Entrevista a Clara Albuquerque, BCG. «Houve progresso relevante na saúde mental em Portugal, mas a mudança cultural ainda não está concluída»

A Boston Consulting Group (BCG) lançou recentemente os resultados de um estudo global – incluindo Portugal –, com percepções sobre bem-estar psicológico, considerando também a sua relação com o trabalho. E os dados são encorajadores. Mas Clara Albuquerque, managing director e partner na consultora, alerta que a recuperação parte de uma base ainda frágil.

Human Resources
27 de Maio 2026 | 10:10

Por Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho

Um dado que desde logo se destaca no “Consumer Sentiment Survey”, da BCG, é que os portugueses continuam a atribuir um peso muito relevante ao trabalho como fonte de estabilidade e pertença. E que, ainda que os principais factores para o bem-estar psicológico sejam a saúde física, a relação com familiares e a saúde financeira, 77% consideram que o trabalho contribui para a saúde mental. E os principais drivers são as relações pessoais, com os colegas, depois o espaço de trabalho e a flexibilidade e relação com o chefe.

Clara Albuquerque acredita que o tema do bem-estar entrou de forma clara na agenda das organizações e hoje está ligado a retenção, produtividade, engagement, reputação empregadora e tem impacto directo no negócio. Mas há um risco: tratar o tema de forma cosmética. «Quando há iniciativas sem mudança no estilo de liderança ou nas práticas de gestão, o impacto é necessariamente limitado», alerta a managing director.

 

A BCG apresentou recentemente o estudo global “Consumer Sentiment Survey”, que inclui dados específicos sobre Portugal. Como se compara a realidade portuguesa com a de outros países, nomeadamente em relação ao bem-estar no trabalho?
De acordo com o “Consumer Sentiment Survey”, 61% dos portugueses dizem sentir-se bem ou optimamente do ponto de vista psicológico, uma melhoria significativa face a 2021, quando 20% reportavam algum grau de instabilidade.

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Em comparação com outros países, os portugueses continuam a atribuir um peso muito relevante ao trabalho como fonte de estabilidade e pertença, sobretudo quando existe um bom ambiente relacional. O que mais distingue o caso português é precisamente essa dimensão humana: mais do que benefícios acessórios, o que pesa na percepção de bem-estar é a qualidade das relações com colegas e lideranças, a previsibilidade e a possibilidade de conciliar exigência com estabilidade.

 

O estudo revela sinais positivos de recuperação ao nível da saúde mental no País, ao mesmo tempo que o INE lança um relatório a alertar para níveis graves de ansiedade em mais de 11% da população, sendo Portugal um dos países da OCDE com maior consumo de ansiolíticos e antidepressivos. Como interpreta este aparente paradoxo?
Não vejo uma contradição, mas sim uma leitura complementar da realidade. O nosso estudo mede percepção e evolução sentida pelas pessoas; outros indicadores captam sofrimento clínico, prevalência de ansiedade ou resposta terapêutica. São ângulos diferentes sobre o mesmo fenómeno.

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O que os dados mostram é que existe uma recuperação em curso, mas essa recuperação parte de uma base ainda frágil. A percentagem de portugueses que se sente psicologicamente instável desceu de 20%, em 2021, para 14%, em 2025 – um progresso real, mas que estagnou nos últimos dois anos, o que sugere que as melhorias mais fáceis já foram alcançadas. As pessoas podem sentir melhorias face aos últimos anos e, ao mesmo tempo, o País continuar a registar níveis elevados de ansiedade e consumo de medicação. Isso não é paradoxal, mostra apenas que houve progresso, mas ainda não uma normalização estrutural.

 

Um dado interessante é que 77% dos portugueses consideram, hoje, que o trabalho contribui para o seu bem-estar psicológico. O que acredita que explica estes dados?
De ressalvar que, em geral, os principais factores para o bem-estar psicológico são a saúde física, relação com familiares e saúde financeira. Só depois destes factores é que os portugueses mencionam o trabalho e/ou carreira.

Em relação à elevada percentagem de portugueses que sente que o seu trabalho proporciona condições para estar psicologicamente bem, os grandes drivers são as relações pessoais, com os colegas, depois o espaço ou local de trabalho e, finalmente, a flexibilidade e relação com o chefe.

Nessa perspectiva, a melhoria é, em parte, reflexo da maior preocupação das empresas e da inclusão do bem-estar dos colaboradores como prioridade para os Recursos Humanos (RH). Nos últimos anos, houve investimento em flexibilidade, liderança de proximidade, apoio psicológico e maior atenção ao equilíbrio entre desempenho e sustentabilidade.

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De notar que essa percepção positiva não é uniforme: há uma diferença de oito pontos percentuais entre homens – 81% – e mulheres – 73% –, o que aponta para experiências profissionais ainda desiguais.

 

Ainda assim, releva que, mesmo no novo paradigma laboral, evidenciado sobretudo pelas novas gerações, o trabalho continua a ser importante para o bem-estar…
A importância do trabalho não mudou, mas sim a forma como ele é enquadrado. Principalmente as gerações mais jovens, não aceitam é que o trabalho ocupe por completo a sua identidade, nem que consuma toda a sua energia disponível.

O trabalho continua a ser central para o bem-estar psicológico, mas já não é aceite como “centro exclusivo da vida”. Esse é um ponto de inflexão importante para as empresas, porque obriga a repensar modelos de liderança, expectativas e formas de criar compromisso.

 

Há diferenças relevantes entre gerações, sectores ou perfis profissionais nesta percepção de bem-estar?
Sim, e algumas são bastante expressivas, nomeadamente entre gerações e perfis. Os mais jovens tendem a valorizar mais flexibilidade, cultura e liderança; outros perfis dão maior peso à estabilidade, ao reconhecimento e à previsibilidade.

Entre sectores, as diferenças reflectem culturas organizacionais muito distintas. O que funciona numa empresa tecnológica pode não ressoar numa organização mais hierárquica ou com forte componente operacional. Isso significa que o bem-estar não pode ser tratado de forma uniforme dentro das organizações.

 

Leia o artigo na íntegra na edição de Maio (nº. 185) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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