
Entrevista a Pedro Santa Clara: «O modelo educativo tradicional está esgotado. Não prepara ninguém para o mundo real.»
Professor de Finanças, Pedro Santa Clara tem-se destacado como empreendedor no âmbito da educação, tendo criado projectos como a 42 e o TUMO. Muito crítico de um modelo de ensino rígido que está a «formar alunos para um mundo que já não existe» e convicto de que a Educação é o principal motor de competitividade, mobilidade social e do futuro do trabalho, quer contribuir para que «Portugal se torne uma referência na construção de um sistema educativo mais eficaz, inclusivo e preparado para os desafios do século XXI».
Por Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho
A frustração com instituições de ensino com «regulação pesada, processos de decisão lentos e uma cultura pouco aberta à experimentação» levou Pedro Santa Clara a fundar a Shaken Not Stirred, de onde nasceram iniciativas como a 42 (Lisboa, em 2020; Porto, em 2022), o TUMO (2022) e o AI Dive for Business (para as empresas), que partem todas do mesmo princípio: as pessoas aprendem muito melhor quando têm autonomia, propósito e desafios reais. E a resposta do mercado prova a urgência e necessidade destes modelos. E o WISE Prize for Education, recentemente recebido pelo TUMO, confirma que «é possível reinventar a aprendizagem de forma séria, escalável e verdadeiramente inclusiva», e que «Portugal pode ocupar um lugar de liderança na inovação educativa».
Curiosamente, o desencanto não fez com que abandonasse a Academia, onde tem um percurso sólido. Porque acredita que ensino tradicional e empreendedorismo não são modelos antagónicos, são complementares. «O objectivo não é substituir a escola, é mostrar que existem alternativas de aprendizagem muito mais eficazes.» Pedro Santa Clara está convicto de que «investir em educação prática, tecnológica e centrada nas pessoas não é apenas uma boa ideia, é uma necessidade urgente. Não se trata apenas de preparar jovens para empregos. Trata-se de preparar a sociedade para o futuro.»
É licenciado em Economia e começou a sua carreira como professor de Finanças, actividade que ainda exerce. Mas, a dada altura no seu percurso, muda o foco para o empreendedorismo, centrado na educação e inovação. O que esteve na origem desta “reorientação” do seu caminho, saindo do percurso meramente académico?
Resultou da combinação de dois factores: frustração e oportunidade. Frustração com um sistema de ensino que continua a replicar fórmulas do século XIX, incapaz de preparar os jovens para um mundo em constante e acelerada transformação. E oportunidade, porque percebi que era possível desenhar modelos educativos mais eficazes, acessíveis e inclusivos.
Enquanto professor, testemunhei de perto os limites da sala de aula tradicional. E compreendi que, se queria realmente contribuir para uma mudança estrutural, teria de sair do espaço académico e ajudar a construir alternativas. Foi esse impulso que esteve na origem de projectos como a 42 e o TUMO.
Consegue identificar o momento em que percebeu que a sua visão para a educação ultrapassava a do meio em que estava inserido?
Houve vários sinais ao longo do tempo, mas o mais marcante foi perceber que muitos alunos com enorme talento estavam a perder oportunidades por causa de modelos educativos demasiado rígidos. Ao mesmo tempo, tornou-se evidente que a tecnologia abre portas a abordagens pedagógicas muito mais eficazes, inclusivas e escaláveis.
Mas, quanto mais procurava introduzir inovação dentro das instituições, mais encontrava barreiras: regulação pesada, processos de decisão lentos e uma cultura pouco aberta à experimentação. A certa altura, tornou-se evidente que algumas ideias simplesmente não cabiam dentro da universidade tal como está estruturada hoje. E, se queria realmente testá- las e fazê-las crescer, teria de o fazer fora desse contexto.
Durante 13 anos, leccionou nos Estados Unidos, que tem métodos de ensino bastante diferentes do europeu… O que o fez voltar?
Voltei porque surgiu a oportunidade de construir algo relevante em Portugal e porque senti que era o momento certo para ter impacto directo no meu país. Os anos nos EUA foram marcantes e mostraram- me um contraste claro com a Europa: existe uma cultura muito mais aberta ao risco, uma ligação natural entre empresas e universidades, e uma enorme agilidade para testar, errar e ajustar. Não é tanto uma diferença entre sistemas educativos, é mais uma diferença de atitude.
Quando existe vontade real de experimentar, a educação avança. Em Portugal, o talento existe, mas continua a ser travado por processos lentos, excesso de burocracia e uma cultura com fraca tolerância ao erro. É isso que precisamos de mudar se quisermos preparar melhor as próximas gerações.
Foi a partir de 2019 que se envolveu mais activamente em projectos de educação “alternativos” – fundou a Shaken not Stirred, de onde nasceram iniciativas como a 42 e o TUMO, que já referiu. Qual a visão subjacente a estes projectos e o que os diferencia?
A visão é simples: o modelo educativo tradicional está esgotado. Não prepara ninguém para o mundo real, que evolui a um ritmo que a escola não consegue acompanhar. Continuamos a ensinar como se estivéssemos na era industrial: programas fixos, aprendizagem passiva, avaliação centrada na repetição. Isso já não serve.
Os projectos que lançámos – 42, TUMO ou o AI Dive for Business – partem todos do mesmo princípio: as pessoas aprendem muito melhor quando têm autonomia, propósito e desafios reais.
A 42 rompe com tudo o que é convencional e parte de uma ideia simples: no mundo real não há alguém a dizer-nos o que fazer. Assim, não há professores, nem aulas, nem horários. A aprendizagem é feita por projectos e entre pares, com um grau de exigência altíssimo e um foco claro em competências reais. Os alunos aprendem a identificar problemas, a procurar soluções, a trabalhar em equipa e, acima de tudo, a assumir responsabilidade pelo seu progresso. As vantagens são evidentes: desenvolvem autonomia, resiliência, pensamento crítico e uma capacidade de resolver problemas complexos, algo que o mercado valoriza de forma imediata e crescente.
No TUMO, damos a jovens dos 12 aos 18 anos um espaço onde podem explorar tecnologia e criatividade ao seu ritmo, com liberdade para experimentar, falhar e descobrir o que os motiva. E o AI Dive for Business leva essa abordagem para dentro das empresas: aprendizagem prática, intensiva e orientada para resolver problemas reais com inteligência artificial.
O objectivo não é substituir a escola, é mostrar que existem alternativas de aprendizagem muito mais eficazes, inclusivas e motivadoras. E, acima de tudo, criar exemplos concretos de inovação educativa, que Portugal pode escalar, se tiver ambição para isso.
O sucesso dos projectos fala por si, mas notou resistência ao conceito, no início?
Houve resistência, como é natural sempre que se desafiam modelos instalados. É o reflexo de um sistema que, por estar demasiado habituado a funcionar dentro de certos parâmetros, tem dificuldade em lidar com o que foge à norma. A maior parte da resistência veio das estruturas formais – regulação desadequada, exigências burocráticas pensadas para um modelo tradicional de ensino e uma incapacidade geral de classificar aquilo que não se encaixa nos moldes existentes.
Mas, curiosamente, o mercado reagiu de forma muito diferente. As empresas perceberam quase de imediato o valor do que estávamos a construir, como prova a rapidez com que os alunos da 42 são integrados no mercado de trabalho. Quando alguém chega com autonomia, disciplina, espírito crítico, capacidade de trabalhar em equipa e vontade genuína de aprender, não é preciso grande justificação – essas são precisamente as qualidades mais procuradas hoje.
Leia o artigo na íntegra na edição de Dezembro (nº.180) da Human Resources.
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