A viagem pelo mundo do empreendedorismo é marcada por várias etapas, sendo a passagem pela via do empreendedorismo corporativo contruída por momentos de aprendizagem e de desenvolvimento. E também de desconstrução e de desencanto. Ficar ou partir para outros voos? Ou, melhor ainda, será possível ficar e partir para novas aventuras? Hoje, vamos à boleia com o empreendedor híbrido e descobrir como é possível ter o melhor dos dois mundos.
Por Rita Oliveira Pelica, chief Energy officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs
O empreendedorismo híbrido não é um conceito muito recente na literatura, tendo sido cunhado em 2010 (Folta et al.), mas admito que ainda seja pouco conhecido e que, por isso mesmo, mereça a pena ser divulgado – não só como potencial fonte de realização pessoal, mas também pensando que as organizações podem beneficiar com esta abordagem contraintuitiva. De acordo com estes autores, o empreendedor híbrido é aquele que mantém um trabalho pago enquanto fonte primária de remuneração, tendo um vínculo contratual com uma organização, mas gerando – simultaneamente – outros rendimentos, oriundos de projectos por conta própria (isto é, enquanto empreendedor).
Há uns anos, chamar-lhe-íamos “fazer uns biscates”. Actualmente, num cenário “covidiano” e de grande instabilidade, marcado pela já consagrada gig economy (esta sim, uma buzzword mais apelativa e moderna), chamamos-lhes side projects ou projectos pessoais. Estes autores consideram esta “opção híbrida” como uma possibilidade de entrada no mundo do empreendedorismo (leia-se, a criação do próprio emprego ou negócio), mas mantendo o trabalho assalariado – que continuará a ser a fonte primária de rendimento.
E o que é que pode estar na base da motivação desta escolha do modelo híbrido? Essencialmente, três razões: a geração de rendimentos suplementares, a obtenção de benefícios não monetários (realização pessoal, até noutra área de interesse), e um caminho para a transição (com mais segurança e testando previamente o projecto que se pretende desenvolver).
Importa ainda destacar que este estudo evidencia e valida que a “entrada híbrida” no mundo do empreendedorismo influencia, mas não determina, a sua entrada. Ou seja, nem todas as pessoas que começam a desenvolver projectos pessoais acabam por sair da organização e, consequentemente, não pode haver apenas esta visão negativa do empreendedor híbrido. Há que ter, também, uma visão positiva. Veja-se o impacto que esta situação pode ter na motivação dos colaboradores, com menos preocupações financeiras e a realizarem projectos em áreas do seu interesse, com os quais se sentem mais realizados e felizes, e, naturalmente, ao nível dos benefícios para a empresa, onde continuam a trabalhar com um bem-estar acrescido. Paralelamente, colaboradores mais empreendedores são também essenciais para a organização, com uma mentalidade focada em experimentação e inovação. E menos resistentes à mudança.
Adicionalmente, Viljamaa & al. (2017) apresentam dois conceitos inerentes ao empreendedorismo híbrido, com base na intenção do empreendedor em permanecer (ou não) num formato híbrido. Podemos falar em empreendedores híbridos permanentes (sem intenção de se tornarem empreendedores “puros”), ou temporários (utilizando esta via como uma oportunidade de transição para a via exclusiva do empreendedorismo). No seu estudo, evidenciam que apenas uma minoria da sua amostra pretende “dar o salto” para criar o seu emprego/negócio e, daqueles que o fazem, fazem-no por motivos de realização pessoal – mantendo o conforto e a segurança de “ter um emprego” (mitigando o risco com contexto de incerteza).
Desconstruindo, não existirá um formato que sirva a todos, mas as escolhas não têm de ser apenas duas possibilidades mutuamente exclusivas – trabalhar numa organização ou trabalhar por conta própria. Podemos ter ambas as facetas. Não é novidade, mas pode ser cada vez mais uma outra normalidade e, até, uma resposta interessante ao fenómeno da “grande resignação”.
Este artigo foi publicado na edição de Maio (nº.137) da Human Resources.
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