma ciência, é uma soft skill, os comportamentos são chave e estes devem ser ensinados desde cedo. Não precisam de tomar decisões, mas devem observar e participar. Isso ajuda a criar uma consciência financeira desde a infância. Falar de dinheiro em família não é apenas uma questão de literacia: é uma questão de bem-estar e preparação para o futuro», garante.
No que diz respeito à poupança e ao investimento, o estudo mostra que os depósitos a prazo continuam a ser a principal forma de aplicar dinheiro (29%), seguida pelos Certificados de Aforro (15%). Apenas 4% recorre a activos digitais como forma de investimento. A banca tradicional continua a dominar: 58% dos investidores utilizam-na, 48% de forma exclusiva. As mulheres tendem a optar mais por este canal do que os homens. A segurança é o critério mais valorizado na escolha de um produto financeiro (42%), seguida pela rentabilidade esperada (22%).
No universo dos inquiridos, 27% possui crédito habitação e pouco mais de metade (53%) indica que paga sempre os seus créditos. Destaca-se ainda uma elevada taxa de não resposta a esta questão (42%) que é transversal a todos os níveis de rendimento. Apesar de a maioria dos inquiridos dizer que gere as suas próprias contas bancárias, mais de metade dos casais (57%) tem conta própria e apenas 54% tem conta conjunta, o que significa que há casais com várias contas bancárias.
O que falta fazer para promover e melhorar a literacia financeira dos portugueses? «O primeiro passo é investir seriamente na formação», garante Sérgio Cardoso. «Hoje temos muita informação disponível, mas quem não sabe nada sobre um determinado não sabe sequer por onde pode começar. Por isso, é essencial criar bases sólidas: conteúdos simples, claros, bem estruturados — e acessíveis a todos.»
E acrescenta que é igualmente «urgente integrar a literacia financeira nos programas escolares desde cedo, com professores e auxiliares capacitados». «Precisamos de tratar este tema com a mesma naturalidade com que falamos de alimentação saudável ou reciclagem. A literacia financeira não é uma disciplina de elite, nem um assunto reservado a economistas. É uma competência de base, essencial para garantir autonomia, tomada de decisões conscientes e, no fim, uma melhor qualidade de vida para todos.»
«É um desafio nacional e não será possível ultrapassar sem o envolvimento e alinhamento de todos os stakeholders. Aumentar o nível de literacia financeira, não aumenta apenas o conhecimento sobre este tópico, é um garante de maior bem-estar geral e equilíbrio na nossa vida», conclui
O estudo foi realizado entre os dias 2 e 17 de Abril, através de um inquérito com 700 respostas válidas de pessoas residentes em Portugal, com idades entre os 18 e os 65 anos, assegurando representatividade nacional em termos de género, idade, região e escalão socioeconómico.














